Tiago Queiroz/ Estadão
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Elena Landau
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No BBB, há oportunidade para Camarote e Pipoca se igualarem, na vida real, não é assim

A mobilidade social no mundo real é baixa. É preciso muitas gerações para superar as desvantagens de nascença

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2022 | 04h00

Mesmo não sendo fã de BBB, não dá para ficar alheia. As conversas, virtuais ou não, acabam na discussão de quem irá para o paredão. Não acompanho, mas sei que tem a turma do Camarote e a da Pipoca, o VIP e a Xepa. Verdadeira disputa entre os mais e os menos privilegiados. Mas, diferentemente do mundo real, lá há mobilidade social.

O espírito empresarial e o planejamento podem ajudar o pessoal da Xepa a gastar melhor do que o VIP, o bom estrategista supera as desvantagens iniciais e pode virar líder. Há espaço para que oportunidades se igualem e para a meritocracia. Ano passado, três pipocas estavam entre os quatro finalistas.

No mundo real, não é assim. O CEP de cada criança tem influência no seu futuro. A mobilidade social por aqui é baixa; é preciso muitas gerações para superar as desvantagens de nascença.

Por conta disso, sistemas foram desenhados para dar chances aos nossos pipocas. É o caso das cotas raciais, que permitem maior equilíbrio entre pretos e brancos nas universidades públicas. Ou do SUS, que, mesmo com todos os seus problemas, ajudou a universalizar o acesso à saúde. A rede pública de educação, longe de ser perfeita, tem muitos casos de sucesso para serem reproduzidos em escala maior. Muito mais pode ser feito para aprimorar cada um desses serviços, sem gastar mais.

Cerca de 25% do PIB são destinados a saúde, educação e políticas sociais, incluindo Previdência. Gastos públicos, no total, chegam a quase 40% do PIB – acima da média dos países emergentes.

O desafio é aumentar a eficiência dessas ações, começando pela avaliação do impacto de cada uma delas sobre desigualdade, hoje e no futuro, reorganizando-as em torno das mais efetivas. Um exemplo é o PL de Responsabilidade Fiscal, de autoria do senador Tasso Jereissati, que dá ênfase à primeira infância, ao aprendizado e à volatilidade dos ganhos no mercado informal, sem aumentar despesas. Há também muitos problemas de gestão. A maioria de escolas e hospitais ainda é administrada por indicados de políticos, sem qualquer experiência.

No lado da arrecadação tem muito para ser revisto. O poder econômico e político do camarote criou muitas distorções como os regimes especiais no Imposto de Renda, isenções tributárias e subsídios explícitos e implícitos. A desigualdade já começa na alocação de recursos públicos.

Aqui fora, a disputa entre camarote e pipoca não funciona como na casa do BBB. E o cercadinho VIP não para de crescer.

PS. Estou colaborando com a pré-campanha da senadora Simone Tebet. Esse espaço continua sendo meu: livre, leve e solto. 

*ECONOMISTA E ADVOGADA. CONTRIBUI COM O PLANO ECONÔMICO DE SIMONE TEBET

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