Nos EUA, 909 autores contra a Amazon

Grupo critica retaliação da Amazon, com atraso na entrega e bloqueio de encomendas

DAVID STREITFELD, THE NEW YORK TIMES

11 de agosto de 2014 | 02h04

No fim de duas estradas de terra, numa cabana onde há uma imagem do Dalai Lama, uma linha de transmissão de dados de alta velocidade e uma cópia da 'Desobediência Civil', de Thoreau, o sonho de dominar o mundo editorial da Amazon esbarrou em problemas.

Douglas Preston, que costuma passar as férias de verão na cabana, é um escritor de best-sellers - ou foi, até que a Amazon decidiu desencorajar os leitores a comprar livros de sua editora, a Hachette, a fim de pressioná-la a oferecer à loja online um acordo melhor para livros eletrônicos. Diante disso, ele escreveu uma carta aberta aos seus leitores pedindo que entrassem em contato com Jeff Bezos, o diretor executivo da Amazon, exigindo que a empresa pare de tornar os escritores reféns de seus negócios.

A carta, escrita na cabana, espalhou-se pela comunidade literária. No início desta semana, 909 escritores a assinaram, inclusive nomes familiares como John Grisham e Stephen King. O manifesto foi publicado, ontem, numa página inteira no New York Times.

A Amazon, aborrecida com a decisão de um grupo que costumava ser um de seus maiores fãs, respondeu com um ataque a Preston, chamando o escritor de romances de suspense, de 58 anos, de "presunçoso" e "oportunista", tentando ao mesmo tempo convencê-lo e a seus colegas insatisfeitos a se calarem. Preston não se abalou.

"Jeff Bezos usou os livros como instrumento para ajudar a vender tudo, de cabos para computadores a cortadores de grama; foi uma ideia brilhante", disse. "Agora, a Amazon nos deu as costas. Ela não poderia nos dar mais valor? É por isso que os autores estão enlouquecidos".

O estardalhaço é o mais recente na batalha que a Amazon trava há três meses com a Hachette. O impasse gira em torno das porcentagens entre o vendedor e o editor dos livros. Sem acordo, a Amazon tomou uma série de medidas, como atrasar o envio, subir o preço ou retirar o botão de pré-venda para os volumes da editora, afetando autores tão conhecidos como J.K. Rowling.

O momento é delicado para a gigante da internet, prestes a se transformar rapidamente num império que não só vende cultura, como também a cria.

A Amazon não quer ser vista como uma entidade hostil aos criadores de conteúdo, um dos quatro grupos que, segundo o que ela divulga na página da rede sobre suas relações com os investidores, teria sido criado expressamente para servir. Mas também precisa vender a preços baratos as criações de seus autores de modo a atrair multidões de consumidores, e lucrar para satisfazer investidores.

É uma situação difícil. Para alguns, até mesmo impossível. A Amazon acaba de surpreender Wall Street anunciando que, neste trimestre, poderá perder mais de US$ 800 milhões, anulando potencialmente o lucro dos últimos três anos, em parte porque a criação de conteúdo de vídeo é cara.

Ataque. Indagada sobre a rebelião dos escritores, a Amazon emitiu um comunicado que chamou novamente a atenção para a Hachette, no qual lembra a ação judicial movida pelo Departamento de Justiça contra essa e outras editoras em 2012: "Inicialmente, a Hachette estava disposta a infringir a lei para vender e-books a preços mais elevados, agora ela quer manter seus próprios autores na linha de fogo para atingir o mesmo fim. A Amazon apresentou três propostas diferentes para tirar os autores da jogada, o que a Hachette negou imediatamente".

Segundo Preston, foi a Amazon que colocou os escritores na linha de fogo. Russell Grandinett, vice-presidente da Amazon para o setor de e-books, chamou Preston duas vezes nas últimas semanas, para tentar convencê-lo a endossar as propostas da companhia para solucionar a disputa por meio de um acordo, e também se calar. De acordo com a última proposta, a Amazon passaria a vender livros da Hachette novamente, mas tanto a editora como a loja online transfeririam o lucro obtido para instituições de caridade. Preston não aceitou.

Ele rebateu insinuações da Amazon de que é "escudo humano" da Hachette, uma das cinco grandes editoras nos Estados Unidos. Ele e os demais escritores afirmam estar agindo de maneira independente. Muitos, de qualquer maneira, não têm obras publicadas pela Hachette. Preston não sabe ao certo como acabou liderando um grupo que se denomina Authors United (Autores Unidos).

Entre outros escritores que assinaram a carta estão Robert A. Caro, Junot Díaz, Malcom Gladwell, Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), Michael Lewis, Jon Krakauer, Scott Turow, George Saunders, Sebastian Junger, Philip Pullman e Nora Roberts. "Nenhum livreiro deve bloquear a venda de livros, impedir ou desencorajar os clientes de encomendar ou receber os livros que desejam", diz a carta.

A publicação dessa carta no New York Times custou US$ 104 mil pagos por um grupo de escritores mais bem sucedidos. Lincoln Child, com quem Preston escreve em coautoria, está apreensivo. "Nem todas as histórias de Davi e Golias acabam bem para o jovem", disse.

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