Nomeações políticas

Na última segunda-feira Michel Temer anunciou a suspensão de contratações políticas em estatais e fundos de pensão. Três dias depois nomeou o ex-deputado e presidente do PSD Guilherme Campos Júnior para a presidência da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Sai PDT entra PSD na gestão de uma estatal quebrada, que nos últimos três anos apresentou persistentes prejuízos e agora, com o caixa zerado, terá de recorrer a empréstimos bancários para pagar salários dos funcionários. O que esperar de uma empresa que no governo Dilma teve seis diretorias entregues ao PDT, mais três ao PT, PMDB e PCdoB e nenhuma a um gestor profissional qualificado e preocupado em salvar a empresa e não dela tirar lascas para seu partido político? E o que esperar agora com a gestão entregue ao partido do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab? 

Suely Caldas*, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2016 | 05h00

Apresentando-se como protetor de empresas estatais, o governo Dilma vai entrar para a história como impiedoso triturador delas. Conseguiu quebrar a Petrobrás, a Eletrobrás e até os Correios, que atuam em monopólio absoluto, com o mercado inteiro só para eles. A razão principal da quebradeira foi o farto e ruinoso uso das três estatais para atender a dois objetivos de Dilma: 1) Dar alívio à inflação (que seu governo não conseguia controlar) com a redução ou o congelamento de tarifas de combustíveis, energia elétrica e comunicação; e 2) lotear cargos entre partidos aliados em troca de apoio político no Congresso e nas eleições. O resultado está aí: empresas quebradas, destruídas e desmoralizadas por tanta corrupção que a Operação Lava Jato mapeou na Petrobrás, mas com a certeza de que uma investigação séria vai reprovar também as outras. 

Das três a Petrobrás parece estar livre de nomeações políticas. Pelo menos foi a condição imposta por Pedro Parente para aceitar a presidência e até agora respeitada por Temer. A Eletrobrás é hoje uma encrenca gigante, para sobreviver, é indispensável uma gestão profissional competente e com poderes para livrá-la de interferências políticas, que há anos a corroem. 

Riscada dos negócios na Bolsa de Nova York, com dívidas crescentes (só para a Petrobrás deve R$ 13 bilhões pelo fornecimento não pago de gás e óleo combustível), prejuízos seguidos no balanço (desde a luminosa ideia de Dilma de reduzir a tarifa na conta de luz em 2013) e obrigada a engolir distribuidoras do Norte e Nordeste, que ajudam a inflar seu prejuízo, a Eletrobrás ameaça desmoronar. Vai receber agora um socorro de R$ 5 bilhões do Tesouro, para garantir sua sobrevivência. Mas será por pouco tempo, se os 40 cargos de primeiro escalão, dela e de subsidiárias, forem ocupados por indicados políticos viciados em tirar proveito e vantagens financeiras para seus partidos. Se Michel Temer ceder a pressões e entregar aos partidos diretorias de Furnas, Eletronorte, Eletrosul e Chesf, terá de novamente tirar dinheiro da área social para dar um segundo socorro ao Grupo Eletrobrás. 

Empresa estatal não é hospital público nem escola, tampouco presídio alimentados com dinheiro público para servir à população. A função da estatal é vender serviços, faturar, gerar lucros e recolher dividendos aos cofres públicos, não o contrário. Por isso seria inaceitável socorrer também os Correios. Mas 2015 será o terceiro ano seguido de prejuízo bilionário (R$ 2,121 bilhões) de uma empresa que o monopólio deveria garantir lucro certo. Se os Correios terão de recorrer a empréstimos para pagar salários, seu fundo de pensão, o Postalis, acaba de impor sobretaxa a todos os funcionários – ativos e aposentados – para cobrir o rombo acumulado em três anos de corrupção e péssima gestão entregue a políticos e dirigentes sindicais. 

Por último, falta nomear dirigentes para os fundos de pensão de estatais. Como Postalis, Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobrás) e Funcef (Caixa Econômica) acumulam prejuízos que beiram a insolvência, deverão também punir funcionários com sobretaxas. Mas os políticos não desistem, pressionam. Com a palavra, Temer! 

*Jornalista e professora de comunicação da PUC-Rio

(E-mail: sucaldas@terra.com.br

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