No Brasil, a fábrica que poderia salvar a GM

Modelo inovador foi copiado, em parte, em três países, mas não nos EUA

Cleide Silva, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Fica em Gravataí (RS), a 30 quilômetros de Porto Alegre, uma fábrica que poderia ter mudado o destino da General Motors. A unidade do pequeno Celta é apontada por especialistas nos Estados Unidos e no Brasil como modelo de produção mais moderno e eficiente, que poderia ter reduzido os custos e aumentado a competitividade da montadora em nível global.A GM até que tentou levar alguns dos experimentos de Gravataí para outros países, como China, Tailândia e México, mas na matriz não teve como dobrar as resistências à quebra de antigos métodos de trabalho defendidos pelo UAW, o sindicato dos metalúrgicos locais, contrário à ideia de juntar em uma mesma área montadora e fornecedores de peças.No debate que se seguiu à ressaca da concordata anunciada na segunda-feira, uma revista americana especializada em tecnologia, a Wired, cita a fábrica de Gravataí, inaugurada em 2000, como precursora de um modelo de produção que deveria ter sido copiado. "Apesar de seus avanços, o modelo de Gravataí tem sido ignorado", afirma o autor, Charles Mann, que descreve a necessidade da mudança do método produtivo da indústria automobilística.O complexo de Gravataí consiste em 17 fábricas separadas, das quais 16 são ocupadas por fornecedores de peças (chamados de sistemistas), entre os quais Continental, Sogefi, Valeo e AVM Suspensões. Eles são responsáveis por adquirir e juntar diversas peças e entregar para a GM módulos completos para a montagem dos carros.A linha de produção da GM é parecida com qualquer outra. O diferencial está nas 16 portas laterais do prédio, onde os sistemistas entregam os conjuntos que seguem direto para os processos de estamparia, funilaria, pintura e montagem final. Tudo de forma sincronizada. O processo reduz custos, tempo de produção, agiliza resolução de problemas e gera economia."Funcionamos como um condomínio: todos os custos com estrutura, energia, água e restaurante são compartilhados", explica Paulino Varela, diretor de Produção da GM de Gravataí.Responsável pela manufatura de 18 fábricas de carros e componentes da GM na América Latina, África e Oriente Médio, José Eugênio Pinheiro afirma não ter dúvidas de que o processo adotado em Gravataí, desenvolvido por engenheiros e técnicos brasileiros, "certamente teria vantagem em outras fábricas, inclusive americanas."Varela, que visitou pelo menos 15 das 47 fábricas da GM na região de Detroit, berço da companhia, confirma que nenhuma delas tem resultados parecidos com os da brasileira. A matriz anunciou que fechará 14 delas até 2012.Cada funcionário da unidade gaúcha produz, segundo Pinheiro, 135 carros por ano. Uma das mais modernas fábricas do Japão, a Mitsubishi, faz 147. Na fábrica da GM de São José dos Campos (SP) essa média é de 90 carros por funcionário/ano, enquanto em São Caetano do Sul, no ABC, é de 70. Além disso, um carro feito em Gravataí custa em média US$ 500 a menos que nas duas outras fábricas do grupo.Para David Wong, consultor da Kaiser Associates, "muita coisa na GM americana não foi possível por causa dos custos legados", ou seja, acordos que impediram a modernização das fábricas americanas, que sucumbiram à competitividade das empresas asiáticas, principalmente a japonesa Toyota, que em 2008 passou a GM como maior fabricante mundial.

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