Lucas Albuquerque/Estadão
Mudança. Lucas Albuquerque, 27 anos, vive na Polônia há 2 anos Lucas Albuquerque/Estadão

No radar de empresas estrangeiras, profissionais de tecnologia deixam o País

Em falta tanto no Brasil como no exterior, trabalhadores da área de Tecnologia da Informação (TI) têm sido recrutados, principalmente, por empresas na Europa

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2019 | 04h00

Cinco convites para processos seletivos, por semana, costumam chegar pelo LinkedIn para o engenheiro de software Lucas Albuquerque, de 27 anos. São, em sua maioria, enviados por empresas europeias de Tecnologia da Informação (TI), que, assim como as brasileiras, sofrem com a falta de mão de obra. Diante da baixa oferta de trabalhadores qualificados na área, países como Alemanha, Suécia e Polônia têm aberto suas portas para brasileiros, e as companhias, bancado passagens e moradia para a família dos trabalhadores nos primeiros meses após a mudança.

Vivendo com a mulher na Polônia há dois anos, Albuquerque já comprou apartamento, viu seu filho nascer em um hospital onde as enfermeiras não falavam inglês – nem ele polonês – e mudou de emprego. “Nunca tinha pensado na Polônia, mas a empresa me encontrou (pela internet) e aí descobri que, enquanto a Alemanha concentra mais startups, a Polônia tem empresas mais robustas, o que deu segurança para eu mudar.” 

Albuquerque já chegou a trabalhar ao lado de outros dois brasileiros em uma equipe de apenas dez profissionais. “Quando cheguei aqui, tinha como saber quem eram quase todos os brasileiros. Agora, não dá mais. O grupo no WhatsApp de brasileiros de TI em Cracóvia tem 207 pessoas.”

Os altos índices de violência, a falta de serviços públicos de qualidade e a dificuldade para desenvolver tecnologias de ponta estão entre os fatores que têm levado os brasileiros de TI a deixar o País. Como consequência, está o aumento da distância entre o Brasil e os países mais avançados. 

Na Suécia, por exemplo, o número de vistos concedidos para brasileiros trabalharem na área passou de 15 em 2014 para 126 no acumulado deste ano. Do total dos novos vistos em 2014, 19% eram para profissionais de TI. Hoje, esse número chega a 36%.

Um dos destinos mais procurados, a Alemanha deu 2.851 vistos de trabalho para brasileiros no ano passado – em 2014 foram 904. A embaixada alemã no Brasil não segmenta esse dado por área, mas calcula que, em 2018, 1,5 mil brasileiros trabalhavam com ciência e tecnologia no país.

“Falta talento na área. E o talento brasileiro que vem para a Europa costuma ser mais sênior”, diz o português Pedro Oliveira, cofundador do Landing.jobs, um site que conecta empregadores da Europa e trabalhadores de tecnologia. Na plataforma, brasileiros são o segundo maior grupo de usuários, com 15% do total, atrás apenas dos portugueses, com 30%.

“Como esse é um momento de expansão do mercado, grande parte das empresas nunca para de contratar. As que têm estrutura para trazer pessoas de fora optam por esse caminho”, diz o engenheiro de software Felipe Ribeiro Barbosa, de 34 anos.

Após sete anos na Suécia, Barbosa está agora nos Estados Unidos, trabalhando na Netflix. Na Suécia, ele chegou em 2012 e era o único brasileiro na companhia em que trabalhava. “Depois, em 2015, durante a crise no Brasil, foi impressionante a chegada de brasileiros. A empresa contratou até uma recrutadora brasileira.” Em 2018, quando Barbosa deixou Estocolmo, já havia 30 brasileiros na empresa. 

Segundo pesquisa do Boston Consulting Group (BCG), os EUA são o destino preferido dos brasileiros de TI. De 131 profissionais ouvidos pela consultoria aqui, 63% afirmaram estar dispostos a se mudar para o país. Canadá, Portugal e Alemanha aparecem em seguida. 

