No interior do Pará, produtividade recorde para o cacau

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2014 | 05h00


MEDICILÂNDIA (PA) - Criada às margens da rodovia Transamazônica, no km 90, a pequena Medicilândia, no Oeste do Pará, era uma ilustre desconhecida no mapa do Brasil até virar a capital nacional do cacau. A cidade, que carrega no nome uma homenagem ao general Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil na época mais pesada da ditadura militar (entre 1969 e 1974), entrou para o rol das melhores amêndoas do País e hoje atrai fabricantes nacionais e estrangeiros de chocolates finos.

O município, emancipado apenas em 1989, teve origem na criação do programa federal para colonizar a Amazônia, na década de 70. A ideia era levar para a região trabalhadores sem terra de diversos pontos do Brasil, em especial do Nordeste. Para dar emprego aos novos moradores, o governo construiu na agrovila a usina de açúcar Abraham Lincoln (presidente americano entre 1861 a 1864), que funcionou até 2002. Com a derrocada do empreendimento, a cana-de-açúcar deu espaço a outras culturas, em especial à produção de cacau, considerado o alimento dos deuses pelos astecas.

Hoje a cidade tem 36 mil hectares de lavoura de cacau - área menor que a de Ilhéus (BA), o mais tradicional produtor do País. A diferença é que a produtividade em Medicilândia é bem maior, afirma o superintendente da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) do Pará, Jay Wallace Mota. Segundo ele, a cidade produz em média entre 1.000 e 1.060 quilos de amêndoas por hectare. “Alguns produtores conseguem até 2.500 quilos (o que seria a maior produtividade do mundo).” Na Bahia, a média é de 0,3 quilo, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Uma das explicações para a alta eficiência de Medicilândia é que seu solo tem manchas de terra roxa, muito fértil para a agricultura. “Os números poderiam ser ainda melhores se os novos produtores tivessem mais treinamento e acesso à tecnologia”, afirma Mota. Os primeiros agricultores da região tiveram mais sorte, conseguiram se preparar melhor e ganharam know how no setor. Para agregar maior valor ao produto, eles adotaram a técnica de fermentação do cacau, o que dá mais qualidade à amêndoa e permite a produção de um chocolate mais saboroso.

“Hoje, 90% do cacau do Brasil não é fermentado. É colhido e secado ao sol, o que reduz a qualidade do produto”, afirma o presidente da Harald Chocolates, Ernesto Harald. Há dois anos, a empresa começou a comprar a produção do Pará, especialmente de Medicilândia, para fazer os chocolates premium e super premium. “Por causa da fermentação, a amêndoa da região tem um poder menos ácido que o da Bahia e o chocolate fica mais suave.”

Para essa linha de produtos finos, o cacau comprado pela companhia é orgânico, tendo de atender a 30 requisitos de qualidade, como colher apenas o fruto maduro do pé e fermentar as amêndoas por cinco a seis dias. Antes de fechar contrato com os produtores, Harald visitou cada um deles e conheceu todo o processo, desde a plantação, colheita até a secagem do produto. O cacau do Pará representa entre 2% e 3% da produção da empresa. Em dois anos, a fabricante de chocolates espera aumentar esse porcentual para 5%. “O Pará é a maior fronteira agrícola do mundo para aumentar o plantio do cacau.”


Produção do Estado. Medicilândia representa um terço da produção do Estado, o segundo maior produtor do Brasil, atrás da Bahia. A meta dos agricultores locais é alcançar a liderança nacional em cinco anos, diz o presidente da Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica (Coopatrans), Ademir Venturim. Segundo ele, só com o melhoramento genético das plantas e acesso a novas tecnologias o Estado já conseguiria bater esse objetivo.

O planejamento da Ceplac até 2022, no entanto, não prevê mudanças no ranking nacional. Mas a estratégia é ampliar a produção das atuais 88 mil para 250 mil toneladas. “Há cerca de 60 mil hectares de terra na região que podem ser usados para plantação de cacau. Embora o objetivo não seja o de atingir a liderança, se as coisas continuarem no ritmo que estão (aumento de 7% da área plantada por ano), o Pará pode se tornar o maior produtor do País.”

