Norte-americanos entram na 'dieta da recessão' e cortam gastos

Consumidores estão cortando gastos rotineiros, optando por marcas mais baratas e por fazer refeições em casa

Michael Barbaro e Eric Dash, do The New York Times,

28 de abril de 2008 | 16h58

Atingidos pelos preços crescentes dos alimentos e gasolina, os norte-americanos estão encontrando maneiras criativas de cortar gastos com itens rotineiros como supermercado e roupas, o que está forçando varejistas, restaurantes e manufatureiros a decodificar os gostos de um público repentinamente econômico.  Veja também:Cronologia da crise financeira  Entenda a crise nos Estados Unidos   Dados sobre o consumo ao redor dos Estados Unidos mostram que consumidores das classes média e baixa estão começando a optar por alternativas mais baratas, deixando as marcas conhecidas de lado, preferindo comer em casa ao invés de ir a restaurantes e voando em horários pouco comuns para economizar nas tarifas aéreas.  Apesar de parecerem pequenas, essas trocas diárias que eles estão fazendo - mais pasta e menos carne vermelha, mais aluguel de filmes e menos cinema - estão se juntando em uma importante alteração nos padrões de consumo. Em Ohio, Holly Levitsky está substituindo o cereal Lucky Charms em sua cozinha pelo Millville Marshmallows and Stars, marca bem mais em conta. Em New Hampshire, George Goulet não reserva mais quartos de hotel no Hilton, optando pelo Hampton, que tem um custo menor. E em Michigan, Jennifer Olden está comprando o sabão em pó Gain no lugar do mais caro Tide. Por trás do aperto de cintos - e da troca de rótulos - está a colisão de uma série de fatores econômicos que estão espremendo os orçamentos ou, pelo menos, deixando as pessoas com pouca vontade de ostentação. O preço dos produtos básicos subiram, com o galão de leite chegando a US$ 4 em muitas lojas e a gasolina atingindo US$ 3,60 o galão ao redor dos EUA. Os preços de imóveis estão caindo, os salários estagnados, as perdas de empregos estão crescendo e o índice S&P 500, conhecido por medir a performance do mercado financeiro, acumula queda de 6% no último ano. Assim, os consumidores estão entrando em uma dieta de recessão. Burt Flickinger, especialista em varejo, afirmou que a última vez em que viu mudanças tão significativas nos padrões de consumo foi no final da década de 70, quando a inflação levou os americanos a "trocar a carne vermelha para a suína, depois para o frango e enfim para a pasta - e depois disso para a manteiga de amendoim e geléia."  "Ainda não chegou ao ponto de misturar comida de humanos com comida para animais", ele disse, "mas certamente está caminhando para esta direção". Os números de vendas no varejo e pesquisas de consumo confirmam que os norte-americanos estão estrategicamente cortando custos, seja com o café ou passagens aéreas. Em março, os americanos gastaram menos com roupas femininas (queda de 4,9%), móveis (-3,1%), bens de luxo (-1,3%) e passagens aéreas (-1,1%) na comparação com o ano anterior, de acordo com o MasterCard SpendingPulse, um serviço da companhia de cartões de crédito que mede os gastos de 300 milhões de seus cartões e estima as despesas em outros cartões, dinheiro e cheques. O hipermercado Wal-Mart registrou vendas mais fortes que as usuais de manteiga de amendoim e spaghetti, enquanto restaurantes como Domino's Pizza e Ruby Tuesday sofreram uma redução de pedidos, sugerindo que muitos norte-americanos estão preferindo refeições de baixo custo feitas em casa. Ao longo do ano passado, a procura por biscoitos e bolachas de marcas famosas caíram, de acordo com o Information Resources, que registra as vendas no varejo. As vendas de biscoitos Nabisco caíram 7,5%, e a de bolachas Keebler Fudge Shoppe tiveram redução de 12,3%. Nem a cerveja está imune à queda. As vendas de bebidas baratas, como Keystone Light, estão em alta; já as das importadas, mais caras, como a Corona Extra, estão em baixa. Algumas pessoas estão simplesmente deixando de beber. O número de pessoas que pedem bebidas alcoólicas caiu para 31% no mês passado, contra 42% no mesmo período do ano passado, de acordo com uma pesquisa com 2.500 pessoas conduzida pela consultoria Technomic. "As pessoas começaram a substituir despesas como se estivéssemos em recessão", disse Michael McNamara, vice-presidente de pesquisa e análise da Mastercard.  Porém, os problemas econômicos não foram ruins para todas as categorias de produtos. As vendas de eletrônicos caros, como televisores de tela plana de US$ 1 mil e videogames de US$ 300, estão em alta, de acordo com varejistas e institutos de pesquisa.  Os preços em queda desses aparelhos e o prazo do governo para a conversão para a TV digital ajudaram. Assim como a idéia, razoável ou não, de que a tecnologia é um bom investimento. Em uma loja Best Buy em Southfield, James Szekely, um engenheiro mecânico de 28 anos, estava comprando um grande televisor de alta definição, que ele acreditava que custaria pelo menos US$ 2 mil, uma despesa que ele racionalizou porque "pelo menos poderemos assistir a filmes em casa". Muitos varejistas estão se esforçando para ajustar-se às novas necessidades. As vendas de roupas começaram a diminuir em lojas de departamento como Macy's, Kohl's e J.C. Penney. Assim como as vendas de móveis em companhias como Bombay e Domain. Os consumidores estão cortando alguns vícios. A Starbucks está registrando uma queda na procura, e as vendas caíram em redes de restaurantes, como Ruth's Chris e Morton's. Para dar uma animada nos negócios, a Domino's Pizza está oferecendo uma nova promoção: três pizzas grandes por US$ 4 cada. Nós não somos à prova de recessão", afirmou o presidente da cadeia, J. Patrick Doyle. Mas redes que enfatizam os preços baixos, como TJ Maxx e Wal-Mart, estão crescendo. E supermercados baratos, como Save-A-Lot, estão lotados. "Não é que as pessoas não estejam gasntando, elas estão apenas mudando a forma como gastam", disse Marshal Cohen, analista-chefe do NPD Group.

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