Os países europeus, porém, acabam ganhando dos EUA por facilitarem a permanência de estrangeiros. É comum, por exemplo, que o cônjuge do profissional contratado também consiga visto de trabalho – o que dificilmente ocorre nos EUA.

Na Europa, a maioria dos países também não exige que o trabalhador tenha concluído o ensino superior. É o caso de Daniel Rodrigues da Costa Filho, de 37 anos – 23 deles como programador. Ele chegou a cursar Ciências da Computação, mas largou, o que não o prejudicou no processo de seleção. Apenas quando solicitou o visto no consulado alemão, precisou comprovar que tinha experiência na área.

O paulista trabalha em uma startup, mas já passou pelo N26, um dos maiores bancos digitais da Europa. “Trocar de emprego é simples aqui. A procura (por parte das empresas) é grande e, com o Brexit, tem muita empresa vindo para Berlim.”

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Salário não é o maior atrativo para profissionais

Fator é o 8º na lista dos trabalhadores de TI na hora de escolher emprego, diz pesquisa

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2019 | 04h00

Salário mais alto em uma moeda mais forte não costuma ser o principal atrativo da Europa para brasileiros da área de Tecnologia da Informação (TI). Há alguns casos em que o poder aquisitivo do trabalhador até diminui após a mudança, o que é compensado pela possibilidade de estar em um grande centro de inovação e, ali, se desenvolver profissionalmente.

Pesquisa da consultoria Boston Consulting Group (BCG), feita em parceria com a empresa de soluções para recrutamento The Network, mostra que, para os brasileiros de TI, o fator mais valorizado na hora de escolher um emprego é o desenvolvimento da carreira. O salário aparece na oitava posição na lista de prioridades dos brasileiros. Na média global, está em quinto lugar.

O paulista Daniel Rodrigues da Costa Filho, de 37 anos, tinha vontade de mudar para a Europa desde 2010. “Queria participar do desenvolvimento da tecnologia”, diz. Há três anos, trocou São Paulo por Berlim, mesmo perdendo poder aquisitivo. “Minha impressão era de que, na minha área, tudo acontecia fora do Brasil.”

Na Noruega há pouco mais de um ano e após sete anos na Suécia, a engenheira Andressa Kalil, de 37 anos, destaca itens como segurança, bons serviços públicos e oportunidades de trabalho como fatores preponderantes que a levaram para a Europa. “As empresas que lideram na área de TI estão fora (do País), e é nelas em que se tem mais possibilidades para aprender. O Brasil corre muito atrás do que já está desenvolvido.”

A cearense Josiane Ferreira, que está há quatro anos em Estocolmo, lembra ainda que, na Suécia, há uma grande preocupação com a igualdade de gênero. “No Brasil, quando se trabalha com TI, é comum ser a única mulher na equipe. Aqui, a questão de gênero é uma das prioridades das empresas.”

Acima da média

O levantamento do BCG indica ainda que 87% dos brasileiros de TI estão dispostos a mudar de país para trabalhar. O número é maior que o registrado entre brasileiros de outras áreas (73%) e da média global de trabalhadores de TI (67%).

Diante dessa predisposição dos trabalhadores para deixar o Brasil, as empresas brasileiras precisam fidelizar seus funcionários, oferecendo treinamentos e ensinando a cultura da companhia, diz Luiz Comazzetto, vice-presidente e sócio da consultoria de recrutamento Fesa. “Se você não cuidar do funcionário como um craque, ele te larga no primeiro momento.”

As empresas precisam também se adaptar ao modo de remunerar e de garantir qualidade de vida aos empregados, ainda segundo o consultor. Liberar os funcionários para trabalharem de casa, com flexibilidade de horário, é essencial, diz. Contratar os trabalhadores por projetos, permitindo que atuem para mais de uma empresa, também é uma possibilidade. “Hoje, o pessoal de TI escolhe onde vai trabalhar. A única forma de segurar essa galera é se aproximar do que as empresas de fora oferecem”, acrescenta.

