Economia comportamental leva o Nobel

Norte-americano Richard H. Thaler diz que ‘para fazer uma boa análise em economia deve-se ter em mente que as pessoas são humanas’

Binyamin Appelbaum* - The New York Times

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WASHINGTON – Richard H. Thaler recebeu o Prêmio Nobel de Economia pelas suas contribuições no campo da economia comportamental.

O professor Thaler, nascido em 1945 em East Orange, New Jersey (EUA), trabalha na Faculdade de Administração da Universidade Booth de Chicago. Segundo o comitê do Nobel ao anunciar o prêmio em Estocolmo, Thaler é pioneiro na aplicação da psicologia ao comportamento em economia e em explicar como as pessoas tomam decisões econômicas, às vezes, rejeitando a racionalidade.

US$ 1 milhão. ‘Tentarei gastar o prêmio da forma mais irracional possível’, diz Thaler. Foto: EFE/TANNEN MAURY

Sua pesquisa, disse o comitê, levou o campo comportamental em economia, de um papel secundário para corrente principal da pesquisa acadêmica e mostrou que o fator tinha importantes implicações para a política econômica.

Thaler disse nesta segunda-feira, 9, que a premissa básica de suas teorias é a seguinte: “Para fazer uma boa análise em economia deve-se ter em mente que as pessoas são humanas”.

Quando lhe perguntaram como gastaria o dinheiro (cerca de US$ 1,1 milhão) do prêmio, respondeu: “Esta é uma pergunta bem divertida”. E acrescentou: “Tentarei gastá-lo da forma mais irracional possível.”

O prêmio de Economia foi criado em 1968 em memória de Alfred Nobel e é concedido pela Academia Real de Ciências da Suécia.

As linhas principais de estudos econômicos em grande parte do século 20 basearam-se na hipótese simplificada de que as pessoas se comportavam racionalmente. Os economistas entendiam que isso não era literalmente real, mas argumentaram que estava bem próximo disso.

O professor Thaler desempenhou um papel central ao se distanciar desse pressuposto. Ele não só defendeu que os seres humanos são irracionais, o que é algo óbvio, mas também de pouca ajuda. Em vez disso, ele mostrou que as pessoas saem da racionalidade de maneiras coerentes, portanto seu comportamento ainda pode ser antecipado.

O comitê do Nobel descreveu como a teoria de Thaler sobre “contabilidade mental” explica de que forma as pessoas simplificam as decisões financeiras, concentrando-se no impacto limitado de cada decisão e não no seu efeito mais geral. Ele também mostrou como a aversão a uma perda pode explicar por que as pessoas valorizam muito mais o mesmo item quando são proprietárias do que quando não o são, fenômeno chamado efeito de doação.

As teorias de Thaler explicam ainda porque as resoluções de ano-novo podem ser difíceis de se manter e analisam a tensão entre o planejamento de longo prazo e a ação no curto prazo.

Tentação. Sucumbir à tentação de curto prazo é uma razão importante pela qual muitas pessoas fracassam em seus planos de poupar para quando forem idosas, ou fazer escolhas de estilo de vida mais saudáveis, de acordo com a pesquisa de Thaler. Ele também demonstrou o quanto mudanças aparentemente pequenas na forma como os sistemas funcionam, ou como um “empurrãozinho” (“nudging”) - termo que ele inventou - pode ajudar as pessoas a exercer melhor autocontrole quando, por exemplo, estão economizando para a aposentadoria.

