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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

Nos EUA, a classe média perde espaço

Depois da recessão, as empresas voltadas para essa fatia da sociedade encolhem; já os negócios de luxo prosperam

Nelson D. Schwartz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2014 | 02h04

Em Manhattan, a luxuosa cadeia de lojas de roupas Barneys substituirá a cadeia de descontos Loehmann, cuja loja em Chelsea fechará as portas dentro de algumas semanas. Em todo o país, os restaurantes das redes Olive Garden e Red Lobster enfrentam dificuldades, mas, nas cadeias mais sofisticadas do setor, como a Capital Grille, os negócios vão de vento em popa. E na General Electric, o aumento da demanda de lava-louças e geladeiras mais caras supera em muito o aumento das vendas dos modelos do mercado de massa.

Enquanto os políticos e os especialistas em Washington continuam brigando para decidir se a desigualdade econômica está se intensificando, no setor privado dos Estados Unidos não há debate algum. Depois da recessão, a realidade é que a clientela de empresas que são voltadas para a classe média está encolhendo. Mas, lá no topo, os negócios estão cada vez mais prósperos.

Se houver dúvidas, a rapidez com que as companhias se adaptam ao novo panorama dos consumidores constitui uma prova extremamente convincente. Nas principais empresas de consultoria e entre os analistas de Wall Street, essa mudança está sendo definida com uma franqueza mais típica dos acadêmicos da esquerda do que dos especialistas em economia.

"Os consumidores que possuem capital, como propriedades imobiliárias e ações, e pertencem aos 20% mais ricos da sociedade estão indo muito bem", afirma John G. Maxwell, diretor de varejo global e hábitos de consumo da PricewaterhouseCoopers.

Diante da tendência ao aumento dos gastos, clientes da PricewaterhouseCoopers, como as grandes lojas e os restaurantes, procuram atrair clientes mais abonados ampliando sua oferta de bens e serviços mais caros, ou adotam preços muito baixos a fim de atrair a massa cada vez maior de consumidores preocupados com os gastos. "Se uma cadeia de lojas ou de restaurantes não se enquadrar realmente no patamar mais alto ou no baixo, terá problemas", disse Maxwell.

Renda. Embora os dados sobre o consumo sejam menos rapidamente acessíveis do que os que mostram uma distinção comparável no aumento da renda, recentes pesquisas dos economistas Steven Fazzari, da Washington University de St. Louis, e Barry Cynamon, do Federal Reserve Bank de St. Louis, respaldam o que já é evidente no mercado: em 2012, os 5% dos americanos de renda mais elevada eram responsáveis por 38% do consumo interno, em comparação com 28% em 1995.

Mais impressionante é o fato de que a atual recuperação se restringe quase totalmente à camada mais rica da população, segundo os pesquisadores. Desde 2009, os gastos corrigidos pela inflação dessa camada subiram 17%, em comparação com apenas 1% para os 95% na base.

Em termos mais amplos, cerca de 90% do aumento geral do consumo corrigido pela inflação entre 2009 e 2012 foi gerado pelos 20% das famílias de renda mais alta, mostrou o estudo, patrocinado pelo Institute for New Economic Thinking, um grupo de pesquisa em Nova York.

Os efeitos deste fenômeno agora se expandem sucessivamente por todos os setores da economia americana, do comércio aos restaurantes e hotéis, cassinos e até mesmo fabricantes de eletrodomésticos. Por exemplo, luxuosas casas de jogo de Las Vegas, como Wynn e Venetian, estão faturando alto, atraindo apostadores mais ricos do que os cassinos regionais de Atlantic City, do norte do estado de Nova York e de Connecticut, cuja clientela é menos abastada e, portanto, não aposta tanto, disse Steven Kent, analista da Goldman Sachs.

Enquanto os gastos dos mais ricos impulsionam hoje a economia, a cisão cada vez maior está preocupando, segundo Fazzari. "Será difícil manter uma forte expansão econômica com uma proporção tão grande da população que não acompanha este crescimento", afirmou. "Talvez possamos seguir em frente de qualquer modo, mas, conseguiremos nos recuperar?"

Fazzari disse também que, a dependência de uma fatia rica relativamente reduzida da população para impulsionar a demanda torna a economia mais instável, porque este grupo costuma fazer gastos mais supérfluos que podem provocar a alta ou a baixa do mercado acionário, ou acompanhar as oscilações dos preços dos imóveis. A procura de Wall Street nos últimos anos só intensificou essas tendências, segundo Guy Berger, economista da RBS. Ele calcula que 50% dos americanos não participam efetivamente da alta da Bolsa, mesmo levando em conta os planos de previdência privada.

Embora os super ricos recebam grande parte da atenção, a maioria das companhias cria estratégias para uma fatia mais ampla de consumidores abastados. Na GE Appliances, por exemplo, a marca que mais cresce é a linha Café, que visa os 25% top do mercado, com refrigeradores que custam entre US$ 1,7 mil e US$ 3 mil. "Esta é uma pessoa disposta a pagar pelas novidades", diz Brian McWaters, gerente geral da divisão de eletrodomésticos da GE.

Para os americanos comuns, a divisão é ainda mais acentuada. A Sears e a J.C. Penney, varejistas cujos produtos se destinam principalmente ao americano médio, estão em maus lençóis. No mês passado, a Sears anunciou o fechamento de sua loja mais famosa em State Street, Chicago, e a J.C. Penney informou que fechará 33 lojas e demitirá 2 mil funcionários.

A Loehmann, onde gerações de consumidores de classe média buscaram produtos de marca em promoção na famosa Back Room, está sendo liquidada após pedir três concordata desde 1999. A loja Loehmann's em Chelsea, assim como as outras 39 em todo o país, deixará de operar assim que os últimos itens forem vendidos. Já a Barneys de Nova York, que começou no mesmo lugar em 1923, antes de se mudar para um local mais luxuoso em Madison Avenue, há 20 anos, pretende reabrir uma loja no local em 2017.

Investimentos. Os investidores estão de olho na redução da faixa média de consumidores. As ações da Sears e da J.C. Penney caíram mais de 50% desde o final de 2009, enquanto lojas para faixas mais elevadas de consumidores, como a Nordstrom, e cadeias de preço baixo como Dollar Tree e Family Dollar Stores, mais que dobraram de valor no mesmo período.

Evidentemente, a concorrência de gigantes online, como a Amazon, só contribuiu para aumentar os problemas dos varejistas da linha antiga. Mas as mudanças no setor de restaurantes mostram que os efeitos do aumento da desigualdade são de amplo alcance.

Uma mudança de rumo no Darden, que se define como o maior proprietário de restaurantes do mundo, reflete isso. O número de clientes que estão a pé e costumam frequentar casas médias, menos sofisticadas como Red Lobster e Olive Garden, caiu em todos os trimestres menos um desde 2005, segundo John Glass, analista do setor da Morgan Stanley. Com frequentadores que pagam em média US$ 16,50 por pessoa no Olive Garden, afirmou Glass: "São clientes de classe média. Não são ricos. Nem pobres".

Com o crescimento da renda estagnado e o aumento dos preços de itens indispensáveis, como saúde e educação, acrescentou: "Estão economizando". Por outro lado, na Capital Grille, uma cadeia da Darden para clientes mais ricos, onde o gasto médio por pessoa é cerca de US$ 71, as contas subiram em média 5% ao ano nos últimos três anos. Agora, os investidores pressionam a administração da Darden a desmembrar a empresa e criar uma outra com casas voltadas para o público mais rico.

 

(Tradução de Anna Capovilla)

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