Segundo Comazzetto, há polos no Brasil em que as empresas estão mais avançadas nessa transformação, como Recife, Florianópolis, Campinas (SP) e Pelotas (RS). “Nesses locais, as companhias já entenderam as mudanças. Você pega um trabalhador do Recife, que vai para a praia antes de trabalhar e tem boa qualidade de vida, dificilmente ele vai querer sair de lá.”

O professor de Liderança e Pessoas da Fundação Dom Cabral, Paulo Almeida, destaca que, apesar das dificuldades atuais, o profissional de TI deve estar atento ao potencial de crescimento de mercado do Brasil. “Na Europa, as carreiras costumam ser mais estagnadas. O Brasil é um país continental, com muito potencial.”

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‘A distância entre nós e os países avançados será ampliada’ 

Para tentar reverter essa tendência, segundo Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação da USP, é preciso ampliar o centro motor das inovações, modificar estrutura de salário e ambiente das empresas, além de reorganizar o ensino brasileiro

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2019 | 04h00

O fato de a já escassa e disputada mão de obra brasileira da área de tecnologia estar deixando o Brasil deve resultar em uma distância ainda maior entre a economia brasileira e as mais avançadas, segundo o professor Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação do Instituto de Estudos Avançados da USP. Para tentar reverter essa tendência, diz, é preciso ampliar o centro motor das inovações (“caso contrário, vai gerar uma desigualdade maior entre os países e dentro deles também”), modificar estrutura de salário e ambiente das empresas, além de reorganizar o ensino brasileiro. 

O êxodo de profissionais de TI deve ter quais impactos na economia brasileira?

A distância entre a economia brasileira e as mais avançadas do mundo já é muito grande. Se pegar a indústria, a distância na área de tecnologia é gigantesca. Estamos em um estágio incipiente. O impacto é que vamos ampliar ainda mais essa diferença. Esse é o grande problema da tecnologia atual: os grandes avanços não acontecem em todos os países e, mesmo nos países avançados, estão concentrados nas principais universidades e empresas. O centro motor dessas inovações tem de ser ampliado. Caso contrário, vai gerar uma desigualdade maior no mercado de trabalho, no sistema educacional e nos salários.

O que as empresas e o governo podem fazer para reter profissionais de TI?

Como esse movimento de digitalização é recente, parte das empresas não está preparada: não tem uma carreira montada e o profissional muitas vezes é submetido a chefias que não entendem o que ele propõe. Sem um ambiente empresarial adequado para abrigar os profissionais, a produtividade e o grau de inovação são baixos. Carreira significa uma remuneração progressiva e vinculada ao tipo de resultado que esse profissional dá. Salário, ambiente, estrutura de comando adequada, com gente qualificada, capaz de compreender o grau de sofisticação do que está sendo proposto. Grandes profissionais não saem necessariamente por salário. Saem porque têm desafios e estruturas diferentes. Os profissionais têm de ser desafiados permanentemente. Tem gente que chama isso de problema cultural das empresas brasileiras. A economia brasileira não inova muito. Tudo isso está ligado com o que o mercado se dispõe a pagar. Uma empresa só vai aumentar salários se precisar de profissionais com qualidade. Se a minha intenção é fazer algo superficial, numa escala de inovação de uma a dez, quero fazer algo dois, por que vou pagar esse profissional?

Como mudar isso? A economia tem de aumentar o nível de digitalização. Isso é lento e não é fácil.

O País tem preparado profissionais para isso? Um trabalho multidisciplinar é fundamental nessa área hoje. Ninguém faz um trabalho puramente de estatística, é preciso também fortalecer todas as áreas (de ensino). A CNI (Confederação Nacional da Indústria), com todos seus problemas, tem grupos de trabalho com escolas e com as principais universidades tratando das qualidades das engenharias. Claro que é mais difícil mudar aqui do que em países que já têm tradição em educação orientada. Aqui há uma resistência grande das nossas escolas, mas tem de mudar. As escolas vão formar cada vez mais gente que não vai encontrar onde trabalhar.

