No país das maravilhas

Estamos diante da transição para uma sociedade mais consciente de suas mazelas

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2017 | 05h00

Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, trata da inevitável e trágica perda da inocência infantil. As mudanças físicas e o desconforto que sente por nunca ter o tamanho certo infligem em Alice frustração, tristeza e sofrimento na súbita transição decorrente da perda da infância. Enigmas que parecem não ter soluções claras frustram as expectativas de desvendar o país das maravilhas. Carroll faz, ao fim e ao cabo, uma narrativa ampla sobre como a vida frustra as expectativas e resiste à interpretação, até quando os problemas parecem óbvios e solucionáveis.

Pode-se dizer que se trata de uma obra de difícil interpretação, pois na verdade contém duas linguagens, uma para crianças e outra para adultos. Na linguagem simbólica do país das maravilhas, o jardim é um espaço idílico de beleza e inocência, um Éden. Alice não tem permissão para acessá-lo, mas tem o desejo de dirigir sua energia e emoção para tentar alcançá-lo. São os sentimentos de inocência infantil que ela deve abandonar à medida que amadurece.

Não seria uma metáfora despropositada dizer que o Brasil, assim como Alice, caiu na toca do coelho. Brasileiros se veem transportados para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e assustadoras, revelando absurdos de difícil assimilação. De repente, estamos diante de uma miríade de fatos angustiantes e constatações repulsivas sobre corrupção e desvio de dinheiro público oriundo dos impostos que pagamos com o nosso trabalho. Isso nos deixa mais conscientes de que não temos retribuição dos serviços públicos com o mínimo de qualidade e decência de um Estado anacrônico, voraz, corrupto e ineficiente. Estamos, assim, diante da difícil transição para uma sociedade mais amadurecida e consciente de suas mazelas.

Descobrimos que o Estado poderoso e absolutista que idealizamos não nos levará para o sonhado Éden. A realidade é que o Estado brasileiro extemporâneo e combalido perdeu as condições de atender às demandas básicas da sociedade. É hora, portanto, de refletirmos com objetividade. O longo reinado de voluntarismo do Rei de Paus e da Rainha de Copas levou o País a esta situação em que está simplesmente quebrado. O doloroso encolhimento do emprego, do tamanho do PIB e da renda per capita, o sucateamento das infraestruturas e a perda de vitalidade da indústria são perceptíveis e nos provocam a angustiante sensação de encolhimento vivida por Alice. Na verdade, deveriam provocar, agora, um debate sério e amadurecido, e não os desvarios e enigmas de um chá de loucos.

É preciso ter consciência de que viabilizar a PEC do Teto dos Gastos e a reforma da Previdência é precondição para sairmos da mais profunda recessão da nossa história. Sem isso, além de nós, os desvarios de agora penalizarão nossos filhos e netos. É preciso, também, enfrentar os escandalosos privilégios das castas superiores do funcionalismo público, do Judiciário e do Legislativo. Se o Brasil se pretende de fato uma República, a sociedade não pode conviver com as diferenças absurdas de aposentadorias entre a “nobreza” detentora de privilégios e a ampla maioria da “plebe ignara” que tem de sobreviver com a aposentadoria do INSS.

Entre 2000 e 2016, as despesas públicas tiveram crescimento real de 6% ao ano (bem acima do PIB) e de três vezes acima da arrecadação. Sabemos por que: gastos desnecessários, prioridades equivocadas e corrupção generalizada. Tudo isso pago com aumento de impostos, juros elevados para segurar a dívida e inflação, em nome dos velhos tempos dos milagres desenvolvimentistas.

Com o ambiente contaminado pela degradação da representação política, os salvadores, demiurgos e picaretas de sempre surgem para embaralhar e tirar qualquer lógica dos debates. É a nossa versão do mad tea-party de Alice. Monteiro Lobato, que também escrevia para crianças e adultos, diria que apelam ao pó de pirlimpimpim para vender a ilusão de um Estado que, capturado por agentes públicos e empresários amigos, pode gastar de forma delirante e sem controle.

*Economista, consultor de entidades públicas e privadas, é coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo

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