No Japão, o desafio é vencer a 'mentalidade' de crise

Com desvalorização do iene e reformas, país incentiva consumo e produção para romper 15 anos de estagnação

Denise Chrispim Marin, enviada especial de O Estado de S.Paulo,

19 de abril de 2014 | 18h24

Ao lançar seu plano para romper 15 anos de estagnação, o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, apostou na teoria do "vai ou racha" e transformou o país no maior laboratório de economia do mundo. No ano passado, seu governo adotou dois pacotes de estímulo, que totalizaram US$ 230 bilhões, e o Banco do Japão injetou US$ 520 bilhões no mercado, provocando acentuada desvalorização do iene. Em setembro deste ano, Abe deve anunciar as reformas para aumentar a competitividade.

Abe planeja ver o Japão engrenar em um novo ciclo, de crescimento com inflação baixa, a partir de abril de 2015. Se der certo, colocará o Japão no trilho de um ultra capitalismo inédito no mundo. A Abenomics, a política econômica lançada no ano passado e que terá três fases, é considerada ousada por uns. Outros a veem como reedição de medidas fracassadas. Há ainda os que dizem ser essa a última chance de o Japão ressurgir como nos anos 80, quando aprender japonês - e não mandarim - era a propaganda no fundo dos cenários do filme Blade Runner, de Ridley Scott.

O plano foi anunciado em janeiro de 2013, nos primeiros dias de governo de Abe, político conservador que já renunciara ao mesmo posto cinco anos antes. Como metáfora, ele tomou emprestada de uma lenda de sua terra natal, sobre um senhor feudal que usa as flechas para ensinar aos três filhos que, permanecendo unidos, não serão vencidos.

Se der certo, em dez a vinte anos, o Japão terá sua massa de trabalhadores engrossada por mulheres e jovens mais bem preparados, e com baixo porcentual de imigrantes. A produção doméstica estará azeitada nos setores de bens de alta tecnologia e valor agregado, que trariam um aumento substancial nas exportações. O consumo interno, hoje ainda limitado opção de poupar, se expandirá, alimentado pela massa salarial mais elevada.

A dívida pública, como parcela do Produto Interno Bruto (PIB), terá baixado dos atuais 240% para cerca de 160%, em 2030, nas contas otimistas do Keidanren, a Federação Empresarial do Japão. As contas correntes fecharão com saldos positivos, graças às exportações, à repatriação de dividendos das multinacionais e ao turismo estrangeiro. O país será comercialmente mais aberto e combinará energia nuclear com fontes renováveis.

Para o economista Etsuro Honda, assessor de Abe e um dos formuladores do plano, é preciso mudar a mentalidade de empresários e consumidores, apegados desde a crise de 1997 ao ciclo de deflação, salários baixos e consumo em queda. "Muitos países sofreram hiperinflação, como o Brasil. O Japão é o único caso clássico de deflação, e governos anteriores falharam em adotar a política correta para tirar o país desse ambiente", afirmou Honda.

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