No meio das eleições, o BC

A alta do dólar já afeta a projeção de inflação, mas não para forçar o BC a agir

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2018 | 04h00

Desde a disparada o dólar ante o real, com a moeda americana chegando perto dos R$ 4,00, esquentou o debate sobre se o Banco Central deveria elevar os juros básicos para conter a depreciação do real e não apenas usar a artilharia dos swaps cambiais.

O Banco Central vem repetindo exaustivamente que a política monetária é separada da cambial e que não há relação mecânica entre as duas. Ou seja, o BC não vai usar juros para controlar a taxa de câmbio. Mas os analistas estão divididos sobre esse tema.

Para Tony Volpon, economista-chefe para Brasil do banco UBS, em tempos “normais”, a gestão da política monetária pode ser tocada mesmo “a livro texto”: juros mirando inflação, câmbio flutuante, etc.

“No caso dos países emergentes, por suas debilidades institucionais, fragilidade fiscal, falta de poupança, entre outras variáveis, quando há bruscas mudanças de cenário – seja por causas externas ou internas – você cai em um regime de exceção”, diz Volpon. “Nesse caso, as coisas não funcionam como em tempos normais, pois há uma ligação mais estreita entre política monetária e cambial.”

Isso porque, na visão dele, nesse “regime de exceção”, a taxa de juros da política monetária começa a não ser somente instrumento de inflação, mas de remuneração do risco dos investidores, os quais exigem um prêmio de risco.

Essa foi a razão pela qual Volpon mudou recentemente sua aposta para a taxa Selic no fim deste ano. Ele prevê agora que o BC vai elevar os juros em 2 pontos porcentuais, dos atuais 6,50% para 8,50%, após a eleição presidencial.

Ele argumenta que o BC pode até certo ponto escolher o timing do ajuste, isto é, pode postergar o ajuste de juros a custo de maior intervenção no câmbio, embora isso tenha como limite o tamanho das reservas internacionais, atualmente ao redor de US$ 380 bilhões. Para Volpon, não parece ser uma escolha viável politicamente elevar os juros antes das eleições.

Já na opinião do economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, o BC não deve elevar a Selic exclusivamente por conta do movimento da moeda.

“O País não vive em um regime de câmbio fixo ou apresenta grande necessidade de financiamento externo (ou dívida local indexada ao dólar) que justifique uma alta de juros apenas por conta da depreciação da moeda”, diz Barbosa. “Em um regime de metas, o Banco Central orienta sua política monetária, diante de um choque, olhando para os efeitos secundários sobre os preços.”

Ele lembra que a banda do regime de metas de inflação serve justamente para absorver o impacto inicial do choque até que o Banco Central tenha clareza se a mudança de preços produzida por esse choque se trata de um realinhamento de preços relativos ou inflação. “Enquanto se tratar de um ajuste de preços relativos, as expectativas permanecerem ancoradas e a inflação estiver dentro da banda, a taxa de juros não deve responder”, argumenta.

Para Barbosa, a direção da taxa de juros também dependerá muito da política econômica em 2019, primeiro ano de mandato do novo presidente da República. “Quanto mais organizada, menores as chances de uma elevação dos juros em função da ancoragem das expectativas e de uma eventual apreciação da moeda, tendo como contraponto uma aceleração do crescimento que pressionará a inflação futura”, afirma. Por ora, Barbosa mantém a sua aposta de elevação da Selic para 8,0% ao fim de 2019.

Na última pesquisa Focus, a mediana das projeções para o IPCA deste ano deu um salto de 3,65% para 3,82%. Já a estimativa de inflação em 2019 subiu de 4,01% para 4,07%.

A alta do dólar começa a afetar a projeção de inflação do mercado, mas esse movimento ainda parece ser pequeno para forçar o BC a agir. Ou seja, as expectativas inflacionárias estão ancoradas, mas até quando?

Se as dúvidas sobre a postura fiscal do próximo presidente pressionar o dólar, essas expectativas vão andar. Qual o custo-benefício de o BC agir preventivamente e subir os juros agora caso, por exemplo, no segundo turno das eleições presidenciais a disputa seja entre Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT)? De um lado, pouparia, em parte, as reservas cambiais. Mas, de outro, o BC entraria de vez no fogo cruzado da campanha eleitoral.

COLUNISTA DO BROADCAST

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