Dida Sampaio/Estadão
Alvo.  Segundo Marchese, ciclo mais curto ajuda na colheita Dida Sampaio/Estadão

No Distrito Federal, produtor quer ampliar área de trigo

Fabrício Marchese faz rotação de culturas com milho e soja e espera colher 90 sacas por hectare

Vinicius Valfré, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

BRASÍLIA - Parte dos produtores do trigo tropical está na região do PAD-DF, o Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal, implantado no fim dos anos 70 pelo governo local para submeter áreas rurais até então inexploradas a processos produtivos. Localizada a cerca de 80 quilômetros de Brasília, a região é um polo agrícola.

O produtor rural Fabrício Marchese, de 46 anos, recebeu a reportagem do Estadão em cima do trator com piloto automático que usava para lançar sementes de soja em uma área da propriedade de 400 mil hectares que possui no PAD-DF. O terreno em preparação fica ao lado dos 30 hectares do trigo que cultiva, quase na divisa com Goiás, em uma modalidade que para ele ainda é experimental.

Enquanto os triticultores da região já colheram os grãos, Marchese aguarda a fase final da maturação. Em vez de maio, como os demais, plantou em junho a semente do tipo 254, entre as safras de milho e soja. É uma estratégia para abastecer o solo com novos nutrientes e fazer renda extra. “Quando muda a estação, o dia fica longo e encurta o ciclo. O ciclo de 120 dias passa a ser de 100. A gente faz uma rotação de cultura a curto prazo e eu faço mais uma safra. Além de dar uma rentabilidade boa, ajuda no solo. A produção de soja melhora, tudo melhora.”

A previsão é colher 90 sacas por hectare, o dobro da média nacional. Caso confirmada a expectativa, o produtor deve ampliar os campos de trigo na entressafra de suas culturas principais no ano que vem.

Tudo o que colhe vai direto para a cooperativa dos produtores rurais da região, instalada nas redondezas. Lá, o trigo vai para silos capazes de armazenar cerca de 250 mil sacas, até ser moído, tratado, peneirado e embalado. “É como lapidar um diamante”, explica o gerente de produção Rômulo Pereira. Por mês, a Coopa-DF processa 1 milhão de quilos de farinha, produto que vai para moradores do DF, Goiás e Minas Gerais. 

Para o chefe-geral da Embrapa Trigo, Osvaldo Vasconcellos Vieira, a última barreira para o avanço do trigo tropical é a brusone, doença causada pelo fungo Pyricularia grisea que tem como sintoma mais comum o branqueamento de parte da espiga começando no ponto de infecção.

“Se resolvermos o problema da brusone, estamos a passos largos para mudar a geopolítica do trigo no mundo. O Brasil pode não só ser autossuficiente, mas exportador. Esse é o grande desafio da pesquisa, e acho que estamos muito próximos disso.” 

Tudo o que sabemos sobre:
farinha de trigotrigoagricultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Brasil pode se tornar autossuficiente em trigo com tecnologia para produção no Cerrado

País importa hoje metade do que consome, mas está em curso movimento para ampliar produção do grão no Cerrado brasileiro

Vinicius Valfré, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

BRASÍLIA - Dependente da importação de trigo, o Brasil começa um movimento, adotado no passado no plantio de soja, para se tornar autossuficiente na produção do grão e mudar a má fama da farinha nacional. É no calor e na seca do Cerrado que agricultores pretendem alavancar a lavoura. Eles apostam nas características da região e na tecnologia do preparo de novas sementes.

Hoje, metade das 12 milhões de toneladas de trigo consumidas no País por ano é importada. A Embrapa vê no cultivo do “trigo tropical” a melhor chance de dobrar as 6 milhões de toneladas que hoje são produzidas em 2,2 milhões de hectares em diversas áreas do País e economizar R$ 400 milhões com a redução nas importações. 

O potencial do Cerrado é promissor na quantidade e na qualidade da matéria-prima do pãozinho do dia a dia. Na colheita deste mês, em Goiás, surgiram registros de produtividade três vezes superior à média nacional, de 45 sacas por hectare. O trigo da região é considerado de alta qualidade, o tipo usado na panificação.

O governo planeja, a partir de 2021, ampliar em 50% os cerca de 200 mil hectares de trigo plantados no Cerrado. A meta é alcançar 1 milhão, até 2025, em regiões de Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, o que pode reduzir custos de derivados. 