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Conheça histórias de profissionais de TI que trocaram o Brasil pela Europa e pelos EUA

Disputados pelo mercado, brasileiros da área de Tecnologia da Informação deixam o País para trabalhar em multinacionais e startups

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 08h41

Escassos e disputados pelo mercado, profissionais brasileiros da área de Tecnologia da Informação (TI) têm deixado o País e procurado trabalho na Europa, onde grandes multinacionais e pequenas startups tentam revolucionar a tecnologia. Reportagem do Estadão mostrou que, na Suécia, o número de vistos concedidos para brasileiros atuarem na área saltou de 15, em 2014, para 126 no acumulado deste ano.

Atraídos, principalmente, pela possibilidade de trabalhar em importantes polos de tecnologia e pela qualidade de vida, os profissionais recorrem às redes sociais para encontrar uma vaga. Por outro lado, lamentam a falta de oportunidades no País.  "O Brasil desenvolve engenheiros bons, mas não tem empresas de tecnologia de ponta. Para que haja (companhias que criam novas tecnologias), é preciso grandes investimentos", diz a engenheira Andressa Kalil, que está na Europa desde 2011. Confira a seguir, a história de alguns desses brasileiros.

'Foi coisa de dois ou três dias para receber contato de recrutador'

Quatro meses foi o tempo necessário para Derek Leite Sanders, de 28 anos, fazer o processo seletivo, se mudar e começar a trabalhar em uma empresa na Polônia. Recém-chegado em Cracóvia, o paulista vinha querendo deixar o Brasil há alguns anos. Sentia-se incomodado para criar um filho aqui. “Não me sentia seguro na rua e achava a educação precária, quando comparada com a de outros países”, diz ele, que moravam em Curitiba desde 2003.

Sanders experimentou morar no Canadá. Durante um ano, trabalhou na cozinha de restaurantes. Precisou voltar porque seu visto era temporário, mas planejava retornar ao Canadá quanto antes – se possível, trabalhando na área em que tem formação, de Sistemas de Informação. Decidiu, então, colocar em seu perfil no LinkedIn que estava disponível para trabalhos no Canadá, na Alemanha, na Inglaterra e na Polônia, onde um amigo estava trabalhando.

“Aí foi coisa de dois ou três dias para receber o contato de um recrutador perguntado se eu queria participar de um processo seletivo”, conta. Desse dia até 1.º de setembro, quando chegou em Cracóvia, foram apenas quatro meses. Nesse período, recebeu mensagem de outra empresa que procurava um profissional com seu perfil. Recusou o convite para a seleção, porque o processo na outra companhia já estava adiantado.

Sanders fez a todo o processo seletivo online. A empresa que o contratou pagou, depois, a passagem para se mudar e o primeiro mês de estadia. Sua mulher, que também atua na área de TI, chegou no começo de outubro e agora espera a documentação para poder trabalhar no país.

Nesses três primeiros meses de vida na Polônia, o saldo, até agora, é positivo, diz Sanders. “Aqui se parece muito com o Canadá. As pessoas são tranquilas. O transporte coletivo funciona. Só o trânsito é ruim. A partir das 15h, já tem engarrafamento.”

No Brasil, o profissional ganhava cerca de R$ 6 mil – “era bom para Curitiba, mas dificilmente eu teria um aumento”, diz. O salário agora é de 10 mil zlotych (quase R$ 11 mil), mas Sanders acredita ter mais chance de novos aumentos no futuro. “Dá para chegar pelo menos a 15 mil zlotych.”

'É relativamente fácil conseguir trabalho na área de TI aqui'

A cearense Josiane Ferreira, de 31 anos, já havia cogitado se mudar para a Europa para trabalhar, mas não estava procurando emprego, quando viu um anúncio do Facebook de uma empresa sueca que buscava desenvolvedores de aplicativos para iPhone.

“Eu não me sentia preparada para o processo seletivo, mas estava trabalhando em uma vaga muito semelhante no Recife para uma empresa com sede em Los Angeles. Achei que era meu perfil.”

