'No Brasil, não existe receio de falhar'

Cofundador da Evernote afirma que próximo líder tecnológico virá de um grande centro urbano como São Paulo

Ligia Aguilhar, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h05

No início do mês, a Evernote, empresa americana que desenvolve o aplicativo de armazenamento de documentos e anotações online, abriu um escritório no Brasil, o primeiro na América Latina. Interessado em atrair talentos locais para o negócio, o CEO Phil Libin veio ao País pela primeira vez na semana passada, mas acabou pego de surpresa pela onda de protestos.

Cauteloso, desmarcou compromissos e preferiu adiar alguns lançamentos previstos. "Vocês têm assuntos mais importantes que a Evernote para discutir agora", disse, em entrevista exclusiva ao Link.

Por enquanto, ele anunciou uma parceria com a Wayra, da Telefónica, para financiar uma startup da aceleradora no programa de residência da Evernote e atrair mais brasileiros para a competição de desenvolvedores Evernote Devcup.

A empresa tem crescido com velocidade no Brasil. O número de usuários triplicou desde o ano passado, passando de 600 mil para 1,8 milhão. No mundo todo são 65 milhões.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Quais os planos da Evernote para o Brasil?

Não estamos no Brasil para vender coisas. Nós não nos importamos com o mercado de nenhum país. Estamos investindo porque queremos que nossos produtos sejam feitos nos principais centros de inovação e o Brasil tem alguns dos melhores designers e engenheiros do mundo.

O que o faz considerar o Brasil um centro de inovação?

É algo intuitivo. Você vai a um lugar, conversa com as pessoas e percebe. No Brasil, por exemplo, não há medo de falhar, quase como na Califórnia.

Não é o que se fala por aqui...

Sim. No Japão o estigma de ter falhado persegue a pessoa pelo resto da vida. No Brasil a vida segue. E tem outro ponto: estão surgindo grandes restaurantes e chefs criativos por aqui. Um país que não tem medo da sua comida não tem medo de nada. O Brasil é um dos dez países que vão revolucionar o empreendedorismo. Há muitos jovens aqui.

Qual a visão sobre o Brasil no Vale do Silício?

Meus amigos dizem que o País cresce rápido, mas que as leis são muito difíceis de entender e que o Brasil é menos amigável para empresas de fora. É verdade. Mas vale o investimento. Os impostos no Vale do Silício chegam a 50%. Vocês não são os únicos a sofrer.

Acha que pode nascer uma grande empresa global de tecnologia no Brasil?

Estou confiante que a próxima grande categoria de negócio na internet não virá do Vale do Silício, mas de atmosferas mais densas como São Paulo e Jacarta. Quase todos os grandes centros urbanos não tinham dinheiro há cinco anos e agora têm.

Você declarou que pretende tornar a Evernote uma startup centenária. Como pretende atingir essa meta?

O maior obstáculo é como nos manter como uma startup à medida que crescermos. A cultura é mais importante do que o produto porque é por meio dela que os próximos produtos serão produzidos.

Há rumores de que a Evernote deve abrir capital neste ano. Há previsão?

Definitivamente não será neste ano. A chance é zero. O IPO é algo pelo qual teremos de passar em algum momento, mas não é uma meta. Vai acontecer quando tivermos um negócio mais previsível.

Qual empresa é fonte de inspiração para você?

A grande empresa que mais me inspira é a Nike. É uma empresa mundialmente relacionada a saúde e estilo de vida e que se mantém inovadora. Queremos que a Evernote se pareça com a Nike, mas voltada para quem se preocupa em ser mais produtivo.

Como a tecnologia deve evoluir nos próximos anos? Qual será o desafio para a Evernote?

Vamos redefinir a forma de pensar o design de produtos. Não haverá uma versão do Evernote para cada plataforma, como o Google Glass e o smartphone. Haverá uma versão para você que vai se conectar com todos os seus aparelhos sem que você precise abrir o aplicativo. Eu não sei como fazer isso e ninguém sabe. Será uma revolução.

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