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Nocaute técnico

A queda da participação relativa da indústria no PIB no Brasil é caso raro de decadência antes do auge

Luís Eduardo Assis *, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2020 | 05h00

Durante muitos anos industrialização foi sinônimo de desenvolvimento econômico. A literatura especializada assinala, porém, que a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) tende a reproduzir a forma de um U invertido, ou seja, à medida que o PIB avança a tendência é, inicialmente, o produto industrial ganhar participação no PIB. A partir de uma renda per capita de aproximadamente US$ 20 mil, a tendência reverte e o setor tende a perder participação relativa em favor de serviços cada vez mais complexos, que se sofisticam e ganham peso na estrutura econômica.

Aqui foi diferente. No Brasil, a queda da participação relativa da indústria no PIB começou bem antes do que preconiza o padrão internacional. Caso raro de decadência antes do auge. Estudo de Paulo Morceiro e Milene Tessarin (Desenvolvimento Industrial em Perspectiva Internacional Comparada, Fipe-USP, 2019) mostra que não só nossa industrialização foi tardia, como a desindustrialização brasileira foi mais rápida e começou mais cedo do que em outros países. A partir de 1981, quando o PIB per capita brasileiro não chegava a US$ 8 mil, a contribuição da indústria para o PIB começou a definhar. Entre 1980 e 2017, o crescimento real acumulado do valor adicionado pelo setor cresceu 24% no Brasil. Na Índia, o crescimento foi de 1.170%, enquanto na Coreia alcançou 1.701%. Para não falar da China – sempre a China –, onde o aumento foi de 4.369%.

O Brasil registra o caso de desindustrialização precoce mais grave do mundo. Dentre os 30 países analisados, a queda na contribuição da indústria brasileira só perde para a verificada na Austrália e no Reino Unido, países onde a desindustrialização ocorreu depois de se alcançar uma renda elevada. Entre 1971 e 2017, a participação da indústria no PIB veio de 23,2% para apenas 11,3%.

Não há caso histórico relevante de país que tenha ficado rico sem ter desenvolvido seu setor industrial. Pela tecitura das relações econômicas que provoca, a indústria tradicionalmente gera maiores efeitos de encadeamento, contagiando com seu crescimento uma longa série de setores a ela conectados. Dados mais recentes mostram que o setor vive ainda com a ajuda de aparelhos. Depois de ter caído estupendos 16,7% entre 2014 e 2016, a indústria esboçou reação em 2017 e 2018, quando acumulou crescimento de 3,5%. Mas recuou novamente em 2019, o que fez com que a produção ficasse no patamar da produção de 2004. Depois de 15 anos, a indústria está no mesmo lugar.

Ao longo das últimas décadas, a indústria brasileira foi presa fácil da combinação entre populismo cambial (que favoreceu as importações), protecionismo seletivo por meio de barreiras tarifárias (que impede a concorrência) e excessiva carga tributária. Os lobbies setoriais, dos quais a Anfavea é o prócer mais insaciável, se empenharam em extrair sinecuras do Estado, do que resultou um simulacro de política industrial que mais se assemelha ao clientelismo.

O governo atual ainda não deixou claro o que pensa do assunto. De um ponto de vista liberal, deveria ter avançado na abertura gradual da economia, baseado na premissa de que a concorrência internacional pode estimular o aumento da produtividade. Não foi o que ocorreu. Também se poderia esperar o reexame de pacotes setoriais baseados em incentivos fiscais, mas não se vê grande movimentação da equipe econômica na tentativa de rever medidas de estímulo baseadas em subsídios. Juros mais baixos e dólar mais alto podem dar um alento ao setor. Talvez com essa combinação a indústria possa recuperar suas forças e voltar a crescer. Talvez a demanda externa possa estimular investimentos. Talvez seja apenas tarde demais.

* Economista, foi diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de economia da PUC-SP e da FGV-SP. Email: luiseduardoassis@gmail.com

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