Nos debates, otimismo latino-americano ficou evidente

Enquanto países ricos tentam se recuperar da crise, emergentes comemoram o fim das missões do FMI

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / DAVOS

América Latina vai bem e tem enormes oportunidades para explorar nesta década, se não esquecer as lições dos anos 90 e levar adiante a pauta de reformas. O mundo rico tenta juntar os cacos deixados pela crise e ensaia uma recuperação difícil, os governos estão superendividados, as contas públicas estouradas e o desemprego alto. O contraste ficou evidente mais uma vez nas discussões de ontem do Fórum Econômico Mundial

A reativação nas economias desenvolvidas deve continuar, "mas não é excitante", disse Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Num debate sobre a recuperação econômica, ele insistiu na importância do ajuste fiscal nos países com grandes déficits e dívidas públicas.

Todos os participantes reconheceram as dificuldades na criação de empregos. Nem os empresários têm segurança para investir e contratar, nem os consumidores têm tranquilidade para voltar às compras.

O bom estado de espírito dos latino-americanos foi resumido pelo uruguaio Enrique Iglesias. Encarregado da Secretaria-geral Ibero-americana, na Espanha, ele comandou a Cepal durante 16 anos e passou outros 16 como presidente do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID). "Antes vínhamos aqui para dar explicações sobre problemas", disse Iglesias. "Mudamos. Hoje temos mais democracia, menos missões do Fundo Monetário Internacional e menos moratórias."

A sessão sobre a América Latina foi conduzida pelo economista venezuelano Ricardo Hausmann, professor de Harvard. No ano passado, num almoço para discussão a respeito do Brasil, ele criticou a política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, especialmente, o apoio ao presidente Hugo Chávez.

Outro venezuelano, Moises Naim, editor da revista Foreign Policy, também radicado nos EUA e crítico do governo bolivariano, participou da reunião de ontem. Segundo ele, só 10% dos latino-americanos deixaram de aprender as lições das crises dos anos 90 e as políticas ainda aplicadas pelos 10% confirmam a importância das lições. Os erros cometidos por essa gente resultam de uma doença descrita por Naim como necrofilia ideológica, a paixão por ideias mortas.

O executivo-chefe do Itaú, Ricardo Villela Marino, resumiu as principais transformações econômicas do Brasil mostrando a evolução dos índices de preços, das taxas de juros, do crescimento econômico, da inclusão social e da desigualdade de renda. Chamou a atenção para os desafios à frente e deu ênfase às deficiências da educação, um ponto acentuado por todos os demais na avaliação das perspectivas latino-americanas.

O tom geral de otimismo apareceu até nas declarações do empresário venezuelano Ricardo Mendoza, do Grupo Polar, um dos maiores do país. Descontente com Hugo Chávez, ele aponta no resultado das últimas eleições, com bom desempenho da oposição, um motivo para acreditar na reabilitação das práticas democráticas.

Iglesias mostrou confiança na manutenção das políticas de responsabilidade fiscal e monetária e na preservação da democracia na maior parte da região. Mencionou de forma especial a evolução da política boliviana, uma experiência de sucesso, segundo ele, na superação de velhos conflitos étnicos.

Hausmann e Naim manifestaram boas expectativas em relação ao governo da presidente Dilma Rousseff. Ela precisará, segundo Hausmann, melhorar a política fiscal, muito frouxa no fim do governo anterior, e tirar parte do peso suportado pela política monetária.

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