No Japão, mercado de celular vive saturação

Fabricantes locais como a Sony sofrem para atender à alta demanda por novidade

HIROKO TABUCHI, THE NEW YORK TIMES / TÓQUIO, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2013 | 02h20

Já foram vendidas um milhão de unidades do smartphone Xperia Z da Sony no Japão, colocado à venda em fevereiro. Mas a NTT DoComo, maior operadora de telefonia móvel do país em breve já deixará de oferecer o aparelho.

O Xperia Z ainda não chegou ao mercado norte-americano: a operadora T-Mobile diz que o aparelho será lançado na sua rede nas próximas semanas. Mas ele já ficou ultrapassado no Japão. A DoComo aposta agora em um novo modelo, o Xperia A - que tem menos recursos e não conquistou ainda os elogios enormes que o Xperia Z.

"É hora de lançar um novo modelo", disse Mai Kariya, representante da DoComo em Tóquio. "Encerramos as vendas do Xperia Z e agora nos concentramos no Xperia A."

À medida que a Sony aposta nos smartphones para retomar o crescimento da sua problemática unidade de eletrônicos, ela se depara com um obstáculo cada vez mais incômodo no seu próprio país: a demanda das operadoras de celulares japonesas obcecadas com atualizações constantes dos aparelhos.

Há anos as três maiores operadoras de rede móvel pressionam as fabricantes de telefone para atualizarem seus aparelhos a cada três ou quatro meses, oferecendo aos consumidores japoneses uma gama deslumbrante de telefones e recursos ultramodernos a cada temporada.

Telefones com receptores de sinal de TV digital fizeram furor há alguns anos. Um aparelho sem esse recurso nunca seria vendido. Depois vieram celulares que usavam a impressão digital como senhas. Hoje você terá dificuldade para encontrar este recurso em muitos telefones. O mesmo vale para as telas giratórias e, em menor extensão, para aparelhos que também fazem pagamentos.

Tradição. Esse ciclo acelerado é comum no marketing japonês. Segundo analistas, as fabricantes lançam no mercado edições limitadas de produtos sazonais para criar alvoroço. A Pepsi japonesa, por exemplo, lança bebidas com edição limitada a cada ano: como a Pepsi Melancia Salgada ou a Pepsi Ice Pepino. A barra de chocolate KitKat da Nestlé teve várias edições que chamaram a atenção no Japão: com chá verde, abóbora, morango, wasabi ou soja, para indicar apenas alguns.

Mesmo a banda pop sucesso de vendas no Japão, o AKB48, com um elenco de 67 músicos, lançou 16 versões de gravações novas e antigas no dia de Ano Novo. "Esta é a parte pior da excessiva obsessão das empresas japonesas pela novidade", disse Yuichi Kogure, professor da área de tecnologia da informação na Universidade Pública de Aomori e autor de livros sobre o setor de celulares no Japão. "Mas agora as fabricantes de celulares estão exaustas."

O Xperia Z da Sony foi pego nessa serra circular do marketing. A DoComo começou a vender o aparelho no Japão no dia 9 de fevereiro como parte da sua coleção primavera 2013, substituindo o Xperia AX da coleção de inverno 2012. Um mês depois, em 15 de março, a companhia anunciou 11 novos aparelhos para a sua coleção 2013, substituindo o Xperia Z pelo Xperia A, que começou a ser comercializado no mês passado.

A constante rotatividade de aparelhos tem ajudado as operadoras a atrair clientes de redes rivais. Mas isso gera custos de pesquisa e desenvolvimento para as fabricantes de celulares japonesas, que precisam atender às demandas constantes das operadoras por novos recursos e renovações frequentes dos aparelhos.

Para as fabricantes é impossível alcançar economias de escala que justifiquem os altos custos de desenvolvimento e as magras margens de lucro. Segundo analistas, como as fabricantes de celular têm equipes distintas de designers que trabalham para produzir aparelhos do zero para cada operadora separadamente, poucas empresas do país têm conseguido desenvolver uma estratégia de produto global coerente.

Para Kenji E. Kushida, especialista em tecnologias da informação e comunicações na Universidade de Stanford (na Califórnia), o ritmo excepcional do mercado de celulares japonês o distingue do resto do mundo, tornando difícil para uma única fabricante produzir e vender telefones para os mercados global e japonês. "O mercado japonês se tornou uma espécie de Ilhas Galápagos, que tinha uma grande biodiversidade, mas pouquíssimas espécies estrangeiras", disse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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