Josiane se candidatou para a vaga. Fez quase todo o processo online, mas, para a última etapa, a companhia lhe enviou passagens para realizar as entrevistas em Estocolmo. Fez um bate e volta para a Europa, ficou apenas um dia lá, em que passou por quatro entrevistas. “Achei a cidade bonita, mas nem tive tempo de conhecer. Lembro que achei tudo limpo e organizado.”

O que realmente levou a engenheira de computação a se mudar para a Suécia, porém, não foi a organização do país, mas a possibilidade de atuar em uma grande empresa de tecnologia. “Pensei que isso me permitiria gerar um impacto relevante, porque são milhões de usuários.” O fato de a companhia ter políticas de igualdade de gênero também a agradou. “No Brasil, quando se trabalha com TI, é comum você ser a única mulher na equipe. Aqui, a questão de gênero é uma das prioridades da empresa.”

Com um filho de dois meses, a brasileira está de licença maternidade e vê nessa política mais uma vantagem de estar morando no exterior. Ela pretende ficar afastada do trabalho até abril, quando o marido deve tirar sua licença para cuidar da criança. “Aqui, podemos tirar, juntos, um ano e meio de licença, sendo que por 30 dias podíamos estar os dois afastados.”

Josiane já era casada quando se mudou, em 2015. O marido é programador e também conseguiu autorização para trabalhar em Estocolmo quando ela recebeu o visto. “Ele veio sem emprego e depois conseguiu aqui. É relativamente fácil conseguir trabalho na área de TI aqui”, diz ela, que conta que ainda recebe convites semanalmente para participar de novos processos seletivos. “Não respondo grande parte das mensagens.”

'O Brasil corre muito atrás do que já está desenvolvido'

A engenheira Andressa Kalil, de 37 anos, traçou um caminho diferente do da maioria dos brasileiros da área de Tecnologia da Informação que estão na Europa. Enquanto estudava Engenharia Eletrônica e da Computação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), começou a estagiar para uma empresa sueca ainda morando no Brasil. Depois de formada, foi transferida para Estocolmo – onde ficou sete anos – e, agora, está na Noruega, trabalhando em um startup.

Apesar de sentir falta da família, Andressa não vê oportunidades de trabalho interessantes o suficiente para voltar ao Brasil. “Em termos profissionais, não tenho muita vontade de estar no Brasil. As empresas que lideram na área de TI estão fora do País, e é nelas que se tem mais possibilidades para aprender. O Brasil corre muito atrás do que já está desenvolvido.”

A fluminense destaca que o País tem perdido excelentes profissionais por não criar as oportunidades para retê-los. “O Brasil desenvolve engenheiros bons, mas não tem empresas de tecnologia de ponta. Para que haja (companhias que criam novas tecnologias), é preciso grandes investimentos. Como não tem, todo mundo sai (do País).”

Além da oferecer a oportunidade de trabalhar em grandes empresas da área de tecnologia – “o que calibra o currículo” –, os países europeus garantem uma vida mais confortável para o trabalhador, diz Andressa. “Não é que aqui não tenha violência, mas posso pegar um ônibus às 2h sem sentir aquela angústia.”

'Minha percepção era que todo desenvolvimento tecnológico acontecia fora do País'

A falta de um diploma de ensino superior não prejudicou os planos de trabalhar na Alemanha do paulista Daniel Rodrigues da Costa Filho. Em geral, os países europeus pedem apenas uma comprovação de experiência na área de tecnologia para conceder o visto de trabalho. Em 2016, Costa Filho, de 37 anos, provou sua experiência de 23 anos como programador com artigos publicados sobre o assunto e antigos vínculos trabalhistas.

“Desde 2010, queria sair do Brasil. Minha percepção era que tudo acontecia fora do País – na Ásia, na Europa ou no Vale do Silício. Queria participar do desenvolvimento de tecnologia.”

Costa Filho conta que, enquanto sua qualidade de vida aumentou desde que se mudou, seu poder aquisitivo diminuiu. “Mas não vim por causa de salário. Queria trabalhar em um polo tecnológico e, aqui, a qualidade de vida é altíssima. Entro no metrô e caminho de madrugada sem nenhum risco.”

