Rafael Arbex | ESTADAO CONTEUDO
Com mudança na irrigação, produção de arroz na Fazenda Dois Rios passou de 120 sacos de 60 kg por hectare para 140 Rafael Arbex | ESTADAO CONTEUDO

NO TOCANTINS, UM NOVO JEITO DE PLANTAR ARROZ

Agricultores do Estado passaram a adotar uma técnica inovadora de irrigação que utiliza menos água e aumenta produtividade

Cristiane Barbieri (textos) e Rafael Arbex (fotos), Impresso

19 de novembro de 2017 | 05h00

LAGOA DA CONFUSÃO (TO) - No último período de seca, a região de Lagoa da Confusão, município a cerca de 200 quilômetros de Palmas, fez jus a seu nome. Depois de três anos de forte estiagem, o estresse hídrico virou estresse social e moradores e produtores agrícolas se desentenderam (ler mais abaixo). Numa área de várzea e muito quente, arroz e sementes de soja, que começaram a ser cultivados em larga escala na última década, demandam o uso intensivo de água, retirada de rios de médio porte. O Ministério Público e a sociedade civil questionaram produtores judicialmente. Apesar de o problema não ter sido totalmente resolvido, os agricultores passaram a contar com uma técnica inovadora: um arroz irrigado que produz mais, com menos água.

Uma das mais jovens fronteiras agrícolas do País, Tocantins viu sua área cultivada passar de 650 mil para 1,2 milhão de hectares, desde o início da década, segundo a Secretaria do Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária (Seagro-TO). Nesse processo de expansão, ao se depararem com a gigantesca região alagadiça próxima à Ilha do Bananal, gaúchos que migraram para as cidades próximas passaram a usar a mesma técnica que praticavam no Rio Grande do Sul para o cultivo do arroz, sob lâminas d’água. “Só que são tipos diferentes de várzea”, diz André Borja Reis, pesquisador da Esalq/USP e autor do estudo. “No Tocantins, a terra é mais porosa e é preciso muito mais água para manter a lâmina, num terreno que tem alta condutividade hidráulica.”

Ao contrário do Sul, a área a ser alagada não é totalmente plana. As irregularidades dos campos permitiram aos especialistas perceber que, nos lugares onde o arroz não crescia parcialmente submerso, ele vinha mais forte. As hastes não ficavam tão finas nem se deitavam com ventanias, dificultando a colheita. Foi então que Reis, que se mudara para Tocantins em 2008 e diz ter se sentido incomodado com o uso da água, tentou criar alternativas mais sustentáveis para seu manejo. Há quatro anos, começou os testes que provaram que o arroz sem a inundação produz 15% mais, consumindo metade dos recursos hídricos.

Mais sacas. Todas as 500 mil sacas de arroz esperadas para essa safra na Fazenda Dois Rios, propriedade de 30 mil hectares a cerca de 30 quilômetros da cidade, serão produzidas com a nova técnica. Josnei Spinardi Rosa, gerente operacional da Dois Rios, explica a diferença entre os métodos. Ele mostra canais cavados ao lado das parcelas, nome dado a campos retangulares de 200 metros por 1.000 metros onde ocorre o cultivo. “Antes, enchíamos os canais até transbordar, para criar a lâmina d’água”, afirma Rosa. “Hoje, não há esse transbordo: colocamos água apenas no canal e, por capilaridade, todo o terreno é umidificado, em quantidade de água ideal para o arroz.” Segundo ele, a produção saiu de 120 sacos de 60 quilos por hectare para 140 sacos, no novo método. Detalhe: não se trata de arroz de sequeiro, o mais comum do Tocantins, cuja produção média é de 70 sacos por hectare.

Apesar da maior sustentabilidade econômica e ambiental, metade dos produtores da região ainda não adotou a nova técnica. “Há agricultores muito apegados aos métodos tradicionais de produção”, afirma Solano Colodel, da Ímpar Consultoria no Agronegócio, na qual Reis trabalhava quando realizou a pesquisa. Segundo Rosa, eles olham os campos cultivados da Dois Rios e não acreditam que o arroz vá vingar. “Esse crescimento nas regiões de fronteira agrícola passa tanto pelo desenvolvimento de novas pesquisas, técnicas e produtos quanto pela educação e a difusão do conhecimento.”

Uma das regiões mais quentes do cerrado brasileiro pela baixa altitude, Tocantins tem sofrido particularmente com as mudanças climáticas recentes. Acostumados a duas estações muito marcantes, os produtores têm tudo pronto para o plantio no início de outubro, quando começa a época de chuvas, que se estende até maio. Neste ano, porém, as primeiras águas só chegaram em 10 de novembro. No dia 2, feriado, as máquinas já estavam no campo, dando início ao plantio. A cada chuva, espera-se um pouco a estiagem e logo tratores e semeadoras voltam ao trabalho, para aproveitar ao máximo o recurso precioso. “Chover mais tarde não quer dizer que vá chover menos”, diz Rosa. “Se cair os 1.800 milímetros anuais, estaremos bem.”

O problema é que esse volume foi 200 milímetros menor nos últimos anos e ninguém tem resposta se as quantidades recentes se tornarão o novo normal. Colodel trabalha com três fornecedores de dados meteorológicos e nenhum deles têm previsões semelhantes à do outro. “Estamos na área em que há maior imprevisibilidade em relação ao comportamento climático”, afirma Balbino Antonio Evangelista, analista da Embrapa-TO especializado em agroclimatologia. “Porém, temos uma certeza: está cientificamente comprovado que as temperaturas estão aumentando, além de termos muitos relatos de agricultores de que as janelas de chuva para o plantio e a colheita estão atrasando ou diminuindo com muita frequência.”

