Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

No radar de investidores, o setor do luto

Pedido de IPO de grupo de cemitérios colocou em evidência um mercado que fatura R$ 3 bi no País; covid também reforçou segmento

Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2020 | 05h00

O pedido de abertura de capital no mês passado do grupo gaúcho Cortel, de cemitérios, colocou em evidência um mercado com pouca visibilidade no Brasil, mas que fatura R$ 3 bilhões por ano. Conhecido como “death care”, ou assistência à morte, o segmento reúne serviços de funerárias, cemitérios, crematórios e planos funeral, uma espécie de seguro em que a pessoa paga em vida os custos para seu óbito – uma das frentes que mais vêm crescendo no mercado desde o início da pandemia. 

Diante dos quase 1,7 milhão de óbitos no planeta, mais de 180 mil deles no Brasil, a covid-19 obrigou o mundo todo a falar mais sobre a morte e também jogou luz no trabalho das startups do setor, as chamadas “death techs”.

Dono de dez cemitérios e com faturamento anual de R$ 89 milhões, o Grupo Cortel espera levantar R$ 400 milhões na sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), prevista para 2021, apurou o Estadão. A empresa quer usar o dinheiro para sair em busca de ativos e cumprir um papel de consolidadora do mercado. 

Investidores, entre eles fundos de private equity (que compram participação em companhias), estão mapeando o segmento, que no Brasil conta com mais de cinco mil funerárias, 750 cemitérios, 147 crematórios e 250 empresas de plano funeral – de acordo com pesquisa que acaba de ser feita pela consultoria RGF, que considera apenas os ativos da iniciativa privada. A maior parte das empresas tem perfil familiar.

Diante do aquecimento do setor, e depois de quase duas décadas administrando um cemitério, a executiva Gisela Adissi resolveu abrir uma consultoria dedicada ao mercado do luto, a Flow Death Care. Além de assessorar operações de fusões e aquisições (M&A, do inglês), a empresa planeja fomentar as startups do segmento. “Os fundos ainda não estavam com os olhos tão abertos para o mercado de death care. Agora isso mudou”, comenta Gisela.

Compra

Neste ano, o segmento de assistência à morte acompanhou ainda a maior operação de aquisição já feita no setor: o fundo Crescera (ex-Bozano) fez um aporte de R$ 150 milhões (podendo subir para R$ 350 milhões) no Grupo Zelo, uma das maiores empresas de cemitério do Brasil.

De acordo com presidente do Grupo Zelo, Lucas Provenza, os primeiros aportes vieram logo após à fusão, no modelo de investimento chamado de “family and friends” (família e amigos). Até o ano passado, esse grupo, que segue como sócio, já tinha aportado R$ 130 milhões.

Com esses recursos e com a entrada do Crescera, o Grupo Zelo já colocou embaixo do seu guarda-chuva cerca de 40 empresas do setor. O foco da companhia é o plano funeral. “É um produto que dá previsibilidade ao negócio, já que há recorrência de receitas”, explica o executivo. 

Embora o Cortel deva marcar a entrada do segmento na B3, já existe hoje no mercado opção de investimento no setor acessível às pessoas físicas. A gestora Zion tem na sua prateleira o fundo Brazilian Graveyard, que investe em seis ativos, entre eles, o próprio Grupo Cortel. “Em reuniões com leigos nesse setor, me perguntam se, ao se comprar uma cota do fundo, haverá, no futuro, incluído, um jazigo”, conta o sócio da Zion, João Santiago, explicitando a falta informação sobre o mercado.

Diversificação

À frente de dois cemitérios – o Terra Santa (MG) e o Vale do Cerrado (GO) –, Guilherme Santana, engenheiro civil que está nesse mercado há 18 anos, diz que o setor, assim como outros da economia, se movimenta com frequência para diversificar sua base de receitas, algo importante para qualquer companhia que queira manter o negócio mais firme diante de qualquer flutuação econômica. 

Foi assim que foi lançado um produto que é hoje uma grande aposta desse mercado, que é o de cremação de animais de estimação. “Também já começamos a observar jurisprudência para o sepultamento de humanos com seus pets”, conta. 

No mercado internacional, já começam a surgir cemitérios no oceano mar ou a possibilidade de compostagem humana – método de decomposição que transforma os restos mortais em adubo.

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