“Temos de ter política de financiamento para a safra. Temos um plano, estamos discutindo com o Ministério da Agricultura, que é aumentar em mais 100 mil hectares a produção no Cerrado no ano que vem. Isso reduziria a importação de trigo e o Brasil economizaria aproximadamente R$ 400 milhões”, diz Celso Luiz Moretti, presidente da Embrapa.

A expectativa para as novas safras é empurrada pelos resultados considerados surpreendentes, em 2019 e 2020 – inclusive com um inédito cultivo no Ceará a partir de variedades desenvolvidas para o Cerrado.

O segredo do sucesso do “trigo tropical” está no avanço das técnicas de manejo da cultura e na tecnologia da Embrapa, que permite gerar sementes adaptadas ao clima. A empresa intensificou o desenvolvimento de variedades a partir dos anos 1980. Com o avanço dos melhoramentos, surgiram espécies mais tolerantes à seca, ao calor e a doenças.

Cruzamentos

O aprimoramento consiste em complexos cruzamentos genéticos entre espécies variadas. As sementes identificadas como BRS 254, BRS 264 e BRS 404, lançadas em 2005 e 2014, são as mais populares na região. A 404, por exemplo, tem a melhor resistência à brusone, doença comum nos campos do Centro-Oeste. Uma vez alcançados, nos laboratórios da Embrapa, os requisitos para a adaptação, a geografia do Cerrado trata de oferecer o restante.

A ausência de chuvas nas épocas de colheita, o período de seca bem definido e o forte calor dos dias, em contraste com as temperaturas amenas da noite, encurtam o intervalo entre plantar e colher.

Enquanto isso, no Sul do País, chuvas podem coincidir com colheitas, algo danoso para a qualidade dos grãos e para a produtividade. Rio Grande do Sul e Paraná, hoje, concentram cerca de 90% da produção nacional de trigo. O processo de tropicalização do trigo é costumeiramente associado ao de expansão das lavouras de soja, que também começaram pelos climas temperados do Sul e, aos poucos, foram interiorizadas.

Com os planos e incentivos para expansão das lavouras de trigo, o Brasil ficará menos dependente do produto que compra da Argentina. O país vizinho é responsável por cerca de 82% dos grãos importados pelos moinhos brasileiros. Como os compradores impõem critérios de qualidade aos vendedores, o produto que chega ao País é o mais nobre, com o qual se faz a farinha para o pão.

Mas, de acordo com técnicos, o produto brasileiro é ainda superior, característica que em algumas regiões não é acentuada em razão de processos que acabam misturando grãos de qualidades distintas. O trigo tropical não tem o mesmo problema e agricultores do Cerrado entregam produtos equiparados aos melhores do mundo, os do Canadá. 

Frio e calor

O trigo gosta de clima frio. Mas o calor e a secura do Cerrado se mostram promissores graças a variedades de sementes que vêm sendo desenvolvidas pela Embrapa e que se adaptam às peculiaridades climáticas da região. A pesquisa brasileira trabalha de maneira intensa desde os anos 1990 na tropicalização do grão. Grosso modo, as técnicas de biotecnologia cruzam espécies distintas e providenciam melhoramentos genéticos. 

O Núcleo Avançado de Trigo Tropical, em Uberaba (MG), desde 2007 se dedica a desenvolver técnicas de melhoramento e manejo. Para além do retorno econômico, sementes desenvolvidas ali permitem mais uma rotação de culturas nas entressafras, afastam pragas e abastecem com nutrientes as futuras plantações de soja e de milho, informa a Embrapa.

Ideologia

Estima-se que o Brasil vai gastar este ano aproximadamente R$ 10 bilhões com a importação do grão e da farinha de trigo. Para além do respiro econômico, há um aspecto político no esforço nacional em direção à autossuficiência. O presidente Jair Bolsonaro tem ressalvas ideológicas e busca um distanciamento da Casa Rosada desde que Alberto Fernandez assumiu o governo argentino. O mandatário e sua vice, Cristina Kirchner, lidam com uma profunda crise econômica.

O governo brasileiro, porém, não vê riscos à balança comercial. A Argentina tem aberto mercados para seu trigo na Ásia e agora tenta introduzir no Brasil, seu principal comprador de trigo, um polêmico cereal transgênico, ainda mais resistente.

“Quanto à relação com países do Mercosul, não vemos qualquer dificuldade, pois apesar de direcionarem parte da produção para o Brasil, há outros mercados para os quais já exportam”, diz ao Estadão a ministra da Agricultura, Teresa Cristina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.