Alex Ribeiro/Estadão
Alex Ribeiro/Estadão

No Rio, ‘quentinhas’ como alternativa à desocupação

Carla Couto começou a vender comida depois de ter o carro que usava para fazer entregas roubado

Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 04h00

Há três anos, Carla Roberta da Costa Couto, de 38 anos, trabalha na informalidade, vendendo quentinhas na orla de Copacabana, zona sul do Rio, perto do hotel Copacabana Palace. Ela começou na atividade por falta de opção, quando perdeu o trabalho de fazer pequenas entregas com o próprio carro como terceirizada de uma empresa transportadora, após ter o veículo roubado num assalto.

“Como a gente trabalhava na rua, já via os carros parados (vendendo quentinhas), quando pensei: ‘também sei cozinhar’”, contou a cozinheira e vendedora.

Desde a recessão de 2014 a 2016, as ruas do Rio, tanto na zona sul quanto no centro, foram tomadas por carros vendendo quentinhas nos porta-malas abertos. A atividade serve de “bico” para trabalhadores que cozinham em casa e quase sempre envolvem a família no negócio – aproveitando a demanda por refeições baratas. Os preços variam de R$ 10 a R$ 12.

Carla já trabalhou como empregada doméstica e secretária, completou o ensino médio, tem curso de técnica de enfermagem e de instrumentação cirúrgica e chegou a cursar dois anos de curso superior de matemática, numa faculdade particular de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Hoje, a técnica em enfermagem tem dois pontos de venda – outro carro fica a cargo da mãe dela, na orla do Leme, também na zona sul. Nas suas contas, mãe e filha têm renda líquida em torno de R$ 4 mil por mês com as quentinhas. Embora veja vantagens em trabalhar “sem patrão”, ela diz que preferiria ter um emprego fixo, com carteira assinada. Mas não vê chances de encontrar uma vaga que pague o suficiente para fechar suas contas.

“Para trabalhar de carteira assinada hoje em dia, com a crise que está, não arrumo um emprego que pague isso, mesmo com estudo”, disse ela, por volta da hora do almoço de uma terça-feira de calor, enquanto atendia clientes, muitos trabalhadores da construção civil. “Vou conseguir um trabalho para ganhar R$ 1,5 mil, R$ 2 mil, e aí isso não paga as minhas contas.”

A venda de quentinhas também foi uma alternativa para aumentar a renda da dona de casa Fátima Barbosa da Cunha, de 64 anos, após o marido, que era taxista, ver os ganhos caírem com a chegada dos motoristas de aplicativos. Ela trabalha na orla de Copacabana há dois anos.

Por causa da carga de impostos, a cozinheira prefere seguir na informalidade, embora já tenha feito registro de Microempreendedor Individual (MEI). “Fiz há dois anos, logo que comecei. Paguei uns seis meses, mas parei, porque não vale a pena”, disse Fátima, completando que nem a expectativa de poder se aposentar ao se regularizar como MEI compensa, “ainda mais com essa reforma daí”, numa referência aos ajustes na Previdência. 

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.