Nobel: Brasil precisa mudar política monetária para crescer

Para que o Brasil cresça 5%, como esperado pelo governo, será preciso, além de mais investimentos, uma mudança na política monetária. A avaliação é do economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e ex-economista-chefe do Banco Mundial. "A política monetária é um dos maiores impedimentos ao sucesso do Brasil", disse Stiglitz, em entrevista à Agência Estado. Ele lembrou que o Brasil tem uma das mais altas taxas de juros do mundo, com juro nominal em 13% e real em 8%. "Particularmente entre os economistas de mercado há uma forte crença de que os juros reais fazem uma enorme diferença no potencial de investimentos em um país. Nos Estados Unidos, por exemplo, o juro real está em 2%, um quarto daquele do Brasil", afirmou. Segundo ele, o caminho está em acelerar o processo de corte de juros. "O Brasil tem uma performance muito forte na área fiscal, no superávit primário, superávit da balança comercial. Nessas circunstâncias, seria apropriado acelerar os cortes de juros", disse. A avaliação do economista vai na contramão da atual política do Banco Central, que na última reunião reduziu o ritmo de cortes da taxa básica de juros, a Selic (atualmente em 13% ao ano), para 0,25 ponto porcentual. "O Banco Central está indo na direção errada. É sempre difícil avaliar, mas acho que (o BC) tem pecado pela cautela excessiva", disse Stiglitz, que foi professor do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. ConfiançaSegundo Stiglitz, o Brasil já reúne algumas condições para ganhar maior confiança dos investidores estrangeiros. "Se você olhar para outros indicadores, como superávit primário, você daria ao Brasil um A, A+, e diria: ´Esse pais deverá crescer muito rápido´. Mas algo que se destaca como negativo para o Brasil é a alta taxa de juro", ponderou. Atualmente o rating soberano do Brasil está classificado como BB+ pela Standard & Poor´s; BB pela Fitch e Ba2 pela Moody´s.Ainda assim, Stiglitz acredita que se o País começar a crescer mais rapidamente, poderia chegar a ser grau de investimento em dois anos. Ele observa, no entanto, que as incertezas globais e uma eventual desaceleração maior da economia global poderia atrasar esse upgrade. Desafio Stiglitz enfatizou que promover o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), com juros menores e mais gastos com investimentos, é o maior desafio para o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. "A crítica que eu teria é que sem uma disponibilidade mais forte de crédito e juros mais baixos, aumentar os investimentos públicos simplesmente não basta. É preciso que se reforme a política monetária e também que haja mais investimentos", disse. "Não há evidências de que o melhor jeito de crescer é por reduzir o déficit. Não conheço nenhum país que tenha crescido baseado numa política de redução de déficit", acrescentou o economista. Stiglitz também disse que não vê nenhum problema em uma possível redução do superávit primário de 4,25% do PIB para 3,75% do PIB. "É hora de o Brasil ter uma política fiscal e monetária mais expansionista." EUAO economista também comentou a economia dos Estados Unidos, dizendo acreditar que esta poderá crescer de 2% a 2,2% do PIB este ano. "Esse seria um pouso suave, bem suave. Mas há um risco substancial, de 20% de probabilidade, e isso não é insignificante, de um pouso mais brusco", avaliou em entrevista ao Broadcast Ao Vivo. Stiglitz afirmou ainda que o mercado de trabalho americano não parece estar tão apertado como avaliam alguns analistas. Segundo ele, o mercado de trabalho está mais apertado, mas não tão bom como na década de 90 quando chegou a bater os 3,8%. De acordo com ele, porém, a possibilidade de o mercado se deteriorar com um eventual aumento do petróleo, por exemplo, existe. Esse aumento, segundo Stiglitz, teria impacto sobre a inflação, provocando aumento dos juros e causando desaquecimento da economia aliado ao atual queda de preços dos imóveis. Stiglitz comentou também que o atual presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, tem sido bem sucedido em evitar uma forte queda no crescimento no PIB americano. "Ele herdou uma situação muito ruim do Greenspan (Alan Greenspan, ex-presidente do Fed)", observou.

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