'No fim, é sempre uma questão de observação'

Professor de inglês que virou CEO conta como, e com quem, aprendeu a administrar

CLÁUDIO MARQUES , O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2014 | 02h13

Homem das letras, o professor de inglês Bruno Caravati, hoje com 71 anos, viu sua carreira migrar para a área de gestão até se tornar CEO e vice-presidente da Fundação Fisk, dona da rede de escolas de idiomas Fisk e PBS, além da Editora Suporte e a da Larry Propaganda, responsável pela publicidade do grupo. O início de Caravati na organização se deu nos anos 1960, como professor. Depois, tornou-se diretor de unidade e foi passando por vários cargos até chegar ao posto atual. Seu mestre na área administrativa foi o próprio fundador da rede, o americano Richard Hugh Fisk, ou simplesmente mr. Fisk, como é conhecido. O empreendimento, com ajuda de Caravati, se expandiu e hoje são mais de mil escolas, sendo 31 próprias e as demais, franqueadas. Sem herdeiros no Brasil, mr. Fisk, atualmente com 91 anos, criou em 1992 a Fundação, que passou a abrigar todos os seus negócios. O objetivo de criar a entidade foi o de permitir que as empresas tivessem continuidade após a sua aposentadoria. E que Caravati assuma a presidência. A seguir, trechos da conversa.

Como foi a passagem de professor para gestor?

Foi acontecendo. Comecei dando aulas e, depois de dois ou três anos, eu me tornei diretor de uma unidade Fisk. Fiquei nessa função por uns sete anos. Em seguida, mr. Fisk me trouxe aqui para a central para tomar conta do departamento pedagógico. A empresa foi crescendo muito, e tivemos de dividir esse departamento, dando origem ao departamento de cursos. Fiquei encarregado da divisão e, depois, do departamento de cursos durante vários anos. Nele, cuidava diretamente das escolas, dos alunos, professores, secretárias, do dia a dia das nossas unidades, enfim. Fiquei mais de dez anos na função até ser transferido para tomar conta da área administrativa. Fiquei bons anos nessa área e daí, com o advento da Fundação, fui escolhido para ser o seu vice-presidente. Uns quatro anos depois, o mr. Fisk começou a se afastar lentamente das operações e, como eu era a pessoa que já estava tomando conta da administração, fui elevado ao cargo de CEO, onde estou até hoje.

A maior experiência administrativa foi obtida nessa fase em que o senhor era responsável pela área de cursos? Como foi?

Foi uma loucura. Para você ter uma ideia, os números certos eu não me lembro, nós tínhamos de dez a 12 unidades, e fomos crescendo, crescendo. No final dos anos 1970, início dos 80, quando houve a divisão e eu fui para o departamento de cursos, nós chegamos a ter aqui sob minha administração pessoal mais de 22 unidades próprias na cidade de São Paulo e na Grande São Paulo. Eu tinha de percorrer essas escolas, ver como andava a parte administrativa, dar treinamento para professores, assistir a aulas, enfim, eu me envolvia em tudo que você possa imaginar que ocorra dentro de uma escola. Eu cuidava de tudo isso. A experiência administrativa vem daí, me proporcionou muita experiência para depois ver tudo globalmente.

O que levou a esse grande crescimento que mencionou?

Nós, diferentemente das concorrentes que existiam naquela época, fomos para todos os bairros da cidade de São Paulo. Quando começou esse crescimento da cidade mais para longe do centro, nós também começamos a abrir nossas unidades nesses bairros um pouco mais afastados.

Como foi o seu aprendizado?

Eu trabalhei mais de 20 anos ao lado do mr. Fisk. Eu fui aprendendo com ele e isso me ajudou demais. Eu sempre fui uma pessoa observadora e fui observando, vendo como ele conduzia os negócios, e aprendi demais. E isso, com certeza, me ajudou muito.

Essa proximidade fez com que o senhor fosse escolhido para aqueles cargos?

Com certeza. Embora nada me tenha sido dito ou prometido, do jeito que ele conduzia a situação e como ele foi me dando espaço, ele já tinha me escolhido. Acho que já estava na cabeça dele. E eu fui aproveitando a oportunidade que surgiu.

Como o senhor foi se inteirando das estratégias de negócio?

Observando o que os outros faziam, prestando muita atenção, tentando fazer o melhor que conseguia ver e descartando o que não funcionava bem e poderia ser feito de outra maneira em determinadas circunstâncias.

Há algum erro, engano, que se tornou um grande aprendizado?

Mr. Fisk diz que uma das minhas grandes virtudes é saber escolher as pessoas. Mas eu já quebrei muito a cara. Gente que eu confiava, que eu achava que podia dar certo, e deu errado.

Como se aprende a fazer um julgamento melhor?

Eu não tenho resposta para isso. É questão de intuição. Eu acho que 50%, 60% é a intuição. E observação. Você vai observando. Por exemplo, aqui, eu conheço todos os funcionários. Eu só trato com determinados líderes, mas observo todos os funcionários. Eu tenho essa vantagem de o funcionário nem saber e eu estou observando. Se me perguntarem o que eu acho de cada funcionário, eu digo de pronto. É por isso que, de vez em quando, pinçamos algum funcionário para uma posição melhor. No fim, é sempre (questão de) observação. É preciso ter um feeling que não sei como se consegue isso, não tenho a resposta para isso, estou sendo muito sincero, mas é preciso observar muito.

O senhor está sendo preparado para ser o presidente da Fundação?

Na verdade, estamos quase conversando de semântica. O presidente é o mr. Fisk, mas quem toca tudo sou eu. Ele vem aqui três vezes por semana, segunda, quarta e sexta, chega por volta de 10h,10h30, entra aqui na minha sala, fica conversando comigo, almoçamos juntos e ele vai embora. Portanto, quem toma conta mesmo sou eu. Mesmo agora, domingo que vem ele viaja, vai ficar sete meses fora, e sou quem vai cuidar da Fundação.

O que o senhor pode falar para quem está começando uma carreira de gestor, de executivo?

Uma palavra só: transparência. Isso diz tudo. Seja transparente, evidentemente a palavra, transparência implica honestidade. Nunca minta jamais, e seja receptivo a qualquer tipo de problema que exista na sua empresa. Uma outra coisa também muito importante, humildade é essencial. Não trate de maneira diferente o funcionário num posto mais alto e um funcionário num posto mais baixo. Você chega à empresa e tem de cumprimentar do porteiro à pessoa diretamente abaixo de você da mesma maneira. Não imponha nada pelo medo. Seja sempre aberto. Por exemplo, aqui na empresa, tanto eu quanto mr. Fisk trabalhamos de portas abertas, não há porta fechada na empresa.

E sempre procurando se esforçar, evidentemente...

Ah, claro. Essas coisas todas são bonitas de dizer, mas é aquela velha história, se você não suar diariamente, você pode esquecer. Não olhe para cima e peça 'Deus, me ajude', porque Ele não vai ajudá-lo mesmo. Mas você tem de ajudar Deus a ajudá-lo, porque, do contrário, não tem jeito.

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