O paulista procurou trabalho em um site de Berlim que lista vagas em startups. Se interessou por postos em oito empresas que haviam anunciado ali e conversou sobre um assunto com um amigo que já estava na Alemanha. Esse colega conhecia um funcionário de uma das startups, que reforçou a candidatura de Costa Filho.

Desde que chegou em Berlim, ele já passou por três empresas – duas startups e uma fintech. A permanência do brasileiro na Alemanha, no entanto, depende de um vínculo empregatício. Assim, ele só pode pedir demissão de uma empresa depois de já ter fechado contrato com outro. “Mas trocar de emprego aqui é muito simples. A procura (por profissionais) é grande.”

'Acho que não teria no Brasil as oportunidades que tenho nos Estados Unidos'

Faltavam dois meses para se formar em Ciências da Computação na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), quando Felipe Ribeiro Barbosa foi contatado por uma empresa espanhola para participar de um processo seletivo. Barbosa sempre participara de debates sobre softwares na internet, o que chamou a atenção da recrutadora.

O processo seletivo começou com uma entrevista conduzida pelo departamento de recursos humanos da empresa e seguiu com um pedido para que ele resolvesse um exercício técnico. Em seguida, viajou para conhecer o escritório da companhia – a rede social Tuenti – em Madri. Durante a visita à sede da empresa, fez mais uma entrevista. “Uma semana depois, recebi a oferta de trabalho.”

Barbosa se mudou, em 2010, interessado na oportunidade de conhecer outro país. O salário, à época, não era um grande atrativo. “Os salários no sul da Europa são similares aos que se tem em São Paulo, mas a qualidade de vida é melhor.”

Dois anos depois de começar a trabalhar em Madri, o profissional se candidatou a uma vaga no Spotify, na Suécia. A seleção foi semelhante à que havia feito para o Tuenti, com a exceção de não haver nenhuma entrevista presencial. Pouco depois, Barbosa se mudava para Estocolmo, onde ficou pelos sete anos seguintes.

Desde o fim de 2018, o paraibano está nos Estados Unidos, onde trabalha para a Netflix como engenheiro de software. “Nunca pensei em voltar (para o Brasil). Fico bastante triste em dizer isso, mas acho que não teria aí as oportunidades que tenho aqui. Seria difícil conseguir trabalhar em uma empresa que pode gerar um impacto tão grande para tantas pessoas”, diz ele, hoje com 34 anos.

'A empresa pagou o visto, a passagem e as primeiras semanas de hospedagem'

Um intercâmbio feito na Espanha quando era estudante de Ciências da Computação na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) acendeu a vontade de morar no exterior em Lucas Albuquerque. “Foi um choque de realidade, principalmente em relação à segurança e à qualidade de vida.” Após se formar, porém, a oportunidade de trabalho que apareceu foi em uma multinacional que tinha escritório em Porto Alegre.

Morando já bastante longe de casa e insatisfeito com o estilo de vida – “tive o carro arrombado várias vezes” -, o paraibano decidiu apostar na Europa. Atualizou seu currículo em redes sociais de trabalho, onde mostrou interesse por vagas na Alemanha e na Espanha. Uma recrutadora da Polônia, no entanto, foi a primeira a localizá-lo e, após dois meses de processo seletivo, o engenheiro se mudou para Cracóvia.

“Eles (a empresa) pagaram visto, toda documentação, passagem e primeiras semanas de hospedagem”, conta ele, que nunca havia pensado em morar na Polônia. “O que me surpreendeu é que o país é um dos que mais está crescendo na União Europeia. Como a mão de obra é mais barata aqui, muita empresa vem para cá.”

