EFE/Michael Reynolds
EFE/Michael Reynolds

No Twitter, Trump volta a criticar ciclo de aumento de juros do banco central americano

Nas rede sociais, Trump escreveu que a China, a União Europeia e outros têm 'manipulado suas moedas' e mantido taxas de juros baixas, enquanto os EUA elevam seus juros e o dólar se valoriza

O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2018 | 13h28
Atualizado 20 de julho de 2018 | 18h07

Um dia após dizer que não estava "feliz" com a política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que vem elevando as taxas de juros básica da maior economia do planeta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a atacar política monetária de seu país, agora pelo Twitter, o seu meio de comunicação preferido desde os tempos de campanha pela Casa Branca.

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Em dois posts na rede social nesta sexta-feira, 20, Trump escreveu que a China, a União Europeia e outros têm "manipulado suas moedas" e mantido taxas de juros baixas, enquanto os EUA elevam seus juros e o dólar se valoriza. Segundo ele, isso retira a vantagem competitiva do país.

"A China, a União Europeia e outros têm manipulado suas moedas e (mantido) os juros baixos, enquanto os EUA estão elevando (a taxa de juros básica da economia) e o dólar fica mais e mais forte a cada dia - o que retira nossa grande vantagem competitiva", escreveu Trump nesta sexta-feira, 20. Na opinião de Donald Trump, não há um ambiente justo na arena internacional.

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"Os Estados Unidos não deveriam ser penalizados por estarmos nos saindo tão bem", afirmou o presidente americano. "Um aperto (monetário) agora apenas prejudica tudo que temos feito", comentou.

 


 


TV. Em entrevista na quinta-feira, 19, à rede CNBC, Donald Trump criticou o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, por elevar os juros, o que segundo ele ocorre sempre que a economia se fortalece. Na mesma entrevista, porém, o presidente americano também contemporizou, dizendo que não interferirá no trabalho do Fed.

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Trump também estaria preocupado com o fato de Fed ter sinalizado que deve elevar os juros mais duas vezes este ano, segundo relatou uma fonte à CNBC.

Já no Twitter, nos posts desta sexta-feira, Trump defendeu que os EUA possam "recapturar o que foi perdido devido à manipulação cambial ilegal e a acordos comerciais ruins". 

Além disso, o presidente também comentou que os preços da soja recuaram 50% desde os cinco anos anteriores à eleição. "Uma grande razão para isso são os acordos ruins (terríveis) com outros países. Eles lançam grandes tarifas e barreiras. O Canadá cobra 275% sobre laticínios", reclamou. 

Segundo Trump, os fazendeiros americanos enfrentam uma tendência de baixa há 15 anos. 

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Sem trégua. As declarações de Trump nesta sexta-feira mostram que, pelo menos no que tange ao comércio exterior, o gabinete presidencial segue coordenado para reduzir a concorrência de outras economias frente os Estados Unidos. 

Também nesta sexta-feira, o assessor econômico da Casa Branca, Larry Kudlow afirmou que Trump não pretende recuar em sua estratégia de conseguir melhores termos no comércio com outras nações. 

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Segundo Kudlow, o presidente da China, Xi Jinping, aparentemente avalia que, após a eleição legislativa de novembro nos EUA, Trump pode sair enfraquecido e terá de adotar postura mais pacífica. "Esta é uma aposta muito ruim", advertiu, segundo o site Axios.

"Não importa como sejam as eleições, ele não deixará para lá esse assunto", afirmou o assessor. Kudlow disse temer que, caso não ocorram progressos nas tensões bilaterais, a China passe a se voltar contra companhias americanas que operam no país asiático.

O assessor de Trump disse ainda que as negociações com os EUA e a China não acontecem "há semanas". "Isso não é saudável", comentou. "Nós já demos a eles nossa lista de pedidos." 

'Panos quentes'. De outro lado, o banco central americano corre para sinalizar ao mercado que, a despeito das declarações do mandatário máximo do país, o órgão permanece independente. À imprensa, o dirigente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) James Bullard, que comanda a instituição em St. Louis, procurou minimizar o fato. 

"Eu não estou surpreso", disse Bullard sobre o posicionamento de Trump, "por causa do estilo do presidente".

Em conferência em Glasgow, no estado de Kentucky, o dirigente comentou as declarações de Trump, que representam uma ruptura nas relações entre o Fed e o Executivo. Bullard disse que a missão legal do Fed era manter a inflação na meta de 2% e promover o crescimento do emprego e que esses objetivos continuarão a ser almejados. Segundo ele, a declaração não deve ter impacto significativo nem levar a qualquer mudança nas decisões da instituição.

Bullard sinalizou que não está na verdade preocupado com as declarações do presidente. "Estou acostumado a debater política monetária em uma base ampla pelo mundo", declarou, dizendo que as opiniões de Trump "são apenas um elemento disso" e que o Fed "fará o melhor julgamento que puder" sobre a política monetária. "Eu duvido que isso terá qualquer influência de um lado ou de outro."

Bullard não quis dizer se Trump estava correto ou não ao argumentar que as elevações de juros do Fed valorizam o dólar e prejudicam os EUA, mas lembrou que o câmbio é orientado por muito mais do que a política monetária. 

Segundo Bullard, a influência do presidente no Fed poderia vir das nomeações de dirigentes. Para o presidente do Fed de St. Louis, a única ameaça real à independência do Fed poderia vir por meio de legislação, não de declarações presidenciais. 

 

Mercado. O impacto das declarações do presidente dos Estados fizeram o dólar caiu com força ante moedas globais nesta sexta-feira. Diante do dólar baixo, ativos como cobre e petróleo subiram de preço. 

A crítica de Trump ao Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) também chegou a pesar nas ações do setor bancário nos EUA, levando os índices Dow Jones e S&P 500 para o negativo, movimento que foi revertido após o presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, dizer que as declarações de Trump não afetam a política monetária do BC americano. 

A fala do dirigente dos Fed também impulsionou os juros dos títulos de dívida soberana dos Estados Unidos (Treasuries) mais longos para cima, embora a escalada das ameaças globais tenha pressionando os títulos de prazos mais curtos. 

As declarações de Trump pressionaram o dólar também no Braasil. Às 13h, a moeda americana comercializada à vista caía 1,65%, negociada a R$ 3,77.

Diante do dólar mais fraco, as commodities foram beneficiadas. O cobre subiu durante toda a manhã, enquanto o petróleo chegou a se firmar em alta.

Em meio a todo esse cenário, as bolsas europeias recuaram, pressionadas também pelo euro e libra mais fortes. A Bolsa de Londres terminou em queda de 0,07%, Paris caía 0,35% e Frankfurt tinha baixa de 0,98%. / Gabriel Bueno da Costa e Niviane Magalhães, com Dow Jones Newswires

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