No meio do Copom, tinha um tomate

Análise: Fábio Alves

O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2013 | 02h08

A semana da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) começou com uma migração em massa das apostas de analistas, o que já havia acontecido com os investidores no mercado futuro de juros na sexta-feira, para uma elevação da taxa Selic amanhã. As apostas para maio como início do aperto monetário foram abandonadas por quase todos depois de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, terem feito declarações indicando que a alta de juros seria mais cedo do que tarde, como o mercado antes entendia a sinalização.

Ou como disse a Votorantim Corretora em nota aos clientes: a "rápida e pouco convencional" mudança na comunicação da política monetária. De fato, a repentina guinada na comunicação deixou o mercado se perguntando: o que havia mudado no pensamento do governo da noite para o dia para a mudança de postura das autoridades econômicas, antecipando quase em cima dos 45 minutos do segundo tempo o início do aperto monetário?

O estigma do tomate, dizem interlocutores do mercado financeiro. Para algumas fontes, Dilma Rousseff não queria ter sua imagem colada ao epíteto "presidente do tomate", pondo abaixo o seu esforço para ser conhecida como "a presidente dos juros baixos". Segundo um economista de um banco estrangeiro, ela certamente ficou preocupada quando a apresentadora da TV Globo Ana Maria Braga passou boa parte de seu programa de quarta-feira com um colar de tomates, referindo-se ao vilão da forte aceleração recente da inflação.

Um renomado executivo financeiro ressalta que a presidente deve ter tomado conhecimento que as duas principais revistas semanais iriam estampar nas suas capas o problema da inflação, personificado no tomate. A revista Veja, por exemplo, saiu com o título "Dilma pisou no tomate". Já a revista Época veio com a manchete "A ameaça da inflação" sobreposta à foto de um tomate. Outros programas jornalísticos na TV e no rádio passaram a repercutir insistentemente a crise do tomate. Essa onda, portanto, ameaçava tornar-se um tsunami, e a presidente provavelmente antecipou um grande problema político à sua frente - um prato cheio para seus adversários rumo às eleições presidenciais de 2014.

Na quinta-feira, o pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB, o senador Aécio Neves (MG) acusou o governo de "ser leniente" com a inflação e estar, com isso, prejudicando o povo brasileiro, relatou o jornalista João Domingos, do Estado. Segundo Aécio, o governo está fora da realidade. Aécio disse que a inflação está aumentando e ameaçando os ganhos e as conquistas do povo brasileiro e o governo não faz nada porque vive "num Brasil virtual".

No Índice de Preços ao Consumidor (IPC), medido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) de março, por exemplo, o tomate subiu 18,25%, praticamente o dobro da alta de fevereiro, de 9,25%. No acumulado do primeiro trimestre, o tomate apresentou alta de 70,9% no IPC-Fipe. Nos últimos 12 meses encerrados em março, o tomate ficou 104,11% mais caro. Em março, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a referência do regime de metas de inflação, superou o teto da meta, acumulando 6,59% em 12 meses.

O fato é que o trauma da hiperinflação ainda não está morto e enterrado na memória do brasileiro. E, na avaliação do executivo financeiro já citado, a presidente calculou mal o trade-off mais inflação para maior taxa de crescimento econômico. E esse choque de realidade veio mais rápido do que se pensava, pois a impressão era de que a presidente hesitava em elevar juros para combater a inflação e ancorar as expectativas - depois de tê-los baixados para o mínimo histórico de 7,25% -, embora tivesse a consciência da necessidade de fazê-lo. Tanto que o discurso de Tombini repetia exaustivamente a palavra "cautela" para caracterizar a condução da política monetária. Daí muitos analistas e investidores terem mantido por muito tempo a aposta para maio do início do aperto monetário.

Ou, parafraseando Carlos Drummond de Andrade: no meio do Copom, tinha um tomate.

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