Mota destaca entretanto que, nos últimos anos, a Bahia conseguiu sanar seus problemas de endividamento e voltou a ter condições de ampliar a produtividade. Portanto, é possível que ela reaja e melhore os indicadores. Ainda assim, o Pará continuará com algumas vantagens em relação a Bahia, diz ele. Os dois polos de produção sofrem com a vassoura de bruxa, doença que mata os frutos e compromete a produção. “Na Bahia, no entanto, a produção é confinada ao Sul do Estado. No Pará, ela é mais esparsa, o que evita a proliferação da doença.”

Por outro lado, é na Bahia que estão as grandes indústrias de beneficiamento do cacau. Quase toda a produção paraense é levada para o Nordeste por grandes companhias, como Cargill, Barry Callebout e ADM, e beneficiadas na indústria da Bahia. Durante anos, conta Venturim, as amêndoas do Pará eram vendidas pela metade do preço baiano por serem consideradas de qualidade inferior. “Apenas em 2000 os preços foram igualados e agora descobrimos que o nosso cacau é melhor.”

Além da Harald e da Natura, que usa o cacau na elaboração de cosméticos, produtores estrangeiros da Áustria e Alemanha compram da região. Mas, para atender esses clientes, o nível de exigência é elevado. O produto precisa de uma série de certificações e padrões de qualidade.


Fabricação própria. Os moradores da região, no entanto, não querem ser só fornecedores de commodities. Há quatro anos eles começaram a experimentar a arte de produzir o chocolate. Com o dinheiro de um fundo criado pelo governo do Estado, eles construíram a Cacauway, uma fábrica de chocolates com alto teor de cacau, administrada pela Coopatrans. Sem experiência no assunto, os integrantes da cooperativa foram treinados pela empresa que vendeu os maquinários para a fábrica. “Uma coisa que aprendemos é que para ter um bom chocolate é preciso ter uma boa amêndoa. Por isso, priorizamos o campo”, diz Venturim.

Desde 2010, eles já abriram sete lojas no Estado, em cidades como Belém, Marabá e Altamira. Para inaugurar novas unidades, diz o executivo, é preciso ampliar a capacidade de produção da fábrica. Hoje são feitos 100 quilos de chocolate por dia. “Queremos chegar a 500 quilos por dia.”

 

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Renée Pereira, Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2014 | 05h00

O pequeno trator Agrale vermelho na beira da estrada era a senha para chegar ao Sítio Lindo Dia, no km76 da Transamazônica. Sem placas de sinalização, essa era a única forma de não passar batido pela fazenda de cacau do senhor Elido Trevisan, um gaúcho simpático de Tenente Portela, que virou um dos produtores de cacau mais eficientes do Oeste do Pará. Defensor do aumento do plantio de cacau como forma de reflorestamento da região, ele tem 80 hectares de área plantada, sendo 70 de cacau e 10 de cupuaçu.

Trevisan chegou a Medicilândia com 18 anos de idade, quando o município ainda era uma agrovila dentro do projeto do governo federal de colonização da Amazônia. Os lemas “integrar para não entregar” e “Amazônia, terra sem homens para homens sem terra” caíram como uma luva para convencer a mãe a deixar o Sul e ir para o Norte. “O maior desejo dela era ter terra suficiente para manter todos os filhos juntos”, diz o agricultor.

A bordo de um caminhão F-250, “novinho em folha”, a família atravessou o Brasil numa distância de 3.581 quilômetros de estrada durante 12 dias. A Transamazônica ainda estava sendo aberta pelos militares e o acesso era complicado. A região não tinha recurso nenhum, mas ainda assim a família se adaptou bem ao novo lar, que surgia sob a cultura do desmatamento. “A ordem era abrir a mata e plantar alguma coisa. Começamos com arroz e feijão. Em 1976, consegui as primeiras sementes de cacau”, conta Trevisan, que também já plantou cana e criou gado.

No ano seguinte, financiado pelo Banco do Brasil, plantou 10 hectares de cacau. Daí em diante, apesar dos altos e baixos provocado pelo preço da commodity, nunca mais parou de produzir. “Quando o preço está ruim, muita gente abandona a lavoura. Eu nunca descuidei da minha, pois depois o trabalho é dobrado.” Foi com essa filosofia que ele se tornou um dos agricultores com maior produtividade do País.

Chegou a bater a marca de 3 mil quilos por hectare - sem dúvida uma das maiores do mundo. “Mas aí veio a vassoura de bruxa e meus indicadores caíram abaixo de mil quilos. Entrei em desespero”, lembra Trevisan. Mas, em vez de abandonar a cultura, ele optou por fazer cursos de especialização para melhorar a sua produção. “Hoje consigo tirar 1.500 quilos por hectare. Mas, se tivéssemos mais crédito e apoio, sem dúvida esse número mais que dobraria.” O agricultor diz que o setor vive uma crise de assistência técnica: “Os pesquisados (da Ceplac) estão se aposentando e não temos visto uma reposição de novos agrônomos.”

