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No dia a dia, um homem de hábitos simples

Empresário dirigia o próprio carro, gostava de caminhar no centro e de conversar com as pessoas

O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h01

Os ternos antigos e até meio amarrotados eram uma marca de Antônio Ermírio de Moraes. Os amigos faziam piada, mas ele não dava a mínima. "Quando escolho um livro, não ligo para a encadernação. Preocupo-me com o conteúdo", costumava dizer.

De hábitos matutinos, o empresário acordava todo dia por volta das cinco da manhã. Às sete horas, religiosamente, saía de casa. Passava pelo Hospital Beneficência Portuguesa ou ia direto para a sede da companhia, que ficava na região central de São Paulo. Da janela do escritório, acompanhou a deterioração do centro da capital paulista ao longo de décadas e, mais tarde, a revitalização da Praça Ramos, patrocinada pela Votorantim.

Tonhão, como era tratado pelos mais próximos, não era dado aos luxos que seriam facilmente comprados pela fortuna acumulada durante décadas de trabalho. Quando a filha caçula fez 18 anos, ganhou de presente um carro popular. Antônio Ermírio também fazia questão de dirigir o próprio carro e não queria saber de andar escoltado por seguranças.

Na rua, gostava de parar, conversar e ouvir o que as pessoas tinham a dizer. Sempre que tomava um táxi, acomodava-se ao lado do motorista. Numa ocasião, ao pegar um táxi no ponto próximo ao escritório para uma corrida de poucos quarteirões, pagou o motorista com uma nota de R$ 50. Diante da insistência do taxista para devolver o troco, Antônio Ermírio perguntou se ele tinha filhos. "Então use este dinheiro para fazer alguma coisa por eles."

Com o tempo e a dificuldade de se locomover, passou a ir apenas eventualmente ao trabalho. Mas, quando aparecia, fazia questão de se reunir com os principais executivos, atualizar a papelada com a secretária de décadas, dona Valéria, e ser informado do que estava acontecendo.

Amigos de Antonio Ermírio de Moraes o descrevem como madrugador e dedicado ao trabalho desde a juventude. O empresário Álvaro Lopes, dono da Casa Santa Luzia, em São Paulo, lembra de boas histórias dos tempos em que os dois foram colegas de turma no ginásio, no Colégio Rio Branco, em Higienópolis. Na época, a família Moraes já se consolidava como dona de um império em São Paulo. Lopes era filho do dono de um empório de secos e molhados. Os filhos de José Ermírio, Antônio e José Ermírio de Moraes Filho, o mais velho dos irmãos, iam para a escola sempre bem arrumados. Além do currículo tradicional, os irmãos tinham aulas particulares de inglês. "O pai deles ajudou no que pôde para que tivessem uma boa educação", recorda Lopes.

Vizinho. O publicitário Washington Olivetto, dono da agência de publicidade W/Brasil, foi vizinho de Ermírio por muitos anos no Morumbi. Quando o publicitário acordava, por volta das 6h, Antônio Ermírio já estava a caminho do Hospital Beneficência Portuguesa ou do escritório na Votorantim. Ambos torcedores do Corinthians, o assunto era sempre recheado de comentários sobre o futebol.

Convidado em 1991 para fazer uma campanha publicitária para um novo carro da Fiat, o Prêmio, Olivetto lembrou-se do vizinho. Homem respeitado e conhecido por ser trabalhador, ele seria ideal para divulgar o novo modelo popular da montadora italiana. "Como ele não aceitaria participar só pelo cachê, pensei na possibilidade dele doar o pagamento a uma instituição de caridade", recorda o publicitário. A campanha associava o empresário ao carro com frases como "Dr. Antônio é um homem grande. O Fiat Prêmio também".

Social. Em 2003, o empresário Paulo Lima, da editora Trip, procurou Olivetto para que ele entregasse notas de R$ 10 a uma pessoa rica e a alguém de baixo poder aquisitivo. Os dois poderiam comprar o que quisessem. O resultado renderia um artigo escrito pelo publicitário. Um office boy da W/Brasil foi um dos escolhidos e o outro foi Antônio Ermírio, que optou por multiplicar a quantia com muitas outras notas de R$ 10 e fazer uma doação para uma instituição de caridade.

Ele explicou o motivo em uma comovente carta a Olivetto: "Só você poderia reviver em minha alma um sentimento tão gostoso quanto o experimentado quando recebi os R$ 10 que gentilmente me enviou. Recordar é viver. Você me trouxe saudade, muita saudade, de minha mãe. Lembro-me como se fosse hoje que ela sistematicamente dava ao Instituto de Cegos Padre Chico uma quantia de 10 mil réis todos os meses... Ao receber o seu envelope com R$ 10, falei com duas religiosas daquele instituto e perguntei a elas o que fazer com recursos múltiplos dos seus R$ 10", dizia a carta. "Como conclusão, prometi à madre superiora do Instituto de Cegos Padre Chico que manteremos, durante 30 dias, com o múltiplo dos seus R$ 10, as despesas desse instituto com escola e alimentação para aquelas 80 crianças... Nunca, meu caro Washington, R$ 10 fizeram tão bem à nossa alma."

Antônio Ermírio era conhecido pela atuação social. Boa parte da sua jornada de trabalho era reservada para a gestão do Hospital Beneficência Portuguesa que, apesar de ser particular, atendia principalmente a pacientes do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Apaixonado pelas artes, especialmente pela música clássica, Ermírio acertou com o maestro Silvio Baccarelli que todo último sábado do mês o salão nobre do hospital seria palco de uma apresentação para pacientes, médicos e funcionários. Um dos concertos foi com as crianças de Heliópolis, um dos bairros mais carentes de São Paulo. No fim da apresentação, soube que aquela seria a última apresentação do grupo, porque o patrocinador havia desistido do projeto. Antônio Ermírio assumiu o patrocínio, que até hoje é mantido pelo Instituto Votorantim. / NAIANA OSCAR, MARINA GAZZONI, MÔNICA SCARAMUZZO, FERNANDO SCHELLER, NAYARA FRAGA e PAULA PACHECO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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