Conheça todos os vencedores do Prêmio Nobel de Economia

1 | 50 Os americanos William D. Nordhaus e Paul M. Romer ganharam o Prêmio Nobel de Economia por abordarem métodos para favorecer o crescimento sustentável. Em seus estudos, eles integraram mudança climática e inovação tecnológica com o crescimento econômico. Foto: Reuters
2 | 50 O americano Richard H. Thaler, de 72 anos, recebeu o Prêmio Nobel de Economia por suas pesquisas a respeito da economia comportamental. Em suas pesquisas, Thaler mostrou como algumas características humanas, como a racionalidade limitada, suas preferências sociais e até mesmo a falta de autocontrole impactam suas finanças pessoais e, por consequência, orientam um determinado comportamento do mercado.  Foto: Carsten Rehder/EFE
3 | 50 O britânico Oliver Hart e o finlandês Bengt Holmstrom são os premiados do Nobel de Ciências Econômicas de 2016. Eles foram escolhidos pelos estudos que realizam da "teoria dos contratos". Foto: EFE
4 | 50 2015 - Angus Deaton (69 anos, Escócia) por seus estudos sobre consumo, pobreza e bem-estar Foto: Divulgação
5 | 50 2014 - Jean Tirole (61 anos, França) por seu estudo sobre poder de mercado das empresas Foto: Fred Lancelot/Reuters
6 | 50 2013 - Robert Shiller (67 anos, EUA), Lars Peter Hansen (61 anos, EUA) e Eugene Fama (74 anos, EUA) pela análise empírica do preço dos ativos Foto: A. Mahmoud/Nobelprize.org
7 | 50 2012 - Alvin Roth (60 anos, EUA) e Lloyd Shapley (89 anos, EUA) por pesquisas sobre como relacionar os agentes de determinados mercados Foto: U.Montan/Nobelprize.org
8 | 50 2011 - Thomas Sargent (68 anos, EUA) e Christopher Sims (69 anos, EUA) por pesquisa empírica sobre causa e efeito na macroeconomia Foto: U. Montan/Nobelprize.org
9 | 50 2010 - Peter A. Diamond (70 anos, EUA), Dale T. Mortensen (71 anos, EUA) e Christopher A. Pissarides (62 anos, Inglaterra/Chipre) por estudo das relações entre a política econômica e o desemprego Foto: U. Montan/Nobelprize.org
10 | 50 2009 - Elinor Ostrom (76 anos, EUA) e Oliver Williamson (77 anos, EUA) pela análise da governança econômica Foto: U. Montan/Nobelprize.org
11 | 50 2008 - Paul Krugman (50 anos, EUA) por sua teoria que integra comércio e geografia econômica Foto: Bobby Yip/Reuters
12 | 50 2007 - Leonid Hurwicz (90 anos, Rússia) e Eric Maskin (57 anos, EUA) por pavimentar as fundações da teoria do desenho de mecanismos Foto: E. Ayoubzadeh e U. Montan/Nobelprize.org
13 | 50 2006 - Edmund Phelps (73 anos, EUA) por seu trabalho sobre as relações dos efeitos a curto e longo prazo de uma política econômica Foto: Sergio Moraes/Reuters
14 | 50 2005 - Robert Aumann (75 anos, Alemanha) e Thomas Schelling (84 anos, EUA) por estudos sobre conflito e cooperação por meio da análise da teoria dos jogos Foto: D. Porges e T. Zadig/Nobelprize.org
15 | 50 2004 - Finn Kydland (60 anos, Noruega) e Edward Prescott (63 anos, EUA) por contribuições para a macroeconomia: a inconsistência temporal das políticas econômicas e as forças por trás dos ciclos de negócios Foto: Nobelprize.org
16 | 50 2003 - Robert Engle III (61 anos, EUA) e Clive Ganger (69 anos, Reino Unido) pela criação de métodos estatísticos para analisar tendências de curto e longo prazo Foto: Nobelprize.org
17 | 50 2002 - Daniel Kahneman (68 anos, Israel) e Vernon Smith (75 anos, EUA) pela análise econômica integrada à psicologia, em especial o comportamento humano e a tomada de decisões em situações de incerteza Foto: Nobelprize.org
18 | 50 2001 - George Akerlof (61 anos, EUA), A. Michael Spence (58 anos, EUA) e Joseph Stiglitz (58 anos, EUA) por mostrar que informações assimétricas podem ser chave para entender fenômenos de mercado Foto: Nobelprize.org
19 | 50 2000 - James Heckman (56 anos, EUA) e Daniel McFadden (63 anos, EUA) pelo método de análise dos problemas de informação incompleta ou assimétrica Foto: Nobelprize.org
20 | 50 1999 - Robert Mundell (67 anos, Canadá) por sua análise de política fiscal e monetária sob diferentes regimes de taxas de câmbio Foto: Bobby Yip/Reuters
21 | 50 1998 - Amartya Sen (65 anos, Índia) por suas pesquisas sobre os problemas fundamentais da economia do bem-estar Foto: Bruno Alencastro/Agência RBS
22 | 50 1997 - Robert Merton (48 anos, EUA) e Myron Scholes (56 anos, Canadá) por criar um novo método de determinar o valor de derivativos Foto: Nobelprize.org
23 | 50 1996 - James Mirrlees (59 anos, Escócia) e William Vickrey (82 anos, Canadá) pelo método de análise dos problemas de informação incompleta ou assimétrica Foto: Nobelprize.org
24 | 50 1995 - Robert Lucas Jr (58 anos, EUA) por desenvolver a hipótese de expectativas racionais e transofmrar a análise macroeconômica Foto: Reprodução