Segundo ele, as soluções para o problema da região passam pelo desenvolvimento de sementes com material genético mais resistente à seca e ao manejo bem feito das culturas. “Há estudos comprovando que a agricultura sustentável, feita com a integração lavoura-pecuária-floresta (quando se intercalam as safras agrícolas com a pecuária e/ou a produção de árvores), resgata e acumula o carbono no solo, evita sua perda para a atmosfera, o que pode significar uma recuperação do meio ambiente degradado.”

Apesar de o método desenvolvido por Reis significar para os produtores economia de 50% na água utilizada, ele funciona apenas para a época das chuvas, quando a retirada da água dos rios é menor, como ele mesmo alerta. Na seca, as fazendas da região produzem sementes de soja e outras culturas irrigadas. “A ideia é aumentar a produtividade e a receita com o arroz, para que os produtores não precisem retirar tanta água e não esvaziem os rios na seca”, afirma Reis.

‘Estado’ promove no dia 27 em São Paulo o Summit Agronegócio

Inovação é a fronteira mais promissora do agronegócio. Ela tem permitido criação de soluções para os problemas agrícolas, geração de empregos e ganhos de produtividade, com sustentabilidade econômica, ambiental e social. São esses temas que serão debatidos no Summit Agronegócio 2017, evento que o Estado realiza em 27 de novembro.

Eumar Novacki, ministro da Agricultura em exercício, fará a palestra de abertura. Também estão confirmados os ex-ministros Roberto Rodrigues e Reinhold Stephanes. Ao lado do vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil, Tarcísio Hubner, eles falarão sobre tendências e perspectivas do setor. Farão parte dos debates Gustavo Cupertino Domingues, diretor do Departamento de Acesso a Mercados do Ministério da Agricultura, e Luiz Tângari, presidente executivo da empresa de agrotecnologia Strider. Os keynote speakers serão Stewart Lindsey, vice-presidente global de Assuntos Corporativos da Bunge, e Sara Menker, da consultoria Gro Intelligence.

O Summit Agronegócio 2017 será das 8h às 18h no Sheraton WTC Hotel, em São Paulo. O patrocínio é da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp). Os ingressos estão à venda no site http://summitagronegocio.com.br/

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Uso de recursos hídricos chega à Justiça

Produtores brigam entre si pela água, enquanto algumas cidades afirmam ter dificuldade na captação para consumo humano

Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2017 | 05h00

LAGOA DA CONFUSÃO (TO) - Assim que chegou ao Ministério Público de Cristalândia (TO), no ano passado, o promotor Francisco Brandes Junior começou a receber denúncias sobre a retirada de água da Bacia do Rio Formoso, que pertence à do Araguaia. Bancos de areia que não existiam começaram a se formar, a pesca diminuíra, quelônios, botos e peixes precisavam ser resgatados. Algumas cidades, como Pium, tinham dificuldade na captação de água para o uso dos moradores. Alguns produtores brigavam entre si. A solução foi suspender a retirada da água, demanda acatada pela Justiça e, aparentemente, atendida pelos agricultores. “Havia 150 bombas nas fazendas, estruturas grandes captando de um rio de médio porte.” 

O simples impedimento da captação, porém, não é uma alternativa permanente, como o próprio Brandes Junior reconhece. Com a expansão do agronegócio em larga escala, os indicadores econômicos de Lagoa da Confusão deram um salto. De acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil, a cidade fundada em 1993 viu seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) subir 30% entre 2000 e 2010, ano do último dado disponível. A taxa de mortalidade infantil caiu de 45 para 20,5 mortos por mil nascidos no mesmo período e a longevidade passou de 64,5 anos para 72,2 anos. Em 2000, 28% da população era analfabeta ou tinha o fundamental incompleto, em 2010 o porcentual caiu para 16,5%. A expectativa de anos de estudo foi de 6,3 para 7,9 anos.

Apesar de também ter havido políticas públicas que ajudaram na melhoria desses indicadores no período, especialmente o Bolsa Família, é comum ouvir na cidade relatos de como o agronegócio mudou a vida das pessoas.

Lagoa da Confusão é o município que teve o segundo maior crescimento na década em Tocantins, atrás apenas de Palmas, a capital do Estado. 

Por outro lado, com o peso da agroindústria, a intervenção da sociedade civil no uso da água não tem sido fácil. “Procuramos basear nossos pedidos em critérios técnicos, sem emitir opiniões pessoais e priorizando sempre o uso humano”, diz Brandes Junior. 

Logo após a suspensão da retirada de água, foram instalados medidores de captação, com dados transmitidos automaticamente para as autoridades reguladoras. Esta será a primeira safra em que o volume retirado será acompanhado com mais rigor. 

Na medida mais recente, o promotor pediu que fossem destruídas quatro barragens elevatórias erguidas perto das fazendas, mas dentro dos rios, para armazenagem de águas. “A ideia é retardar a drenagem dos rios, que será feita de forma mais lenta”, diz Solano Colodel, da Ímpar Consultoria no Agronegócio, que presta serviços para várias fazendas da região. “Com a água do período chuvoso armazenada por mais tempo, ela votará para o rio drenada e não se formarão bancos de areia ao longo do ano.” Para o promotor, porém, não foram feitos estudos de impacto ambiental em quantidade e profundidade suficientes para que as elevatórias fossem construídas. “A retirada da água de vazante pode não prejudicar a pequena região em volta, mas não se sabe como toda a bacia se comportará”, diz Brandes Junior. 

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