Helvio Romero/Estadao
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No Ceará, comunidade sente fim da bonança na pele

Após viver temporada de crescimento, comunidade Vilares da Serra se adapta aos tempos de crise

Fernando Scheller

21 de junho de 2015 | 10h44

MARANGUAPE (CE) - A vida na comunidade Vilares da Serra, na região do Novo Maranguape, nunca foi fácil. Há dez anos, os moradores da antiga favela construíram, em regime de mutirão, com dinheiro repassado do Banco Mundial, as 200 casas do bairro. Inicialmente, seriam duas casas geminadas, separadas por um pequeno quintal. Mas, entre o projeto e o início da construção, parte do orçamento ficou pelo caminho. E, assim, todos na comunidade vivem literalmente juntos: 8 fileiras de 25 casas, com 4 metros de frente e 33 metros quadrados de área total. 

Com a casa própria arduamente conquistada, a comunidade parecia destinada a uma trajetória ascendente que jamais se reverteria. Nos últimos dez anos, os “filhos” de Vilares da Serra entraram na universidade, moradores fundaram pequenas empresas. Alguns conseguiram ampliar a casa e comprar um carro.

Nesses bons tempos, o galpão da casa de Josineide Cavalcante de Castro, de 40 anos, era dominado pelo barulho de zigue-zague das máquinas de costura industriais que trabalhavam em ritmo frenético. As confecções que terceirizavam o trabalho para Josineide precisavam entregar os trabalhos. Para abrigar as dez costureiras que trabalhavam em tempo integral, o marido da empreendedora, Marcelo, construiu um galpão ao lado da casa - Josineide mora em uma rua próxima ao conjunto Vilares da Serra e tinha espaço no terreno para ampliar sua residência.

A correria tinha razão de ser: há três anos, a equipe produzia 13 mil peças por mês. A confecção pagava R$ 1,40 por unidade, o que se traduzia em um faturamento de R$ 18 mil. Era o suficiente para pagar todas as funcionárias - uma dezena de costureiras e uma faxineira, cuja principal tarefa era se livrar dos retalhos de tecidos que se avolumavam pelo chão e organizar as pilhas de roupas que tinham de ser entregues sem falta na manhã seguinte.

 

Agora, o movimento caiu tanto que Josineide dispensou todas elas. Maria Eliete de Souza, 46 anos, a antiga faxineira, só faz visitas de cortesia à antiga patroa. O trabalho disponível hoje não chega a render R$ 1.000. As 15 máquinas de costura - havia uma “reserva” para casos de manutenção - estão pegando poeira. “Esses dias veio uma mulher aqui me oferecer uma máquina por R$ 400. Estava barato. Mas não tinha razão para eu comprar”, diz Josineide. A carga de trabalho é tão leve hoje que a ex-empresária dá conta de costurar e fazer o almoço ao mesmo tempo. O movimento se resume aos cães, que passam de vez em quando pedindo carinho, e aos frangos, fugidos do galinheiro, que bicam o chão sem parar, em busca de migalhas de pão.

Fim da bonança. Essa brusca mudança de realidade já é percebida nos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística relativos ao Nordeste. A pesquisa de emprego, feita em duas regiões metropolitanas nordestinas - Salvador e Recife -, mostra uma piora do cenário mais acentuada do que em outras capitais, como São Paulo. O desemprego em Salvador passou a marca de 11% em abril - o maior em cinco anos. Não é um cenário muito diferente da taxa de 13% de 2003, primeiro ano do governo Lula. No Recife, o desemprego é mais baixo (7,8%), mas dados do Caged, do Ministério do Trabalho, mostram a rápida deterioração do emprego formal. Nos 12 meses encerrados em abril, foram fechadas 49,5 mil vagas com carteira assinada no Recife e cidades próximas.

Para o consultor econômico Raul Velloso, o ano de 2015 marca o fim de um período de pleno emprego que durou aproximadamente uma década. “A política econômica dos últimos dez anos visou a estimular o consumo de todas as formas possíveis. A crença era de que o investimento e a ampliação de capacidade viriam atrás. Mas isso não ocorreu”, diz Velloso. Tanto foi assim, diz o economista, que a taxa de investimento sempre ficou abaixo do desejado - em 2014, voltou a ficar abaixo de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e a previsão é de uma nova queda neste ano. “A indústria, apesar dos incentivos, encolhe porque não pode concorrer com a China. E o setor de serviços não tem crescido em ritmo suficiente para compensar isso.”

Perspectivas. A crise permeia as reuniões da associação de moradores de Vilares da Serra. A presidente da entidade, Fernanda Maria Pereira, 47 anos, hoje mora em uma casa cuja renda atual é zero. Um carrinho de algodão doce e pipoca, comprado para auxiliar a renda durante as festas juninas, jamais saiu do lugar. Houve uma mudança no cadastro dos vendedores ambulantes da prefeitura - e Fernanda acabou ficando de fora. O filho Fernando, 31 anos, está desempregado e esperava a resposta do Fies, programa de financiamento do governo federal, para saber se continuaria a estudar. “Eu tenho fé em Deus de que vou conseguir”, disse ele, embora o prazo de prorrogação de contratos tenha sido encerrado em 30 de abril, bem antes da visita do Estado a Maranguape.

Apesar das dificuldades, há espaço para solidariedade na casa de Fernanda. Há três anos, ela abriga a amiga Francisca Osani, 47 anos, que teve problemas com a filha, viciada em drogas, que a ameaçava de morte. Costureira conhecida pela rapidez, Francisca ajudou, durante um bom tempo, nas contas da casa. Nos últimos meses, o trabalho foi rareando até parar completamente, em maio. “Faz uns 15 dias que eu não toco na máquina.”

Para mudar sua situação, e também a dos vizinhos, Fernanda tem um plano. Passar de presidente da associação a vereadora de Maranguape. Cada visita a um morador de Vilares da Serra é um passo rumo à eleição do próximo ano. Ela aprendeu, na prática, que é difícil conquistar votos. Mesmo tendo divulgado sua plataforma no último pleito em uma bicicleta com alto-falantes, não conseguiu convencer os mais próximos. Apesar de a comunidade ter mais de mil habitantes, teve só 70 votos

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