Aline Bronzati/Estadão
A ação do IRB enfrentou em 2020 uma forte crise de credibilidade na Bolsa brasileira. Aline Bronzati/Estadão

No Brasil, ação do IRB dispara quase 18% com ajuda das redes sociais

Segundo operador, grupos foram formados na internet para estimular uma alta do papel; para especialistas, movimento para inflar ações pode configurar em crime de manipulação do mercado

Matheus Piovesana e Fabiana Holtz, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 21h57

No Brasil, as ações do IRB Brasil Re, assunto do dia nesta quinta-feira, 28, saltaram 17,82%, registrando a maior alta do Ibovespa. O volume de negócios com o ativo também foi forte, ficando em R$ 1,4 bilhão. Conforme analistas, diante de movimentos em redes sociais que vieram na esteira da alta das ações da GameStop, o papel tem tido forte valorização.

Um operador, que falou sob condição de anonimato, apontou que grupos foram formados em redes sociais para estimular uma alta do papel. Um deles, no Telegram, com mais de 21,1 mil membros, afirmava em um post fixado e visível para não-membros que as postagens “não representam ordens de compra ou venda de ações”, e não visavam a “manipulação do mercado.”

Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, o movimento de investidores brasileiros que se reuniram para “bombar” as ações do IRB pode configurar crime de manipulação de mercado e/ou criação de condições artificiais de demanda. As condutas são consideradas infrações graves contra o mercado de capitais e estão previstas em lei e na Instrução 8 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)

A ação do ressegurador, que enfrentou em 2020 uma forte crise de credibilidade, acumula baixa de cerca de 80% no intervalo de um ano, mesmo com o salto dado nesta quinta.

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Pequenos investidores desafiam Wall Street com aposta nas ações da GameStop

Unidos por mídias sociais, amadores do mercado financeiro fizeram ação da varejista de games disparar no mercado de Nova York, pressionando os experientes megainvestidores americanos

Matt Phillips e Taylor Lorenz, The New York Times

28 de janeiro de 2021 | 21h56

Um vendedor de imóveis em Valparaiso, Indiana. Um ex-ajudante de cozinha do Bronx. Um pastor evangélico e sua mulher em Huntington Beach, Califórnia. Um estudante do ensino médio nos subúrbios de Milwaukee.

Eles estão entre os milhões de investidores amadores que desafiam coletivamente alguns dos investidores mais sofisticados de Wall Street – e, pelo menos por enquanto, estão vencendo. Impulsionados por uma mistura de ganância e tédio, alegremente determinados a dar uma lição em Wall Street e turbinados por um fluxo interminável de campanhas publicitárias e ideias para enriquecimento rápido entregues por meio das mídias sociais, esses investidores entraram em grande número e de forma desorganizada no mercado por meio de várias empresas, levando os preços de suas ações para níveis estratosféricos.

Algumas empresas são de uma era anterior. As ações da BlackBerry subiram quase 280% este ano. As ações da AMC, a rede de cinemas, aumentaram quase 840%. Mas a transação que capta a natureza Davi versus Golias do momento envolve a GameStop, a problemática varejista de videogames que já foi uma presença constante em shoppings suburbanos dos Estados Unidos.

‘Dumb money’

Em Wall Street, os investidores individuais costumam ser ridicularizados com a expressão “dumb money” (algo como “investimento burro”, em referência à inexperiência dos investidores e suposição de que não vão conseguir agregar valor ao negócio, apenas fornecer capital) e são vistos como destinados a fracassar frente aos analistas e corretores altamente remunerados que compram e vendem ações como meio de vida. Mas, nos últimos dias, investidores individuais – muitos deles seguidores de uma página popular, juvenil e desbocada do Reddit chamada Wall Street Bets – mudaram essa história ao se unir para fazer pressão em pelo menos dois fundos de hedge que apostaram que as ações da GameStop cairiam.

Enquanto os fundos de hedge e outros gestores financeiros profissionais estavam vendendo as ações da GameStop, apostando que suas ações estavam condenadas a cair ainda mais, os investidores de varejo – negociantes online, pequenos investidores, pequenos corretores e outros – estavam fazendo força para o outro lado, comprando ações e opções de ações. Isso fez com que o valor de mercado da GameStop aumentasse de US$ 2 bilhões para mais de US$ 24 bilhões em questão de dias. Suas ações subiram mais de 1.700% desde dezembro. Entre terça-feia e quarta-feira, o valor de mercado subiu mais de US$ 10 bilhões (ontem as ações da varejista caíram 44, 29%). 

A construção da estratégia em grupo online, como uma espécie de esporte de equipe que opõe arrogantes corajosos contra os endinheirados de Wall Street, tem sido especialmente útil para motivar mais investidores a participarem. Esta semana, o CEO da Tesla, Elon Musk, impulsionou o mercado ao publicar algo a respeito da página do Reddit no Twitter. E cresce a especulação de que outros investidores estão vendo novas oportunidades para elevar ainda mais o valor das ações.

Ben Patte, 16 anos, estudante do ensino médio em Wisconsin que afirmou ter ganho US$ 750 com as ações da GameStop, disse que a estratégia parecia uma vingança para ele e para outros jovens negociantes. “É uma boa oportunidade de ganhar dinheiro e aplicá-lo em fundos de hedge”, disse ele. “Comprar ações da GameStop é como vencê-los com as armas deles.”

Na quarta-feira, a corretora de varejo TD Ameritrade impôs restrições à negociação da GameStop, AMC e outras ações, citando “condições de mercado sem precedentes”. E os reguladores do mercado podem intervir.