Caminhando pela lavoura de cacau e de cupuaçu, ao lado da mulher Leodete Decker, uma catarinense da cidade de Modelo, Trevisan contempla o resultado de anos de trabalho e se orgulha de feito o caminho inverso ao do desmatamento. Como o cacau precisa de um pouco de sombra, árvores, como tatajuba, ipê roxo e amarelo, cedro e teca, são plantadas no meio da lavoura. “O governo precisa assumir que a plantação da cacau é a melhor forma de reflorestamento.”

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Renée Pereira, Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2014 | 05h00

Na lavoura de cacau da família Vronski não entra nenhum tipo de produto químico. Os 36 mil cacaueiros plantados nos 35 hectares de terra são cultivados com adubo natural, produzido com uma mistura de resíduos orgânicos. A colheita obedece um critério rígido de seleção dos frutos e a fermentação é feita em grandes caixotes de madeira durante cinco, seis dias. Tanta dedicação garantiu a fama de “padrão Vronski de qualidade”, que conquistou fabricantes de chocolate do Brasil e da Áustria, além de empresas de cosméticos, como a Natura.

Em Medicilândia desde meados da década de 70, os paranaenses Rosa e Darcírio Vronski começaram a produzir cacau orgânico após participarem de uma feira agrícola. “Percebemos que tudo que era orgânico vendia muito mais rápido que os demais produtos”, disse Rosa. Em 2005, depois de uma visita de fabricantes austríacos, os agricultores locais criaram a Cooperativa de Produção Orgânica da Amazônia (Copoam).

Mas não foi uma tarefa fácil arregimentar e convencer os fazendeiros locais da vantagem do cacau orgânico, que exige muito mais trabalho que o produto normal. Foram necessárias mais de 20 reuniões para conseguir formar o grupo, que hoje tem 26 sócios e produz cerca de 600 toneladas por ano. “Hoje a demanda é muito maior que a nossa produção. Se mais agricultores fizerem um cacau de qualidade poderíamos ampliar as vendas”, afirma Rosa, de 55 anos.

Ela conta que começou a produzir cacau depois de comprar a fazenda de um padre italiano que deixou a batina, casou-se com uma moça da região e voltou para sua terra natal. A partir daí, a família ampliou a lavoura e melhorou a produtividade da terra. “Hoje conseguimos tirar entre 500 gramas e 1 quilo de cacau por pé”, garante a paranaense, que já pensa em expandir a plantação nos próximos dois anos.

Segundo ela, embora toda a plantação siga critérios de lavoura orgânica, nem todas as amêndoas são classificadas como tal. Para serem vendidas para produtores exigentes, as amêndoas não podem ser quebradas, têm de ser inteiras. Na hora de retirar a polpa do cacau, apenas o fruto perfeito segue para a classificação. Os demais são vendidos como cacau normal. A produção orgânica, com certificação, vale o dobro do produto normal.

Além de ser uma exímia conhecedora do cacau orgânico, nos últimos tempos Rosa se aventurou no mundo do chocolate. Na pequena casa de madeira, construída às margens da Transamazônica, ela improvisou uma máquina de pão para bater o chocolate. Aprendeu as regras básicas para transformar o cacau em chocolate num curso da Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

“Com as noções básicas na cabeça fui aperfeiçoando e dando o meu toque. Agora meu ex-professor quer saber como eu faço o chocolate”, diz Rosa, orgulhosa de suas barras recheadas de maracujá, cupuaçu e coco. A agricultora já vende seus chocolates, sem produtos químicos, em lojas da região, assim como o cacau em pó e amêndoas de cacau caramelizadas.

Acostumada a receber fabricantes estrangeiros de chocolate, que desembarcam na região para conhecer o cacau orgânico do Pará, ela conta que faz questão de testar o sabor de suas barras com quem entende do assunto - os últimos a provarem do chocolate da Dona Rosa foram os representantes da fábrica austríaca Zotter. “Eles até queriam revender o chocolate”, diz ela, otimista com os rumos do negócio. “Agora estou fazendo uma parceria com o Sebrae para personalizar as embalagens.”

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