25 | 50 1994 - John Harsanyi (74 anos, Hungria), John Nash Jr. (66 anos, EUA) e Reinhard Selten (64 anos, Polônia) pela criação da Teoria dos Jogos, também conhecida como Equilíbrio de Nash, que analisa a solução para os jogos estratégicos não cooperativos Foto: Nobelprize.org
26 | 50 1993 - Robert Fogel (66 anos, EUA) e Douglass North (73 anos, EUA) por renovar a pesquisa em história econômica aplicando teoria econômica e métodos quantitativos Foto: Nobelprize.org
27 | 50 1992 - Gary Becker (62 anos, EUA) por ter expandindo o domínio da teoria microeconômica para uma ampla gama do comportamento e da interação humana, inculindo o comportamento não-mercado Foto: David McNew/Reuters
28 | 50 1991 - Ronald Coase (81 anos, Reino Unido) por esclarecer a significância dos custos de transação e direitos de propriedades para a estrutura institucional e o funcionamento da economia Foto: University of Chicago
29 | 50 1990 - Harry Markowitz (63 anos, EUA), Merton Miller (67 anos, EUA) e William Sharpe (56 anos, EUA) pela contribuição pioneira para a teoria da economia financeira Foto: Nobelprize.org
30 | 50 1989 - Trygve Haavelmo (78 anos, Noruega) por sua contribuição pioneira para fundação da econometria Foto: Reprodução
31 | 50 1988 - Maurice Allais (77 anos, França) por sua contribuição pioneira para a teoria dos mercados e a utilização eficiente dos recursos Foto: Foundation Maurice Allais
32 | 50 1987 - Robert Solow (63 anos, EUA) por suas contribuições para a teoria do crescimento econômico Foto: Divulgação
33 | 50 1986 - James Buchanan Jr. (67 anos, EUA) por sua contribuição para a teoria da tomada de decisão política e da economia pública Foto: Atlas Network/Divulgação
34 | 50 1985 - Franco Modigliani (67 anos, Itália) por suas análises pioneiras sobre poupança e mercados financeiros Foto: Divulgação
35 | 50 1984 - Richard Stone (71 anos, Reino Unido) por ter feito contribuições para o desenvolvimento de sistemas de contas nacionais e, assim, ter melhorado a análise econômica empírica Foto: ESRC/Flicker
36 | 50 1983 - Gerard Debreu (62 anos, França) por incorporar novos métodos analíticos na teoria econômica Foto: Reprodução
37 | 50 1982 - George Stigler (71 anos, EUA) por sua contribuição fundamental para o estudos dos processos dos mercados e para a análise das estruturas das indústrias Foto: Reprodução
38 | 50 1981 - James Tobin (63 anos, EUA) por sua análise dos mercados financeiros e suas relações com decisões de gastos, emprego, produção e preços Foto: Reprodução
39 | 50 1980 - Lawrence Klein (60 anos, EUA) por sua análise das políticas macroeconômicas por meio de um modelo econométrico; também fez importantes contribuições para as técnicas de previsão Foto: B. Thumma/AP
40 | 50 1979 - Theodore Schultz (77 anos, EUA) e Sir Arthur Lewis (64 anos, Santa Lúcia) por dois modelos econômicos que apontam as causas da pobreza entre a população de países em desenvolvimento Foto: Nobelprize.org
41 | 50 1978 - Herbert Simon (62 anos, EUA) por sua pesquisa pioneira do processo de tomada de decisões dentro das organizações econômicas Foto: Reprodução
42 | 50 1977 - Bertil Ohlin (78 anos, Suécia) e James Meade (70 anos, Reino Unido) pela contribuição para a teoria do comércio internacional e os fluxos internacionais de capital Foto: Reprodução
43 | 50 1976 - Milton Friedman (64 anos, EUA) por suas contribuições para a análise do consumo e a história e teoria monetária, incluindo observações sobre a complexidade das políticas de estabilização Foto: Eddie Adams/AP
44 | 50 1975 - Leonid Vitaliyevich Kantorovich (63 anos, Rússia) e Tjalling Koopman (65 anos, Holanda) pela contribuição à teoria de alocações ótimas de recursos Foto: Nobelprize.org
45 | 50 1974 - Gunnar Myrdal (75 anos, Suécia) e Friedrich August von Hayek (75 anos, Áustria) pela contribuição à teoria das flutuações da economia e da moeda e pela análise das relações entre os processos econômicos, sociais e políticos Foto: Nobelprize.org
46 | 50 1973 - Wassily Leontief (67 anos, Rússia) por criar a técnica de 'input-output', método para analisar as complicadas transações entre as indústrias em uma economia Foto: Reprodução
47 | 50 1972 - John Hicks (68 anos, Reino Unido) e Kenneth Arrow (51 anos, EUA) por sua contribuição pioneira para a teoria do equilíbrio econômico e para a teoria do bem-estar Foto: Nobelprize.org
48 | 50 1971 - Simon Kuznets (70 anos, Rússia) por uma extensiva pesquisa sobre crescimento econômico das nações Foto: AFP
49 | 50 1970 - Paul Samuelson (55 anos, EUA) por ter contribuído para a melhora do nível das análises da ciência econômica Foto: Donna Coveney/MIT
50 | 50 1969 - Ragnar Frisch (74 anos, Noruega) e Jan Tinbergen (66 anos, Holanda) pelo desenvolvimento e aplicação de modelos dinâmicos para análise dos processos econômicos Foto: Nobelprize.org

