Daniel Teixeira/Estadão
Para atrair clientes, novas gestoras querem nomes com grandes significados. Daniel Teixeira/Estadão

Nomes das novas gestoras de recursos dão pistas sobre quem vai cuidar do patrimônio

Repletos de significados pessoais para seus fundadores, nomes dos novos negócios ajudam a criar a identidade e também estabelecem os objetivos das empresas 

Karla Spotorno, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 10h00

Uma tarefa fundamental na criação de uma nova gestora de fundos toma horas de trabalho - quando não tira o sono - de muitos dos novos gestores-empreendedores. Trata-se de definir o nome da gestora. "É mais difícil do que escolher nome para filho. Porque nome de filho dá para repetir. Dá para colocar o mesmo nome de um grande amigo. No caso da gestora, não posso colocar nome igual ao de uma outra asset que admiro muito", diz o sócio da Encore, João Braga, com conhecimento de causa e três filhos.

O nome dá trabalho aos novos empresários, mas também algumas pistas de quem são as pessoas atrás das mesas de operação. Grimper significa escalar em francês, o que, naturalmente, leva à ideia de os retornos subirem aos maiores picos do mundo. Mas o nome da gestora de Sylvio Castro, ex-Credit Suisse, surgiu por outro motivo. "Gosto muito de pedalar. Quando o ciclista ou o montanhista sobe a montanha, o verbo usado em francês é grimper", conta ele, que antes da pandemia participava de provas de ciclismo e agora treina dentro de casa.

A sugestão de escalada do nome da gestora traz um facilitador porque inspira no batismo dos fundos. Os dois que já foram criados são o Blanc, em referência a Mont Blanc, maciço entre a Itália e a França, e o Meru, um dos picos na cadeia do Himalaia. "A Mariam (Dayoub, analista e sócia da Grimper) é montanhista e se identificou com o nome", afirma Castro.

Até aprovar o nome da Greenbay, os sócios levaram meses. Mas definido, entendem que ele reúne valores e conceitos significativos para a gestora. "Um dos sócios trouxe a sugestão e todos gostaram. O nome remete a coisas boas: uma baía, natureza. Também remete a um lugar protegido onde você pode ancorar seu patrimônio", diz o sócio e diretor de investimentos, Gustavo Brotto. Ele conta que os sócios também fizeram uma referência ao time de futebol americano Green Bay. "Fazer o paralelo com uma equipe esportiva profissional, que imprime muito esforço, muita dedicação, no que faz é um paralelo muito legal e muito em linha com nossa cultura", diz Brotto.

A experiência de vida e a carreira dos quatro sócios-fundadores no mundo dos investimentos foi o mote para o batismo da Meraki. "A palavra deriva do grego e significa algo muito intenso, feito com a alma. Isso tem muito a ver com a nossa proposta de construir um negócio feito para toda a vida, que seja perpetuado, com preservação de legado", diz Luiz Goshima, presidente da gestora. Segundo ele, os sócios queriam um nome que resumisse a essência deles e do projeto. "No começo, chegamos a contratar uma consultoria. Mas o nome não surgia", lembra Roberto Reis, ex-Bram e diretor de investimentos da Meraki.

Foi num bate-papo informal que surgiu o nome. Quem trouxe à mesa foi a sócia-investidora Lia Aguiar, acionista do Bradesco, filha de Amador Aguiar e com quem Goshima trabalha há muitos anos. "A dona Lia é uma pessoa que viajou o mundo inteiro. Gosta de buscar novos termos, pesquisar os significados", afirma Goshima.

Na Encore, o processo também teve muita pesquisa, idas e vindas até que, num happy hour pelo Zoom, veio a sugestão. A palavra encore significa repetir e, em shows, é o momento do "bis", ou repetição de algum grande sucesso. "Gosto muito de música. E encore é o ato final, o melhor momento de um show", conta Braga, um beatlemaníaco e músico amador.

"Queremos que a Encore tenha 'turnover' zero. Ou seja, (queremos) que a Encore possa ser o 'ato final' de quem está aqui. A conotação de repetir também tem a ver com um dos diferenciais que queremos ter, que é processo. Depois de criar um processo bom, o que se faz? Repete, faz de novo, e de novo, de novo." Foi assim, repensando, recompondo, revisando que os novos empresários conseguiram nomear suas novas casas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Gestoras de recursos vivem 'boom', com 27 novos negócios apenas neste ano

Resultado representa quase a metade do visto em 2020, quando 59 novas gestoras foram abertas; para especialistas, juros baixos e a busca dos investidores por diversificação nas carteiras ajudam o setor

Karla Spotorno, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 10h00

Em plena pandemia, a indústria de fundos vive um "boom", induzido por fatores que envolvem desde o baixo custo de oportunidade até o aumento de reservas de investidores. O cenário favoreceu profissionais que, em meio a questões pessoais, deixaram tesourarias e gestoras para "empreender", mesmo diante da piora nas projeções de PIB e da confiança dos empresários, além de turbulências políticas. Somente de janeiro a março, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) já registrou 27 novas gestoras, ou quase a metade do resultado de um 2020 já bastante profícuo, com 59 novas casas.

"O Brasil está passando por uma revolução na área de investimentos em que as pessoas buscam gestoras independentes, bancos digitais, e que entendemos como um caminho sem volta", diz Roberto Reis, ex-Bram, sócio e CIO da Meraki Capital Asset Management. A gestora nasceu com R$ 1,3 bilhão sob gestão.

