Governo de transição
Foco. Campos Neto cuidava da Tesouraria do Santander Governo de transição

Campos Neto vai substituir Ilan no BC e Mansueto Almeida ficará no Tesouro

Diretor da área de Tesouraria do Banco Santander vai assumir o comando do Banco Central no próximo ano no lugar de Ilan Goldfajn, que era o ‘plano A’ do novo governo, mas que acabou decidindo deixar o cargo, por ‘motivos pessoais’

Lu Aiko Otta, Luciana Dyniewicz, Cynthia Decloedt e Renata Agostini, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2018 | 13h33
Atualizado 15 de novembro de 2018 | 21h56

O economista Roberto Campos Neto foi anunciado oficialmente nesta quinta-feira, 15, como o substituto de Ilan Goldfajn no Banco Central no governo de Jair Bolsonaro. “Com extensa experiência na área financeira, pós-graduado em economia pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), Campos Neto deixa a diretoria do Banco Santander, onde ingressou em 2000”, informou, em nota, a assessoria do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes. Também foi confirmado que o atual secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, permanecerá no cargo no novo governo.

Campos Neto, como o nome indica, é neto do também economista Roberto Campos, ministro do Planejamento durante o governo do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967) e um dos maiores expoentes do pensamento liberal no Brasil. O executivo é respeitado no mercado financeiro por seu perfil técnico, mas não é um nome muito conhecido. Para alguns economistas, uma questão que terá de ser observada será a sua capacidade de se adequar ao setor público, tendo em vista que sempre ocupou cargos privados. 

O futuro presidente do BC é próximo de Paulo Guedes e já vinha contribuindo com ideias para o programa de governo desde antes da eleição. 

O “plano A” do novo governo para o BC era a manutenção de Ilan, mas, conforme informou o Estado na edição desta quinta, ele preferiu deixar o cargo, por motivos pessoais. O BC publicou uma nota em que Ilan felicita seu possível sucessor (a indicação precisará ser referendada pelo Senado). “Profissional experiente e reconhecido, com ampla visão sobre o sistema financeiro e a economia nacional e internacional, Roberto Campos Neto conta com seu apoio (de Ilan) e sua confiança no futuro trabalho à frente do BC.”

Ilan afirmou, no comunicado, que permanecerá à frente da autoridade monetária, por pedido do próximo governo, até o nome de seu sucessor ser apreciado pelos senadores. Disse também que continuará trabalhando para que os parlamentares aprovem o texto de autonomia do BC, com mandatos fixos e intercalados dos diretores, ainda este ano.

O presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial, desejou êxito a Campos Neto, dando destaque ao fato de ocupar uma função importante ao desenvolvimento do País. “Roberto Campos Neto é um profissional com sólida formação e profundo conhecimento da área econômica. Desejamos a ele muito êxito no desempenho de sua nova função, tão importante para o desenvolvimento do País.”

Campos Neto, de 49 anos, trabalhou no Banco Bozano Simonsen de 1996 a 1999. Com a incorporação do banco ao Santander, em 1999, passa a atuar como chefe da área de renda fixa internacional, cargo que ocupou até 2003. No ano seguinte, foi para a gestora Claritas. Em 2005, voltou ao Santander como operador e em 2006 foi chefe do setor de trading. Em 2010, passou a responder pela área de Tesouraria e formador de mercado regional e internacional. 

Tesouro

A manutenção de Mansueto Almeida na nova equipe econômica era esperada pelo mercado e por quem acompanha a equipe de transição. Ele é secretário do Tesouro desde abril de 2018 - antes, tinha ocupado o cargo de secretário de Acompanhamento Econômico. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), é mestre em Economia pela USP e cursou doutorado em Políticas Públicas no MIT.

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Perfil ‘técnico’ de Campos Neto agrada a analistas

Avaliação é que, pelo perfil liberal e o fato de estar alinhado a Paulo Guedes, novo presidente do BC será bem recebido por investidores

O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2018 | 21h29

Com perfil “técnico” de executivo do mercado financeiro, o nome do substituto de Ilan Goldfajn no comando do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, agrada a seus pares e deverá ser bem recebido por investidores, segundo analistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast. Para alguns, porém, agora também será importante que a futura equipe econômica reforce sinais de que o BC terá independência de fato.

O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior, elogiou a indicação de Campos Neto. “Temos muito boas informações dele. É um profissional extremamente competente que trabalhou na tesouraria do Santander. A expectativa é muito boa e grande”, afirmou o executivo.

Para Lazari, o principal desafio da nova cúpula do BC em 2019 será o controle da inflação com a administração da política monetária. Questionado sobre se a Selic deveria cair no próximo ano, ele respondeu: “Tomara, se a gente tiver um quadro de inflação controlada que não possa correr qualquer perigo, por que não ter uma taxa de juros de 6,25%, 6% ou abaixo de 6%, de acordo com as condições da economia?”, disse. “Para nós, isso vai acontecer agora, ou pouco mais para a frente, pois nos vamos entrar neste seleto grupo de países que têm taxa de juros bastante pequena.” 

José Júlio Senna, ex-diretor do BC e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), também elogiou a indicação. “Ele tem longa experiência de mercado financeiro, onde desfruta de uma imagem muito boa”, disse. 

“Assim como o próprio Ilan e também Henrique Meirelles, Campos Neto veio do mercado financeiro, com o qual deverá ter boa interlocução. É um nome muito conceituado e trabalha em tesouraria, que é uma área importantíssima”, disse o estrategista de renda fixa da GS Research, Renan Sujii.

Para a economista-chefe da gestora ARX Investimentos, Solange Srour, Campos Neto é “respeitado” pelos agentes do mercado financeiro porque tem perfil liberal, está alinhado com o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, e construiu sua carreira no mercado financeiro.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) elogiou, em nota distribuída nesta quinta, as “qualificações e experiência” de Campos Neto.

Sinais

A indicação de Campos Neto não foi exatamente uma surpresa – seu nome já circulava há dias no mercado como um dos potenciais indicados. Segundo Solange, da ARX, a credibilidade inicial do futuro presidente do BC dependerá dos próximos sinais para os rumos da política monetária, como a composição da diretoria do órgão e seus primeiros discursos.

O novo presidente chega com certa credibilidade, mas, como é novo no cargo, será avaliado ao longo do tempo. Se os diretores vão ficar ou não é importante”, disse Solange, destacando que não conhece Campos Neto. O aumento da transparência na comunicação com o mercado, na visão de Solange, foi o destaque da gestão de Ilan Goldfajn, que assumiu o cargo em 2016. Já as primeiras comunicações diretas de Campos Neto poderão ficar apenas para o ano que vem, lembrou Solange. Isso porque é possível que o futuro presidente do BC não fale publicamente até sua sabatina no Senado.

Por outro lado, a Continuum Economics, consultoria do economista Nouriel Roubini, em relatório, levantou dúvidas sobre o grau de liberdade de atuação de Campos Neto. “Nossa avaliação inicial é de que Campos seguirá a linha de Paulo Guedes no BC, o que não é a melhor perspectiva para um Banco Central que se espera independente. Vamos esperar pelas indicações dos demais diretores para uma avaliação final”, afirma o texto.

Para Solange, o mercado “não gostou muito” quando, logo depois da eleição de Bolsonaro, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, falou sobre vender “US$ 100 bilhões” de reservas internacionais quando o dólar chegasse a “R$ 5,00”, disse a economista. / VINICIUS NEDER, DENISE ABARCA, BARBARA NASCIMENTO E RICARDO LEOPOLDO

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