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No meio das chamas

Acordo com UE pode até seguir, mas País será visto com desconfiança

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2019 | 05h00

Parecia até que o fechamento do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, anunciado há dois meses na reunião do G-20, marcaria a entrada em cena de um Bolsonaro começando a se ajeitar no figurino de chefe de um País inserido no mundo globalizado.

Depois da troca de farpas sobre política ambiental com o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, Bolsonaro acabou assumindo os compromissos exigidos pelo Acordo do Clima, incluindo combate ao desmatamento. E, daí por diante, foi só comemoração. Segundo o governo alardeou na ocasião, o tratado traria um aumento de quase US$ 100 bilhões nas exportações do Brasil para o bloco e de até US$ 125 bilhões no PIB, no prazo de 15 anos.

Mas a festa durou pouco. A crise internacional deflagrada pela explosão de queimadas na Amazônia, que fez até o dia virar noite em São Paulo, ameaçou isolar o governo Bolsonaro e provocar forte impacto sobre a economia do País. Aos primeiros sinais desse avanço, Bolsonaro atirou contra tudo e todos: o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), as ONGs, os governadores da região e os líderes dos países europeus. A resposta foi imediata, com protestos espalhados dentro e fora do País, corte de verbas dos fundos ambientais, advertência de sanções às exportações brasileiras e principalmente de não ratificação do acordo UE-Mercosul. 

Corre o mundo a convocação de boicote a produtos brasileiros, na esteira da ameaça feita por Macron de um boicote específico ao acordo comercial UE-Mercosul. A ruptura, porém, perdeu força na reunião do G-7, no fim de semana. Merkel considerou que isso não ajudaria em nada a combater os incêndios na Amazônia. Para ela, seria mais efetivo submeter o governo brasileiro às regras que constam do próprio acordo. Na mesma linha, o governo da Espanha argumentou que é justamente com a aplicação das cláusulas do acordo que mais se pode avançar na luta ambiental e o novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, condenou quem quer “frustrar acordos comerciais”. No final do encontro, a mensagem foi de “ajuda” aos países amazônicos.

Mesmo com a união UE-Mercosul seguindo em frente, porém, os estragos na imagem do Brasil já estão feitos e o País continuará sendo visto com desconfiança por seus parceiros. Bolsonaro e sua turma passaram vários dias minimizando as críticas e insinuando que os líderes europeus estão apenas disfarçando intenções protecionistas com uma pretensa defesa do meio ambiente. Mas, sob pressão e ao som de panelaço em várias cidades, o presidente acabou fazendo um pronunciamento em rede nacional, na sexta-feira.

Prometeu tolerância zero contra crimes ambientais e anunciou o envio de tropas federais para a Amazônia, Além disso, liberou R$ 38,5 milhões para combater as queimadas. 

Líderes empresariais se dividem em relação à “estratégia” de Bolsonaro. Enquanto o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável manifesta preocupação com o impacto das políticas ambientais sobre o comércio, a Fiesp acusa os integrantes do tratado de utilizar “pretextos que não têm qualquer relação com o que foi negociado para fazer política interna e tentar atacar a imagem do Brasil”. 

Ignorar que líderes como Macron, Merkel e outros tantos têm lá seus interesses seria no mínimo ingenuidade. Não é de agora que os países europeus recorrem a barreiras não tarifárias para enfrentar a competição de produtos importados, especialmente no agronegócio - que destina quase um quinto das suas exportações para a UE. Também não são novidade embates externos para contornar problemas internos. 

O que não faz sentido é agir irracionalmente e negar evidências, como vem fazendo Bolsonaro em relação à emergência ambiental na Amazônia. Segundo o Inpe, de janeiro a agosto, o País teve um aumento de 85% nas queimadas, sobre igual período de 2018, com 74 mil focos de incêndio, mais da metade na Amazônia.

E, de acordo com a Nasa, há sinais claros de desmatamento nos principais focos de queimadas na região. Além disso, é preciso reconhecer que o discurso ambiental dos governantes europeus não é “vazio”, mas tem conexão com a realidade. Pragmaticamente, reflete um novo olhar dos seus “consumidores” – ou eleitores –, cada vez mais atentos a demonstrações de responsabilidade social por parte de empresas e governos. 

*JORNALISTA

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