No Fórum, Bolsonaro só teve assunto para 15 minutos

Tempo foi suficiente para apresentar seu governo como livre de ideologias, formado de pessoas qualificadas, comprometido com a moralidade, a abertura comercial, a segurança, a preservação do ambiente, reformas estruturais e promoção do crescimento

Rolf Kuntz, enviado especial

22 de janeiro de 2019 | 17h02

DAVOS - O presidente Jair Bolsonaro foi um campeão de brevidade em sua apresentação no Fórum Econômico Mundial. Quinze minutos bastaram para seu discurso e para a entrevista realizada pelo fundador e presidente do Fórum, professor Klaus Schwab. Foram suficientes para apresentar seu governo como livre de ideologias, formado de pessoas qualificadas, comprometido com a moralidade, a abertura comercial, a segurança, a preservação do ambiente, reformas estruturais e promoção do crescimento e, enfim, guiado pelo lema “Deus acima de tudo”. Sem menção direta no discurso, a reforma da Previdência só foi citada de forma explícita na resposta a uma pergunta de Schwab. Prevista inicialmente para 45 minutos, a sessão foi reduzida para 30, na atualização do programa, e acabou durando apenas 15.

Bolsonaro discursou entre um desastre natural e um pronuciamento do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, um dos principais auxiliares do presidente Donald Trump, apontado como esperança do Ocidente pelo chanceler brasileiro Ernesto Araújo.

Cinco milhões de toneladas de gelo desabaram diante do público pouco antes de entrar no palco o presidente brasileiro. O desabamento de uma geleira de um quilômetro de comprimento, com altura de um arranha-céu, foi mostrado em video, no fim da sessão de homenagem ao naturalista e ambientalista britânico Sir David Attenborough, premiado pelo Fórum na seção dos Crystal Awards.

O desmoronamento no Ártico foi exibido como ilustração do aquecimento do globo, tese rejeitada por autoridades brasileiras como parte de um embuste internacional. Mas o presidente Bolsonaro afirmou o compomisso de seu governo com a preservação ambiental e citou a agropecuária brasileira como atividade respeitadora da natureza. É missão de seu governo, explicou, avançar na compatibilização da defesa do ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico. A agricultura, lembrou, usa apenas 9% do território nacional e a pecuária ocupa menos de 20%.

O presidente afirmou ter tomado posse numa situação de “profunda crise ética, moral e econômica”. Prometeu moralidade e citou o ministro da Justiça, Sérgio Moro, como “o homem certo” para o combate à corrupção. Afirmou dispor de credibiidade para realizar o programa de reformas esperadas pelo mundo.

Anunciou uma agenda de promoção do crescimento, com redução da carga tributária, simplificação de normas e facilitação da vida de quem deseja empreender, produzir e gerar empregos. Essa passagem, com o recado mais explícito aos investidores esfrangeiros, foi completada com a promessa de trabalhar pela estabilidade macroeconômica, com privatização, respeito a contratos e abertura da economia. As mudanças, profetizou, colocarão o País entre os 50 melhores do mundo para fazer negócios.

Bolsonaro também mencionou o plano de ingressar na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o compromisso de trabalhar pela reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ao citar o objetivo de eliminar "as práticas desleais de comércio", repetiu, sem citar nomes, o argumento normalmente usado pelo presidente Donald Trump em seus ataques à política comercial chinesa.

O presidente Bolsonaro ainda prometeu trabalhar pelo resgate dos valores brasileiros e pela defesa da restauração dos "verdadeiros direitos humanos", exemplificados com os direitos à vida e à propriedade privada.

Uma novidade foi a menção à necessidade de preparar a juventude para a quarta revolução industrial, um tema normalmente ignorado pelo ministro da Educação, mais preocupado com assuntos como a influência marxista e a discussão de questões de gênero nas escolas.

“Temos o compromisso de mudar a história”, disse O presidente. “Pela primeira vez no Brasil, um presidente montou uma equipe de ministros qualificados”, disse. Entendida literalmente, essa declaração apresenta o ministro da Economia, Paulo Guedes, como o primeiro qualificado para sua função, muito acima, portanto, de figuras como Roberto Campos, Otávio Bulhões, Delfim Netto, Mário Henrique Simonsen e Pedro Malan, para citar só algumas figuras de boa reputação acadêmica e técnica. Pelo mesmo critério, o chanceler Ernesto Araújo, conhecido por apontar Donald Trump como esperança do Ocidente, desbancaria até o barão do Rio Branco.

Encerrada a sessão do presidente Bolsonaro, começou a do secretário de Estado Mike Pompeo, realizada por videoconferência.

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