Mas, por enquanto, o cerco está armado.

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Como funciona o movimento que inflou a ação da GameStop em Wall Street

Aquisição de papéis feita por pequenos investidores obrigou grandes fundos a comprar de volta as ações da varejista, elevando o preço

Matt Phillips e Taylor Lorenz, The New York Times

28 de janeiro de 2021 | 21h57

Desde o verão passado, as ações da GameStop começaram a subir depois que uma empresa de investimentos de Ryan Cohen – fundador da Chewy, loja online de produtos para animais de estimação, cujas ações eram populares entre os investidores de varejo – comprou uma participação na companhia e ingressou no conselho. Na mesma época, alguns fundos de hedge estavam apostando que as ações da GameStop despencariam. A empresa vinha sofrendo com as mudanças dos consumidores para o comércio online e streaming, mas a pandemia estava afetando-a ainda mais.

A venda a descoberto funciona da seguinte maneira: um investidor, que espera que o preço das ações caia, toma emprestadas ações dessa empresa de outro investidor por uma taxa e as vende imediatamente, na esperança de que, quando o preço cair, eles possam comprar as ações a baixo custo, devolvendo-as ao proprietário e embolsando a diferença.

É uma transação arriscada. Se a ação subir, o vendedor a descoberto está exposto a perdas que são teoricamente infinitas (afinal, os preços das ações podem não parar de subir). Por esse motivo, quando uma aposta dá errado, os vendedores a descoberto correm para recomprar as ações que tomaram emprestado para que possam devolvê-las e sair de suas negociações.

Isso é o que está acontecendo com a GameStop. Conforme os investidores de varejo começaram a comprar suas ações e opções – muitas delas estimuladas pelo Wall Street Bets e outros fóruns –, elas começaram a subir, forçando os fundos de hedge de venda a descoberto a comprar de volta as ações emprestadas a um preço mais alto, o que levou o preço delas para cima. No jargão de Wall Street, isso é um “short squeeze”.

Nos últimos três pregões, as ações da GameStop cresceram descontroladamente. Na quarta-feira, quando as ações subiram quase 135%, US$ 24 bilhões em ações da empresa mudaram de mãos, as ações mais negociadas em Wall Street.

“Negociar como estamos vendo com a GameStop é humilhante para aqueles de nós que mantêm a ideia antiquada de que os mercados de capitais canalizam o dinheiro dos investidores para seus usos mais eficientes e produtivos”, disse Tyler Gellasch, ex-funcionário da Securities and Exchange Commission (SEC, a comissão americana de valores mobiliários) que agora lidera a Healthy Markets Association, uma organização sem fins lucrativos que promove a transparência nos mercados.

Tempos áureos

Quase desde que a internet foi criada, investidores, negociantes e especuladores se reúnem online para trocar rumores, divulgar suas participações e destruir as ações que estão vendendo a descoberto. Na década de 1990, esses fóruns eram focos de conversas otimistas sobre as populares ações de tecnologia que dominaram a bolha da internet.

O frenesi atual é uma reminiscência da década de 1990, exceto que é mais viral e impulsionado pela negociação de opções. Desde que a pandemia começou, milhões de americanos – muitos deles desempregados ou trabalhando de casa – abriram contas de corretagem e começaram a negociar ativamente, ajudando a estimular uma recuperação do mercado.

Os negociantes de varejo não estão apenas comprando e vendendo ações, mas também opções de compra, uma espécie de instrumento financeiro que dá ao titular o direito de comprar ou vender uma ação. As corretoras comercializam fortemente as opções para investidores de varejo porque são mais lucrativas.

E há o Wall Street Bets, um fórum do Reddit extremamente popular focado na negociação de opções que se tornou uma espécie de mente coletiva pública onde os investidores de varejo coordenam vagamente seu poder de compra coletivo em alvos que têm maior probabilidade de amplificar os preços de ofertas públicas. Nas últimas semanas, começaram a aparecer publicações no fórum destacando a grande quantidade de ações da GameStop vendidas em aberto e incentivando explicitamente os participantes a comprar ações e opções para aumentar o preço.

“Reúnam as tropas, meus irmãos, pois a guerra pode acabar muito em breve”, escreveu em um comentário um usuário que atende por Gardeeon em 19 de janeiro. “Vocês controlam o poder, o GME não está indo para a lua, mas para a borda do universo observável. ”

Esses apelos diretos às mídias sociais para que os investidores coordenem seu comportamento impressionaram muitos observadores por contornar a linha de manipulação do mercado. Na quarta-feira, a SEC disse em um comunicado que estava “monitorando ativamente a volatilidade do mercado em curso”.

Perdas

O Melvin Capital, um fundo de hedge muito respeitado administrado por Gabe Plotkin, ex-negociante do gigante dos fundos de hedge Steven A. Cohen, atraiu a ira do Wall Street Bets após revelar em documentos que possuía opções da GameStop. 

As apostas do fundo saíram pela culatra – o Wall Street Journal informou que ele caiu 30% nas primeiras semanas de janeiro – e o Melvin disse na segunda-feira que dois fundos maiores, Citadel e Point 72, tinham investido US$ 2,75 bilhões no fundo. Um porta-voz do Melvin disse que o fundo comprou de volta seu título da GameStop.

O Citron Capital, vendedor a descoberto que fez declarações públicas sugerindo que as ações da GameStop cairiam, também foi atingido. Na quarta-feira, Andrew Left, que dirige a empresa, reconheceu em um vídeo que havia coberto a maior parte de sua posição vendida “com prejuízo de 100%”./TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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