As gestoras de nicho crescem de forma acelerada desde 2017. Em três anos, o ranking da Anbima ganhou cem novos nomes, o mesmo número de gestoras que surgiram em cinco anos, entre 2011 e 2016. Segundo o diretor da associação, Pedro Rudge, a quantidade de investidores em busca de novas de estratégias e da diversificação de investimentos, em meio a juros baixos, favorece a expansão.

A  Selic até está em elevação, mas a avaliação é de que deve continuar em um dígito por muitos anos. Além disso, a bancarização ganhou um impulso, em meio à familiarização com bancos digitais e plataformas de investimentos forçada pela exigência do isolamento social contra a covid-19. As restrições, aliás, impediram gastos da parcela mais endinheirada da sociedade na mesma proporção que o de costume, por exemplo, com serviços, desde o início da pandemia há mais de um ano. Basta ver a captação líquida da indústria de fundos em 2021, comparada à de 2020, quando a Anbima registrou o terceiro maior saldo líquido (captações menos resgates) da série histórica (iniciada em 2002).

"O que diferencia uma gestora da outra é a estratégia e a execução, feitas por pessoas. E o investidor busca mais especialização e conhecimento do que propriamente uma placa (com o nome de uma grande empresa)", diz Rudge, da Anbima. "Nesse mundo de fácil acesso à informação, fica mais fácil de o gestor expor o que faz. Se o investidor gostar, investir é igualmente fácil. Basta ele apertar um botão na plataforma (de investimentos) e comprar uma cota", emenda o diretor da entidade, que não contava com a facilidade da atual forma de distribuição de produtos financeiros - via supermercados e canais digitais - quando montou a Leblon Equities, em 2008.

Em alguns casos, as condições externas somaram-se a questões pessoais. Sócio-fundador da Grimper, Sylvio Castro, ex-Credit Suisse, conta que, por anos, atuou como alocador, selecionando fundos para a prateleira do private banking do banco suíço e também como diretor de investimentos. "Sonhava há muito tempo em montar minha gestora. Minha questão não era 'se', mas 'quando' tomar essa decisão." Ele saiu do Credit no ano passado.

Novas tecnologias

O isolamento social também gerou um resultado interessante. Gustavo Brotto, ex-Santander, sócio-fundador e gestor da Greenbay, cujo fundo começou em 30 de abril, lembra que a infraestrutura de tecnologia e segurança da informação foi toda pensada para o trabalho remoto. "Na gestora, todo mundo tem notebook. O servidor (fica) na 'nuvem'. Temos VPN, acesso à rede remotamente", diz.

Em março e abril, quando os números da pandemia pioraram, quase 100% da equipe da gestora ficou em home office. "Foi interessante até para testarmos toda essa estrutura. Percebemos que estamos preparados para qualquer contingência", conclui o diretor da Greenbay, que deve manter pouco mais da metade da equipe em casa nos próximos meses.

Na nova safra de gestoras, uma aposta comum indica tendência no futuro próximo: a contratação de cientistas de dados. Esses analistas buscam formar novas bases de dados e também estudar o que já existe para extrair informação relevante e traçar cenários, ou mesmo apontar bons negócios no curto prazo. "O que queremos é combinar a análise fundamentalista com os dados para dar suporte para as decisões de gestão", diz Castro, da Grimper, que contratou quatro cientistas de dados.

Na Encore, o sócio e gestor João Braga, ex-XP, e os sócios nutrem grande expectativa com a área que une análise quantitativa e fundamentalista e conta com três analistas. "Logo que formamos a equipe, imaginei que poderiam surgir ideias no início. Mas os primeiros dois meses serviram para montar a arquitetura da captação de dados", diz, pontuando que uma entrada errada ou falha de apenas um dia compromete todo o resultado.

Oportunidades

Entre os novos nomes, a MOS Capital está longe de ser uma gestora recém-fundada. Antiga Teorema, é um caso de reinvenção em plena pandemia. A empresa, fundada em 2007 pela família de Guilherme Affonso Ferreira, ex-Unibanco, foi transformada em uma parceria e, assim, atraiu especialistas seniores para diferentes áreas, como comercial e análise, que se tornaram sócios da nova gestora.

Como Teorema, os Affonso Ferreira acumulavam a maior parte da propriedade da gestora, com 80% do capital, além de ter a maior parte dos recursos. "Era uma estrutura pouco usual no mercado. Apesar de ser o gestor, eu era minoritário. Havendo alguma divergência na gestão, eu poderia ser destituído", conta Fernando Fanchin, sócio e diretor de investimentos da MOS, desde 2016 à frente dos fundos da gestora, especializada no mercado de ações.

Fanchin relata que a pandemia e a alta volatilidade do mercado de ações no Brasil e no mundo não foram barreira para o lançamento da nova marca da gestora. "Em 2020, inclusive, vimos entrada de dinheiro na Bolsa, o que continua nesse ano. Acreditamos que a demanda por renda variável vai continuar crescendo", diz o gestor da MOS, com R$ 350 milhões e pronto para lançar dois novos fundos, um institucional e outro de previdência.

As condições que permitiram a criação mais acelerada de novas gestoras, assim como o surgimento de mais gestores certificados, porém, não foram o motivo principal para o lançamento de algumas casas. A Meraki, que tem como sócia-investidora Lia Aguiar, filha do fundador do Bradesco, Amador Aguiar, envolve um projeto de vida. "Não é porque todo mundo está lançando uma gestora, aproveitando uma oportunidade, que decidimos lançar também", diz Luiz Goshima. "Não estamos fazendo um trade. É um projeto de vida, algo sobre o que conversávamos há muitos anos", completa o sócio, Roberto Reis.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.