Yuya Shino/Reuters
Yuya Shino/Reuters

No mundo do juro negativo, é preciso pagar para poupar

Quanto mais tempo as economias ficarem em um banco que trabalhe com juros negativos, menos o poupador terá na conta

Jeff Sommer, THE NEW YORK TIMES

10 de março de 2016 | 05h00

 Aí vai uma proposta: você me entrega seu dinheiro, eu pego uma parte para mim, fico com ele por um tempo e devolvo o que sobrou em um ano ou dois. Até poucos anos, esse era o tipo de oferta que um gângster faria. No mundo que conhecemos, se você empresta dinheiro a alguém, espera receber algo – juros, tipicamente – em troca.

Mas surgiu alguma coisa radicalmente diferente. Chama-se juros negativos – e é uma inversão da tradicional relação entre quem empresta e quem toma emprestado. “Está tudo de cabeça para baixo”, diz Kathy A. Jones, estrategista-chefe de renda fixa do Charles Schwab. “Juro negativo é algo difícil até de pensar. Todo nosso sistema financeiro foi construído no sentido oposto, em juros positivos. Isso é de enlouquecer.”

Os juros negativos vêm se espalhando através de importantes setores das altas finanças da Europa e da Ásia. Não são oferecidos de maneira sistemática a investidores individuais, até onde se sabe. A Bloomberg apurou no mês passado que mais de US$ 1,1 trilhão em títulos alemães e cerca de US$ 4,5 trilhões em débitos do governo japonês tiveram juros negativos, e mais de US$ 7 trilhões em títulos no geral tiveram rendimento negativo. Bancos centrais, que ajudaram na engenharia de juros negativos, estão comprando eles próprios alguns desses títulos, mas investidores privados vêm fazendo o mesmo, aceitando prováveis perdas.

Estratégia. Bancos centrais têm operado com o negativo para estimular suas economias regionais relativamente fracas e elevar as taxas de inflação, que estão perigosamente baixas. Eles esperam que juros negativos tragam esses resultados de três modos. Primeiro, os bancos centrais querem bancos comerciais emprestando mais dinheiro a juros muito baixos. Segundo, querem que clientes de bancos comerciais tomem mais dinheiro emprestado, gastem mais e poupem menos. A terceira razão, raramente os banqueiros de bancos centrais anunciam em público: juros negativos tendem a baixar o valor de uma moeda, barateando as exportações de um país e tornando-as mais competitivas nos mercados globais

Isso pode ser muito bom para um país isolado, mas quando muitos deles o fazem e começa uma guerra monetária, há o perigo real de um choque econômico descontrolado e concomitante sofrimento em todo o mundo. Impedir tal guerra estava na agenda do grupo de 20 ministros de Finanças e diretores de bancos centrais reunidos em Xangai há duas semanas, mas nenhum acordo significante foi alcançado. O dólar provavelmente continuará se fortalecendo e a possibilidade de futuro conflito sobre juros e cotação de moedas é um risco para pessoas que não estão diretamente expostas a juros negativos.

Nos Estados Unidos, funcionários do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) disseram que poderão usar juros negativos numa futura crise, mas não esperam adotá-los no curto prazo. Entretanto, mercados globais estão estreitamente ligados e juros negativos na Europa e na Ásia já influenciam o mercado financeiro americano, com isso afetando a vida de pessoas comuns.

Os efeitos têm sido mistos: juros negativos em débitos estrangeiros vêm ajudando a manter uma grande gama de juros nos Estados Unidos inusualmente baixos, o que é bom para quem toma emprestado e ruim para quem empresta, incluindo grandes bancos, cujas margens de lucro estão sendo comprimidas. Para pessoas idosas que vivem de investimentos em títulos, taxas baixas resultam em pouco rendimento e escolhas dolorosas.

As condições inusuais definidas pelos juros negativos também complicam as coisas para o Federal Reserve, que começou a elevar as taxas de curto prazo nos Estados Unidos apenas para ver as de longo prazo declinarem. Esse desdobramento inesperado ocorre em parte porque taxas abaixo de zero nos mercados de ações europeus e japoneses criaram maior demanda por títulos americanos, elevando seus preços e baixando o retorno, que caminha na direção oposta.

Funcionamento. Juros negativos não foram comuns por muito tempo e suas consequências ainda não são totalmente compreendidas. Todavia, conhecer o básico de como eles funcionam e como podem estar afetando os Estados Unidos é importante para qualquer um que tenha dinheiro no mercado.

Considere que, se você depositar suas economias num banco que trabalhe com juros negativos, quanto mais tempo ele ficar com seu dinheiro, menos você terá na conta. O lado oposto disso é que, quanto mais tempo você levar para pagar uma hipoteca com juros negativos, menos estará devendo, mesmo que não pague nada. Em suma, juros negativos fazem parecer loucura poupar dinheiro, enquanto tomar emprestado vira um atrativo. Os bancos europeus geralmente não passam deliberadamente juros negativos a clientes individuais, mas as hipotecas com juros negativos beneficiaram temporariamente na Dinamarca alguns felizes devedores que tinham hipotecas com juros ajustáveis.

Os juros negativos apareceram durante a crise financeira de 2008, quando o retorno de alguns títulos do Tesouro americano ficou abaixo de zero por um breve período. Isso ocorreu porque muita gente em pânico quis comprar títulos do Tesouro, fazendo seu preço subir e seu rendimento cair em território negativo. Em essência, investidores estavam dispostos a perder um pouco do capital em troca de segurança. Esses juros negativos eram um sinal de que o mundo financeiro estava com problemas.

Hoje, taxas negativas não são uma anomalia do mercado de curto prazo. Ao contrário, bancos centrais da Europa e da Ásia fizeram dos juros negativos parte de seu arsenal de ferramentas oficial. O Banco Central Europeu; os bancos centrais da Suíça, Suécia e Dinamarca; e, no mês passado, o Banco Central do Japão, todos, deliberadamente, puseram pelo menos alguns juros de curto prazo abaixo de zero – prejudicando efetivamente bancos comerciais por depositarem neles e dando forte incentivo à fuga de dinheiro.

Investidores americanos conservadores, avessos a riscos, estão numa posição incômoda. Enquanto os juros de títulos de grandes países como Alemanha e Japão ficarem negativos, será difícil que o retorno de títulos americanos suba muito. Os investimentos mais seguros, como os de dez anos do Tesouro, estão pagando retornos extraordinariamente baixos – só 1,9%. Títulos de risco, com retorno mais alto, não são seguros quando a economia está sob estresse. Kathy A. Jones, do Schwab, diz: “Estamos aconselhando os clientes a um meio-termo – títulos corporativos com grau de investimento. Eles proporcionam uma segurança módica e juros um pouco melhores que os títulos do governo.”

Não é uma situação feliz. Em alguns aspectos, é um mundo de cabeça para baixo. Às vezes, o melhor que você faz é segurar seu dinheiro. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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