Patrícia Cançado
Patrícia Cançado

No aplicativo, mas em busca de emprego fixo

Lucas Rocha ficou dois meses parado antes de ser demitido

Patrícia Cançado, Impresso

18 Dezembro 2016 | 05h00

Virar motorista do Uber foi a “tábua de salvação” para Lucas Rocha, 46 anos. Ele trabalhava como motorista em empresa de lixo e ficou dois meses parado após ser demitido. “Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo”, conta. Incentivado pela filha mais velha, trocou a Parati 2002 por um C3, cadastrou-se no aplicativo e cinco dias depois começou a rodar. Embora ganhe mais que no emprego anterior, segue procurando trabalho fixo, para ter a segurança da carteira assinada.

Rocha ainda está se adaptando à cartilha do Uber. Conta que ficou 48 horas bloqueado por causa de uma pontuação ruim pelo atendimento. “Eu não coloco mais balinhas para lembrar de oferecer às pessoas e daí puxar papo”, diz. Ser bom de papo é um dos critérios de avaliação do motorista pelo usuário. Profissional divertido e atencioso também pode contar pontos. O cliente ainda pode conceder estrelinhas pelo conforto do carro e pela música tocada.

Um dos profissionais entrevistados pelo Estado – e que preferiu manter o anonimato – disse temer o controle do Uber sobre os motoristas. A companhia afirma não ter vínculos com seus parceiros, já que são eles que contratam a plataforma da empresa americana para prestar o serviço de transporte. “Essa independência não é total. Eu não posso cancelar mais do que três corridas no mesmo dia, por exemplo. O Uber sabe exatamente quantas freadas ou acelerações bruscas eu dou e depois pode chamar minha atenção por isso”, conta. Publicitário de formação, ele também tem dificuldade em se adaptar à nova rotina. “Tem gente que entra e não olha na minha cara. Vai embora sem dizer bom dia. Difícil lidar com essa frieza”, relata.

“O Uber não é minha área”, vai logo avisando o chef de cozinha Fábio Rigonati, 65 anos e dono de um currículo extenso. É formado em Administração em Gastronomia e Hotelaria pelo Senac, com pós-graduação em Hotelaria pela Universidade Cornell (EUA) e gastronomia pela Lausanne, na Suíça. Já teve hotel nos anos 80 – até perder tudo na era Collor –, foi chef de cozinha na Sardenha (Itália) e consultor gastronômico de celebridade. Seu último emprego foi na IMC, onde elaborava o cardápio das companhias aéreas. O dólar alto o colocou, e muitos de seus colegas de empresa, na estatística do desemprego. “Para mim, não vale a pena sair de casa para ganhar menos de R$ 2 mil”, diz. “Virar motorista do Uber foi desespero de causa. Se não aparecer nada melhor, vou ter de continuar.”/ P.C

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