No interior paulista, menos gado e lavoura mais diversificada

Família profissionaliza gestão da propriedade, mecaniza lavoura e investe em irrigação para produzir frutas e legumes

Chico Siqueira ESPECIAL PARA O ESTADO ARAÇATUBA (SP), O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

Dona de quatro pequenas propriedades, a família Nebuya, de Guararapes, a 560 quilômetros da capital paulista, teve de fazer sua revolução interna para se adaptar às mudanças ocorridas no campo nos últimos anos. Ao invés de grãos e tomate, passou a produzir frutas, cebola e cana.

Deixou de ser grande contratadora de mão de obra para priorizar lavouras mecanizadas. Os Nebuyas também não estão mais sujeitos às intempéries do tempo - hoje, os pivôs de irrigação são essenciais no plantio. Para completar, um profissional com MBA na Fundação Getúlio Vargas assumiu a administração dos negócios, com um dos filhos, o agrônomo Fábio Nebuya.

Entre a década de 1970 e início dos anos 2000, o patriarca Makoto Nebuya plantava tomate rasteiro, milho e feijão e tocava gado de corte em quatro propriedades, com total de 430 hectares. Na década de 90, os Nebuyas eram os maiores produtores de tomate rasteiro de São Paulo.

O aumento dos custos de produção, a baixa remuneração e a redução da margem de lucro apertaram os Nebuyas, e a família foi obrigada a buscar alternativas . A mudança ocorreu há seis anos, quando decidiram reduzir as grandes plantações de tomate e acabar com as de feijões e soja, passaram a usar pivôs de irrigação, aumentaram a diversidade de lavouras e introduziram um sistema mais eficiente de gestão.

Para fazer a mudança usaram os recursos da venda da criação de 600 cabeças de gado de corte e de leite. "A pecuária, além de não dar lucro, ainda aumentava as despesas", diz o administrador da propriedade, Ricardo Mayehashy.

Diante das dificuldades com a agricultura tradicional, Nebuya usou uma parte do dinheiro para elevar a tecnologia em busca de melhores índices de produtividade: diversificou as lavouras, introduziu novos manejos e profissionalizou a gestão.

Fábio Nebuya, o único filho da família que decidiu seguir na agricultura, lembra que os custos de produção hoje são bem maiores que há 10 anos. "A tonelada do adubo custava R$ 180,00; hoje está em R$ 600,00; o óleo diesel custava R$ 0,36 e hoje R$ 1,56 o litro", diz.

Produtividade. A produtividade do milho, que era de 160 sacas por hectare, atinge hoje 415 sacas, porque o grão, que era sequeiro, passou a ser irrigado. A produtividade da pecuária não acompanhou.

Com cada boi gordo vendido, o pecuarista comprava dois bezerros e meio. Hoje, essa relação não chega a dois bezerros. Por causa da baixa remuneração, os plantéis foram desmontados e até as matrizes foram descartadas por alguns pecuaristas.

Os Nebuyas seguiram o ritmo. Desfizeram-se do gado para investir na diversificação agrícola. "Hoje não temos gado nem para doar para os leilões da Igreja. A gente sempre ajuda a comunidade, mas hoje teremos de comprar gado se quisermos ajudar", diz Fábio. "Não sobrou uma cabeça no pasto."

Em compensação, os Nebuyas plantam atualmente, além de tomate e milho, cana, banana, lichia, manga, cebola e seringueira. "Se a gente não acompanhasse essa modernização, ficava para trás, como você pode ver aqui na região", diz Fábio, enquanto aponta para sítios que foram abandonados na zona rural de Guararapes, porque os pequenos produtores não acompanharam o desenvolvimento da agricultura brasileira.

Mudança de foco

MAKOTO NEBUYA

AGRICULTOR

"Entre os anos de 1990 e 2000, ainda era possível obter renda com agricultura e pecuária...

Os produtos eram bem pagos e os custos de produção eram menores do que hoje"

RICARDO MAYEHASHY

ADMINISTRADOR DA FAZENDA

"A pecuária, além de não dar lucro, ainda aumentava as despesas dos negócios

da família, que já penava para bancar as despesas com a lavoura"

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