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'Nobel é recado claro sobre importância de reduzir a pobreza', diz economista

Para professor do Insper, os três economistas reconhecidos com o prêmio de 2019 têm, em comum, preocupação em se dedicar a como melhorar a vida das pessoas

Entrevista com

Naércio Menezes Filho, economista do Insper

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2019 | 12h10

A busca pela redução da pobreza, da mortalidade infantil e da fome deve ser reforçada em momentos de crise, como o que o Brasil enfrenta. A avaliação é do professor e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Naércio Menezes Filho. Nesta segunda-feira, 14, os economistas Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer foram anunciados como os ganhadores do Prêmio Nobel de 2019, como um reconhecimento pela abordagem experimental em aliviar a pobreza no mundo. 

Para Menezes Filho, a lição que os economistas ganhadores do Nobel deixam para seus pares e para os governos ao redor do mundo é de que é preciso aumentar os investimentos em políticas públicas voltadas para os mais pobres, além de investir em mecanismos de avaliação da efetividade desses programas. A seguir, trechos da entrevista do economista ao Estado.

Qual é a importância do reconhecimento do trabalho desses três economistas?

O Nobel valoriza o trabalho realizado por esses economistas na redução da pobreza, da mortalidade infantil e da fome. Eles conseguiram, através de análises empíricas, avaliar quais políticas públicas funcionam e têm maior impacto na redução desses problemas. Para isso, trouxeram uma abordagem que geralmente é usada na medicina, de ensaios controlados, em que se cria um grupo de tratamento para testar a eficácia de remédios novos, por exemplo, e se testa esses medicamentos em apenas um dos grupos. Eles trouxeram essa metodologia para a economia.

Foram feitos estudos que testavam políticas de saúde e de educação em diferentes grupos?

Sim. Por meio deles, é possível avaliar se um programa de desparasitação (distribuição de um medicamento eficaz contra um ou vários parasitas), por exemplo, tem impacto na saúde das crianças e no seu desempenho escolar. É possível distribuir redes para proteção contra mosquitos para um grupo e não dar para outro e, mais tarde, medir o impacto em cada um deles. Ou também colocar em prática programas de incentivo à frequência de professores e ver os impactos disso no desempenho dos alunos. Experimentos controlados, assim, foram feitos em países da África e na Índia. Eles ajudam a testar a eficácia de políticas públicas.

Esses estudos também servem para evitar desperdícios de recursos públicos ou reavaliar programas que não dariam resultados tão positivos quanto o esperado?

Exato. Aqui no Brasil mesmo, tem uma quantidade imensa de recursos e ainda há poucas avaliações de impacto, para vermos o que efetivamente funciona. Ao mesmo tempo, o País já conta com uma geração de economistas formados com essa visão de geração de impacto. Programas como Bolsa Família, Saúde da Família e Mais Educação são constantemente avaliados, embora nem sempre com essa técnica proposta de ensaio randomizado (por sorteio) e controlado, como a proposta pelos ganhadores do Nobel. É que, em algumas políticas, é infactível fazer esse tipo de procedimento.

O Nobel tende a valorizar estudos como os dos três ganhadores?

Os premiados têm em comum a preocupação em resolver os problemas práticos de pobreza e desigualdade que afligem a humanidade. Alguns economistas têm essa preocupação, em se dedicar a como melhorar a vida das pessoas. Muitos outros economistas estão preocupados com crescimento econômico — o que também é válido e é necessário ter pessoas estudando diversas áreas. Mas o Nobel tende, sim, a valorizar quem se dedica a resolver problemas que desde sempre afetam a humanidade, como a fome ou a desigualdade de oportunidades.

Olhando para os exemplos atuais de políticas públicas para redução da pobreza, há mais pontos positivos ou negativos?

Quando se olha para os últimos 30 anos, dá para perceber que o Brasil progrediu muito. Antes da Constituição de 1988, o País não tinha o Sistema Único de Saúde (SUS), não tinha o Bolsa Família, nem o Benefício de Prestação Continuada (garantia de um salário mínimo mensal a idosos de baixa renda). As pessoas que nasciam pobres não tinham uma esperança na vida. Hoje, mesmo com a crise econômica, não se vê mais tantas pessoas migrando para as cidades mais ricas ou um grande volume de gente passando fome.

Que lição os ganhadores do Nobel deste ano deixam para os governos ao redor do mundo?

O Nobel deixa um recado claro para que não se diminua os recursos destinados para políticas públicas direcionadas aos mais pobres. É preciso, na verdade, aumentar os recursos e avaliar melhor a efetividade desses programas. As pessoas mais pobres também têm direito aos seus sonhos.

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