O professor Thaler teve uma rápida participação no filme A Grande Aposta, ao lado da atriz e cantora Selena Gomez, no qual ele usou a economia comportamental para ajudar a explicar as causas da crise financeira. Quando perguntaram a ele sobre sua “curta carreira em Hollywood”, brincou se dizendo desapontado pelo fato de suas façanhas como ator não terem sido mencionadas no resumo de suas realizações quando o prêmio foi anunciado.

Por que o trabalho de Thaler foi importante? Seu trabalho forçou os economistas a lidarem com as limitações da análise tradicional com base no pressuposto de que as pessoas são atores racionais.

Ele também tem sido excepcionalmente bem-sucedido ao influenciar diretamente políticas públicas.

Uma das contribuições mais importantes é a sua influência sobre a mudança dos planos de aposentadoria nos quais os funcionários se inscrevem automaticamente e nas apólices que oferecem aos funcionários a opção de aumentar as contribuições ao longo do tempo. Ambos refletem a visão de Thaler de que a inércia pode ser usada para moldar resultados benéficos sem impor limites à escolha humana. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

LAUREADOS

Oliver Hart e Bengt Holmstrom (2016)

Autores da teoria dos contratos, que têm múltiplas aplicações em diversos contextos da vida real

Angus Deaton (2015)

Reconhecido por sua análise sobre o consumo, a pobreza e o bem-estar social

Jean Tirole (2014)

Premiado pelo trabalho de análise do poder e da regulação de mercado

Eugene Fama, Lars Peter Hansen e Robert Schiller (2013)

Premiados pelo trabalho pioneiro em identificar as tendências nos mercados financeiros

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