No Brasil, descumprimento da meta de inflação vira arma política

Presidente tem usado em discursos e entrevistas um dos pontos mais criticados de seu governo para atacar oposição

MURILO RODRIGUES ALVES, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 02h13

A presidente Dilma Rousseff passou a usar o descumprimento da meta de inflação como uma arma política, mas o tiro pode sair pela culatra. Em discursos e entrevistas, ela afirmou que, antes de seu antecessor e padrinho político Lula, a inflação ficou acima da meta em três dos quatro anos do governo Fernando Henrique Cardoso. Dados do Banco Central (BC) revelam, porém, que, depois de um sucesso na desinflação em 1999 e 2000, as metas não foram atendidas entre 2001 e 2003 - nos dois últimos anos do mandato de FHC e no primeiro ano da "era Lula".

O que mais pressionou a inflação no último ano do tucano foi uma crise de confiança desencadeada, principalmente, pelas incertezas na eleição de Lula. O mercado temia que o PT faria uma auditoria da dívida externa ou interromperia pagamentos, como defendia até então.

Com essa estratégia, Dilma usa de um dos pontos mais criticados do seu governo - a estabilidade dos preços - para atacar a oposição. O economista Alberto Furuguem, ex-diretor do BC, disse não considerar "honesto" que o governo escolha essa como uma de suas bandeiras porque diferenças de postura, segundo ele, mostram que a atual gestão é mais "complacente" com a inflação.

"No governo Dilma, o cumprimento da meta, mesmo a 'frouxa', nunca foi levado muito a sério. A equipe dela pensou erroneamente que pudesse trocar um pouco de inflação por mais crescimento. Só teve uma dessas coisas", disse. No médio e longo prazos, complementou, uma inflação maior, em vez de gerar mais crescimento, cria um ambiente desfavorável aos investimentos e promove concentração de renda.

O economista Roberto Luís Troster disse que o descrédito de Dilma pode ser medido pelo fato de o presidente do BC, Alexandre Tombini, não ter se comprometido nos últimos três anos a entregar a inflação no centro da meta. Tombini prometeu que neste ano a inflação será menor que os 5,84% registrados em 2012, patamar acima do centro da meta.

Mudanças. No primeiro ano de Dilma, a inflação encostou no limite superior, de 6,5%. "Cada hora temos uma meta diferente. Ninguém acredita mais nos 4,5%", afirmou Troster. A prova disso é o nível elevado das projeções. A mediana das estimativas de uma centena de instituições consultadas pelo BC para o boletim Focus apontam inflação de 5,4% para 2017.

Pela cartilha dos economistas, para recuperar a credibilidade, o governo deveria ter mudado a meta de inflação, colocando um limite menor a médio prazo. Entretanto, em junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu que em 2015, pelo 11.° ano seguido, a meta será de 4,5%, com intervalo de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo. O ex-diretor do BC considera "perigoso" manter a mesma meta por tantos anos. "A memória inflacionária do brasileiro é algo que ainda não morreu", afirmou Furuguem.

Nos discursos, Dilma também se comprometeu a entregar a inflação dentro da meta este ano, mas Troster critica a falta de comprometimento do governo em alcançar o centro da meta. "A repetição do uso desse recurso acaba prejudicando a credibilidade do regime de metas."

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