Em dois anos e meio em Cracóvia, Albuquerque já comprou um apartamento, teve um filho e mudou de emprego para gastar menos tempo no deslocamento até o escritório. Brasileira, sua esposa também têm direito a trabalhar na Polônia. “A vida aqui é muito boa. O lado negativo é o frio e se adaptar à alimentação, mas o país é seguro. Tudo é limpo e organizado. ”

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Estônia é novo destino de profissionais brasileiros de TI

O país, com apenas 1,3 milhão de habitantes e inverno rigoroso, tem hoje uma comunidade de 250 brasileiros

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 09h00

Com investimento massivo em educação e um projeto ambicioso de desburocratização do Estado, a Estônia, um pequeno país localizado no leste europeu, vai se transformando em um destino emergente de empresas de tecnologia e atrai gente de todo o mundo, inclusive do Brasil. O país, com apenas 1,3 milhão de habitantes e inverno rigoso (a temperatura pode chegar a 17 graus negativos entre dezembro e fevereiro) tem hoje uma comunidade de 250 brasileiros. São quase todos profissionais da área de tecnologia, que migram pensando em abrir uma empresa ou  integrar a equipe de uma das 615 startups locais.

"As empresas no Brasil não passam a segurança que elas nos passam aqui", diz a brasileira Natália Adorno, que trabalha na sede do Transferwise, um dos quatro unicórnios (como são chamadas as empresas com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão) locais. Além da Transferwise, a Estônia também foi o berço do Skype, comprado em 2011 pela Microsoft, mas que ainda opera com sede em Talim, capital estoniana; da Bolt, concorrente do Uber na Europa; e da Playtech, de jogos online.

"Apesar do clima, as empresas são ótimas. Estamos perto de cidades como Helsinque, na Finlândia, e de Estocolmo, na Suécia", conta Paulo Correia, que trabalha com redes sociais. "O país é bastante calmo, mas o mais importante é que é barato. A gente não gasta com quase nada aqui", destaca o designer mineiro Guilherme Costa. "Quem tem registro como morador não paga para usar o tranporte público, tem sistema de saúde público de primeira qualidade grátis e o governo subsidia parte do preço dos medicamentos. É basicamente trabalhar, comer, viajar e guardar dinheiro", diz Costa, que se mudou para Talim em 2018, depois de se candidatar  a uma vaga na área de TI pelo Linkedin. "Eu não sabia onde ficava a Estônia e nunca tinha ouvido falar na cidade de Talim", diz. "É engraçado e curioso estar aqui."

Localizada em uma região estratégica, de frente para o mar báltico, a Estônia tinha uma economia típica de emergente do leste europeu até dez anos atrás. A situação começou a mudar quando o governo colocou em prática um plano para atrair empresas de fora. Aos poucos, foi reduzindo impostos e a burocracia para abertura de empresas. Há cinco anos, o governo radicalizou: decidiu se tranformar numa espécie de laboratório de digitalização. Passou a aceitar que pessoas do mundo todo pudessem aderir ao programa de cidadão digital - que dá direito a abrir uma empresa, assinar documentos oficiais e pagar impostos na Estônia.

"O programa de cidadão digital aumentou o interesse do mundo todo na Estônia e passamos a atrair empresas, que percebiam a facilidade de fazer negócios aqui", conta Allan Dobros, gerente de negócios do governo da Estônia. "Na China, muita gente entra nesse programa só para ter um documento com foto em inglês e mostrar para o outros", diz Daniel Quin, da unicórnio chinesa WeCash.

Para o paulistano Edilson Osorio, que é cientista de computação, o programa de cidadão digital permitiu transferir parte de sua empresa de segurança de informação do bairro de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, para o bairro de Telliskivi, em Talim. "Eu tinha dificuldade com a legislação brasileira para o desenvolvimento do meu negócio. Consultei um advogado e ele falou que, no Brasil, a gente não iria conseguir dinheiro para crescer e provavelmente teria de fechar a empresa. Fizemos alguns estudos e a Estônia apareceu como o melhor lugar", conta.

Ele diz que montou a empresa em um dia. "Foi tudo rápido. Antes de vir para cá eu tinha saído do Brasil duas vezes, para uma palestra na Argentina e para lançar um aplicativo nos Estados Unidos. Foi a primeira vez na minha vida que vi neve. Só ficava caindo na rua, nada é apropriado para a neve."

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