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Nó górdio

O governo grego do partido de ultraesquerda Syriza, dirigido pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras, gastou todo o estoque de indulgência de que se beneficiava com a União Europeia (UE).

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2015 | 02h05

No começo, os "senhores" de Bruxelas contemplavam com um misto de espanto e ternura esses gregos que pretendiam ditar sua lei à UE sob o pretexto de que sua caixa estava vazia e a falência os rondava.

Hoje, porém, os banqueiros da UE estão irritados. Eles perderam a calma. Um pouco como pais que durante horas suportaram os gritos de seu filhinho, que deram a esse filhinho bombons e brinquedos, cantaram-lhe canções de ninar, mas que, por fim, exasperados com os gritos, passam de repente a um outro exercício: a surra.

A última reunião dos países da zona do euro no dia 24 em Riga, Letônia, não deu em nada. Será o caso de esperar que a próxima reunião do grupo em 11 de maio desatará o nó górdio? Se ela não conseguir fazê-lo, o caminho será a falência porque a Grécia terá de conseguir 720 milhões antes de 12 de maio e depois 3,5 bilhões até 20 de julho.

Como a capacidade financeira da Grécia é minúscula e sua boa vontade rara, reina o pessimismo, e Bruxelas ousa, pela primeira vez, fazer a pergunta proibida: "E se chegarmos a uma Grexit?", isto é, à saída da Grécia do euro.

Na falta de uma resposta às perguntas feitas por Bruxelas, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e os banqueiros europeus são o único trunfo de que dispõe a Grécia dos exaltados do Syriza. É a estratégia do fraco com o forte: uma saída da Grécia provocaria tamanho tsunami nos 18 membros da zona do euro que os europeus estariam condenados, segundo os estrategistas gregos, a eliminar as dívidas de Atenas sem impor medidas suplementares de austeridade.

De que forma se revestiria esse tsunami? Primeiro, uma forma bancária. A exposição dos bancos europeus na Grécia se eleva de 300 bilhões a 400 bilhões. Para a França, levando em conta os empréstimos concedidos a Atenas e os do BCE do qual a França é acionista, atinge a quantia de 68 bilhões.

Esse temor é minimizado pelos ministros da zona do euro. Eles dizem que, desde 2010 e do começo da derrocada grega, a união monetária se fortaleceu bastante e que hoje estaria imune aos efeitos de contágio sofridos dramaticamente em 2011 e 2012. "Os canais de contágio foram tapados", dizem os especialistas da Oddo Securities.

Em compensação, o desgaste em termos de imagem seria enorme. As economias frágeis do continente correriam o risco de ser arrastadas pela voragem e poderiam ser condenadas a sair também da zona do euro. O Grexit se transformaria no estatuto e a natureza da moeda europeia, o euro. Hoje, este goza de uma saúde invejável de "moeda irreversível".

Se o euro grego se dissolver, então o euro se tornará num único golpe um mero "acordo monetário" entre Estados.

Não convém esquecer que em todos os países da Europa, mesmo nos países ricos, crescem partidos (com frequência de extrema direita, ditos "populistas") cujo programa inclui a dissolução do euro ou da UE. Este é o caso, entre outros, do Reino Unido que, dentro em breve, elegerá seus deputados. Nem é preciso dizer que um Grexit forneceria um fabuloso combustível a todos que, na Europa, gostariam de vê-la no pelourinho. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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