No emprego formal, ganhos para todos

Pesquisa mostra que praticamente todos os acordos coletivos garantiram aumento real mínimo aos trabalhadores entre 1,5% e 2%

LEANDRO COSTA, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h10

Os reajustes salariais coletivos em todos os setores da economia proporcionaram ao trabalhador ganhos reais em relação à inflação. É o que indica a 30ª e mais recente edição da Pesquisa sobre Recompensas Totais, realizada pela Towers Watson e obtida em primeira mão pelo Estado.

Segundo o estudo, que envolveu 548 mil empregados de quase 400 empresas nacionais e multinacionais, entre junho de 2011 e maio deste ano praticamente todos os acordos coletivos garantiram aumentos no mínimo entre 1,5% a 2% acima da inflação medida no período, mantendo a tendência de 2011.

O levantamento mostra que na remuneração por cargos, os da base da pirâmide hierárquica, como assistentes e analistas, foram os que conquistaram o maior reajuste (7,6%).

Os cargos de coordenação tiveram ganhos de 6%, os cargos gerenciais conquistaram 5,6% e os cargos executivos (diretores) obtiveram aumento de 5,4% na remuneração. Já a inflação no período medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) ficou em 4,9%.

Deixando de lado o cargo e analisando os ganhos por pessoa, nota-se que os reajustes foram ainda maiores. O que os dados indicaram ao se observar individualmente a evolução salarial anual de 100 mil profissionais de 185 empresas (representando 46% da amostra) é que a média geral dos reajustes obtidos sobe para 12,9%. Por faixa salarial, o que se vê é um reajuste de 13,1% para os profissionais assistentes e analistas, 12,7% para coordenadores, 12,3% para gerentes e 11,5% para executivos.

De acordo com o líder em prática de serviços de informações da consultoria Towers Watson, Christian Mattos, essa diferença deve-se aos aumentos cedidos por mérito.

Petróleo. Os ganhos, porém, podem ser ainda mais elevados como em alguns segmentos do setor de óleo e gás, dependendo da área de atuação do profissional e de sua formação. Neste caso, o reajuste chegou a 16,7%. A falta de mão de obra especializada na área, principalmente de engenheiros, é o que explicaria esse panorama.

"O leilão (de mão de obra) que existe no segmento leva as empresas a traçar políticas de remuneração mais agressivas, o que puxa os salários para cima", afirma a o diretor de pessoas, organização, planejamento e governança do Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP), Ricardo Lyra.

Ele conta que, para tocar o projeto de construção de seis navios-sonda para exploração de petróleo, a empresa teve de buscar profissionais fora do País.

Foi o caso do engenheiro civil Marcelo Sampaio. Depois de construir uma carreira no setor de óleo e gás nos Estados Unidos, onde viveu por 15 anos, ele retornou ao Brasil dois meses atrás. De volta a sua Bahia, onde se localiza o estaleiro do grupo Odebrecht, o engenheiro comemora o fato de poder voltar a atuar no País e em condições melhores do que as oferecidas pelas empresas no exterior.

Sampaio, no entanto, alerta os mais jovens para não se deslumbrarem com os altos salários e pensarem mais nas oportunidades de aprendizado. "Ficar pingando de empresa em empresa sem aprender muito pode comprometer a carreira no longo prazo", opina.

Cenário. Para Mattos, os dados do estudo refletem, sobretudo, o fato de que o cenário de crise global que se arrasta desde 2009 continua afetando em menor escala o mercado brasileiro.

O analista socioeconômico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Jefferson Mariano tem a mesma visão. "Ainda que internamente tenha havido uma retração em vários setores no primeiro semestre, a economia brasileira não desabou como no resto do mundo, e os resultados do terceiro trimestre apontam para uma recuperação", diz ele. E acrescenta: "Esse quadro cria estabilidade e permite a reposição completa ou acima da inflação."

Mattos ainda lembra que os reajustes mais expressivos para os profissionais com cargos baixos na hierarquia empresarial, mostrados no levantamento, não significam que os executivos estejam tendo perdas em relação a esses profissionais.

"Ocorre é que os ocupantes dos cargos mais altos evoluem mais lentamente na carreira, enquanto os que estão no início do trajeto são promovidos e ganham aumentos com mais frequência", avalia.

Os bônus pagos aos executivos, no entanto, registraram queda. De acordo com o levantamento da Towers Watson, no ano passado, as empresas distribuíram 109% dos incentivos previstos, ou seja, 9% além do planejamento. Neste ano, porém, o índice caiu para 93%.

Queda. A mesma movimentação foi observada pela consultoria Mercer, que em um estudo recente registrou queda média de 10% nos bônus pagos aos executivos em 2012.

Segundo a consultora sênior da empresa, Andrea Sotnyk, o levantamento mostra, ainda, que resultados menores do que os obtidos em 2010 levaram as empresas a reduzir os pagamentos de incentivos de curto prazo.

No entanto, as companhias estudadas calibraram um pouco mais os reajustes dos salários fixos dos cargos acima do nível gerencial, de acordo com a consultora Andrea.

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