No reino das expectativas

A única certeza que se tem, às vésperas de mais uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), é a de que não há certeza alguma sobre a decisão que será anunciada na noite de amanhã. O lugar-comum da constatação coincide com o lugar-comum da situação: não é a primeira vez que ninguém se entende sobre o que o Banco Central deveria fazer, neste momento, com a taxa básica de juros (Selic).

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2013 | 02h09

Pitonisas de plantão se esfalfam no esforço de interpretação dos sinais emitidos pelas autoridades da área econômica - um grupo ao qual se agregou, em natural lugar de destaque, a própria presidente Dilma Rousseff. Curioso é que, embora a emissão desses sinais tenha apresentado uma alta de frequência incomum, a inédita desenvoltura dos discursos não facilitou em nada a solução da charada.

No boletim Focus, divulgado ontem, ao lado de um ligeiro recuo na projeção da inflação em 2013, aparece a indicação de que os analistas de mercado já incorporaram a perspectiva de um novo ciclo de altas na taxa básica de juros (Selic). A mediana das estimativas reunidas aponta para o início do aperto monetário em maio, com um primeiro repique de 0,5 ponto - acima do 0,25 ponto previsto na semana anterior -, seguido de três altas de 0,25 ponto, em julho, agosto e outubro, quando a taxa se estabilizaria em 8,5% até setembro de 2014.

A mediana das apostas do Focus, contudo, nem de longe reflete a dispersão de hipóteses com as quais o próprio mercado trabalha. Uma sequência de declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, consolidadas e detalhadas em entrevista ao Estado, publicada no domingo, e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, na sexta-feira, abriu espaços para uma crescente adesão de analistas à possibilidade de que o Copom mexa nos juros já a partir de quarta-feira.

Não foram, porém, novas informações sobre o comportamento da economia ou, especificamente, da trajetória da inflação que deram força à ideia de que o Copom não mais esperaria para agir. No reino contemporâneo das expectativas, no qual as políticas monetárias definem cada vez mais os destinos econômicos, os fatos, é claro, desempenham papel importante, mas nem sempre são decisivos. É nesse ambiente que a comunicação das autoridades com o mercado tem peso específico não desprezível.

O motivo da adesão crescente à expectativa de que o BC prepara uma ação imediata sobre os juros, por exemplo, se deve mais a uma expressão usada por Tombini do que a um eventual novo fato econômico. O presidente do BC afirmou, em declaração voluntária a jornalistas, que estava "monitorando atentamente" todos os indicadores. O que poderia ser considerada uma fala carregada de obviedades - afinal, o monitoramento atento dos indicadores é o mínimo que se espera da autoridade monetária - operou como a comunicação da chave do segredo. Analistas notaram que, nas últimas vezes que a expressão foi utilizada, o Banco Central mudou em seguida a trajetória dos juros.

Na comparação com outros do passado recente, o momento atual, do ponto de vista exclusivo das tendências macroeconômicas, não é um daqueles que, a rigor, exigissem uma ação imediata do BC. Todos os indicadores de inflação, incluídos os núcleos, mostram que as piores pressões do começo do ano arrefeceram e a perspectiva é a de recuo, pelo menos temporário, na taxa acumulada em 12 meses. Mas, ao reagir às acusações de leniência com a alta dos preços, o BC elevou o tom de sua comunicação talvez a um ponto de não retorno.

Tombini tem se mostrado satisfeito com os possíveis efeitos dessa mudança na comunicação do BC com o mercado. Ele diz acreditar que, ao elevar o tom com o qual procura informar o aumento do grau de preocupação da autoridade monetária com os movimentos dos preços, já conseguiu alterar o humor nos mercados futuros de juros - o que poderia ser tomado como uma prévia da recuperação da credibilidade do BC no controle da inflação, supostamente perdida com a demora em agir e marcada pela ultrapassagem, em março, do teto da meta.

Depois de oferecer reiteradas indicações de que não continuaria parado - o que pode ser diretamente confirmado se o Copom elevar os juros básicos já nesta quarta-feira -, seu problema, na sequência, poderá ser outro: o de encontrar o ponto certo para evitar os riscos de que os críticos substituam a acusação de leniência com a inflação pela de timidez no seu combate.

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