No Brasil, investimento chega a US$ 20 bilhões

Valor de projetos confirmados desde janeiro provoca reação de entidades da indústria nacional, que pedem reciprocidade para entrada na China

Paula Pacheco, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Não é de hoje a tradição chinesa de aproveitar o tamanho do mercado brasileiro para exportar. Mas nos últimos tempos se intensificou a transferência não só de produtos, mas de investimentos. Se o ritmo de recursos se mantiver, a China neste ano deve assumir liderança entre os países que mais investem no Brasil.

O grande volume de recursos direcionados repentinamente ao País alertou as duas principais entidades empresariais, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Seus presidentes, Robson Braga de Andrade (CNI) e Benjamin Steinbruch (Fiesp), cobraram, em entrevistas publicadas recentemente pelo Estado, uma ação do governo para regular ou controlar a entrada do dinheiro chinês nos setores de mineração e compra de terras, ambos estratégicos para a soberania do País. Para ambos, falta reciprocidade nas relações entre os dois países.

Segundo cálculos do presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), Charles Tang, de janeiro até agora foram anunciados cerca de US$ 20 bilhões de investimentos chineses (incluindo os US$ 10 bilhões de empréstimo à Petrobrás), diluídos nos próximos anos. Pelas suas contas, os aportes anunciados podem chegar a US$ 25 bilhões até o fim do ano.

No topo da lista de preferências chinesas estão os setores de siderurgia e mineração. Só a estatal Wuhan Iron Steel (Wisco) anunciou neste ano recursos de US$ 11 bilhões em projetos em Minas e Rio, em parceria com o empresário Eike Batista. A maior parte do dinheiro vai para o projeto siderúrgico no Porto do Açu, no litoral fluminense.

O setor de energia é outro que tem chamado a atenção dos investidores chineses. Em maio, as espanholas Elecnor, Isolux e Cobra venderam o controle de sete empresas de transmissão de energia da Plena Transmissoras à estatal chinesa State Grid Corporation, por US$ 1,7 bilhão.

Em junho, a Sinochem anunciou o acordo com a norueguesa Statoil para comprar uma fatia de 40% do campo marítimo de petróleo de Peregrino, na Bacia de Campos, por US$ 3 bilhões. Mas o maior aporte até agora foi feito pelo BDC, que emprestou US$ 10 bilhões à Petrobrás e exigiu como garantia a entrega de 200 mil barris/dia de petróleo por 10 anos. Em 2009, o banco chinês assinou um empréstimo no valor de outros US$ 10 bilhões à estatal brasileira.

Abastecimento. A corrida ao Brasil, diz Tang, é uma forma de o país asiático garantir ativos estratégicos para atender ao crescimento da demanda. Daí os primeiros movimentos dos investidores da China também na área agropecuária.

O grupo BBCA avalia a possibilidade de parceria com uma usina sucroalcooleira em Mato Grosso do Sul para produzir ácido cítrico da cana-de-açúcar. Outra empresa estaria interessada no mercado de carne processada no Estado. Uma terceira companhia começou a negociar com um grupo de usineiros do Centro-Oeste a produção de celulose do bagaço da cana.

Para reforçar o corpo a corpo, três Estados fixaram representantes em território chinês, que trabalham em escritórios da Câmara de Comércio: Pará, Mato Grosso do Sul e Pernambuco.

Outra forma de atrair investimentos é por meio de grupos que visitam os Estados ou missões de brasileiros que buscam parceiros na China. É o caso da Bahia, que tem recebido chineses interessados na produção agrícola, pesqueira e energética.

O grupo Pallas International Consultants assinou há três meses um protocolo de intenções com o governo estadual com a promessa de investir na Bahia no segmento de energias renováveis, como biodiesel, solar, eólica e biomassa. Já a Sun-Daity Shandong Shengdetai Food Co, mandou representantes ao Vale do São Francisco para conhecer o plantio de frutas irrigadas e avaliar a possibilidade de instalar uma unidade de processamento da produção em Juazeiro.

Para o embaixador Sergio Amaral, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China e conselheiro da Fiesp, a boa fase não deve ser motivo para o governo brasileiro abrir mão de negociações mais firmes nas quais os dois países costumam pelejar, como a indústria têxtil e a de calçados. "O governo precisa ter uma visão de conjunto para melhorar a qualidade de internacionalização de suas empresas e prevenir dificuldades", diz, referindo-se, por exemplo, à compra de grandes extensões de terra.

O momento favorável fez com que os controladores da montadora de pás carregadeiras XCMG revisassem os planos para o Brasil. A empresa é representada no País pela Êxito Importação e Exportação, que vai investir US$ 12 milhões no Complexo de Suape, em Pernambuco, para nacionalizar a montagem dos equipamentos. No início, segundo Lacy Freitas, sócio da empresa, não houve interesse da estatal chinesa no empreendimento. Nos últimos seis meses, o tom da conversa mudou e em setembro um representante da XCMG é esperado no País.

Investimentos

US$ 11 bi é o quanto a estatal Wuhan Iron Steel pretende investir em projetos em Minas e Rio

US$ 3 bi

é quanto a Sinochem vai pagar à Statoil por 40% do Campo de Peregrino, na Bacia de Campos

US$ 10 bi foi quanto o BDC emprestou à Petrobrás

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