Joe Carrotta/The New York Times
Joe Carrotta/The New York Times

Nos EUA, idosos são a última moda nas universidades

Comunidades de idosos anexas aos campi são oportunidade para troca de experiência entre gerações – e também nova fonte de receita

Anemona Hartocollis , THE NEW YORK TIMES 

15 de setembro de 2019 | 05h00

A faculdade é um lugar para fugir da vigilância paterna no caso de muitos dos que estão ingressando. Mas uma tendência cada vez mais observada hoje – criar uma comunidade para aposentados perto das repúblicas onde vivem os alunos – pode um dia levar os estudantes a perguntarem: “É uma vovó que está por ali no pátio?”.

Mary Jane Karger e seu marido, ambos com 74 anos, fizeram um depósito de 10% num lar de idosos a ser construído num espaço de 16 hectares dentro dos 202 hectares do câmpus do Purchase College, uma antiga fazenda de gado que hoje pertence à Universidade Estadual de Nova York. 

A compra faz parte de um crescente número de universidades que vêm patrocinando comunidades para idosos aposentados no seu campus, ou têm projetos neste sentido. É o sonho de um comerciante, transformar terra ociosa em dinheiro e ao mesmo tempo explorar a riqueza da geração do baby boom respondendo à sua obsessão de permanecer jovem para sempre. 

“Não sei quantos alunos adolescentes ou pessoas nos seus 20 anos querem conversar com pessoas de 70 anos”, disse Mary Jane, assistente social escolar aposentada que planeja vivenciar “a maneira de pensar” dos mais jovens. 

As escolas dizem que sua motivação é mais educacional e social – encorajar uma fusão de gerações – do que financeira. Mas essas novas comunidades prometem um novo fluxo de receita para as instituições, que vêm sofrendo com o apoio reduzido do Estado e uma queda no número de matrículas em muitas partes do país. 

Elas estão trazendo uma nova geração (ou velha geração) para os câmpus para encher as salas de aula, comer nos restaurantes dos alunos, assistir a performances estudantis e se tornarem mentores. 

“Leve em conta a questão demográfica, as dívidas e atrasos de mensalidades e como os Estados estão reduzindo o financiamento para o ensino superior”, disse Tom Schwarz, que se aposentou recentemente como presidente do Purchase College. “O resultado é que as mensalidades estão mais caras, a necessidade de bolsas aumentou. Tudo se encaixa.” 

Os aposentados que se dizem felizes em viver nos câmpus, ao lado de alunos e membros da faculdade, podem se tornar uma fonte muito fértil de arrecadação de recursos. “Não esperamos que 100% das pessoas contribuam, mas de certo modo eles já contribuem apenas vivendo aqui”, disse Schwarz. 

Controvérsias

Muitos alunos têm reações contraditórias quanto a compartilhar seus anos de faculdade com pessoas que lembram seus pais e avós, de cuja órbita eles conseguiram escapar. 

Anton Creutzfeldt, que acabou de ingressar no Purchase College, disse se preocupar que esse público faça objeção ao barulho e às festas até tarde da noite. “É uma ideia interessante, mas já temos problema ao sentirmos o campus como se fosse uma escola, porque não há muito espaço para recreação”, disse ele. 

Creutzfeldt disse que participou de aulas com pessoas idosas e a presença delas deixou o clima pesado. “Obviamente uma pessoa mais velha assistindo à aula não está preocupada se vai passar nos exames ou não. Elas estão ali por mero prazer, ou porque desejam aprender. O que cria uma diferença no objetivo da aula. Uma pessoa mais idosa vai discutir assuntos não relevantes porque interessa a elas ou sobre os quais têm mais experiência, ao passo que os outros estão tentando chegar ao fim da aula.”

O casal Karger, por outro lado, resiste ao estereótipo de velhinhos. E diz que as razões de estarem se mudando para o Purchase College, e não para Miami, é por gostarem de dormir tarde e de festas. Mary Jane Karger acha que os outros moradores também serão assim. “São mais avançados, e não do tipo que vai para a Flórida e acorda cedo”, disse ela. 

A comunidade para idosos em Purchase deve ficar pronta em três anos e acolher pessoas com mais de 62 anos. A idade média dos que já fizeram depósitos para garantir uma vaga no futuro é de 77 anos. O complexo contará inicialmente com 220 apartamentos e casas, e mais uma ala para cuidados assistenciais e para pessoas com perda de memória. E poderá ser ampliado para 385 unidades.

A Universidade Estadual do Arizona vem trabalhando num projeto similar que deve ser inaugurado no próximo ano. Os 252 apartamentos do prédio já estão quase todos vendidos. Outras faculdades estão seguindo o exemplo. A Kendal, organização sem fins lucrativos que respalda uma rede de comunidades de idosos aposentados, está em negociação com a Universidade da Pensilvânia e outra instituição para criar uma dessas comunidades no, disse Larry Elvleru, porta-voz da Kendal. 

‘Alunos vitalícios’. O marketing desses projetos foca o ângulo acadêmico. Autoridades do Estado do Arizona evitam a palavra aposentado, preferindo falar de “alunos vitalícios independentes” Os administradores imaginam uma via mão dupla em que as pessoas mais velhas, com experiência como médicos, advogados ou músicos, se tornem mentores dos alunos, e estes usem a comunidade de idosos como laboratório para estágio em áreas como gerontologia ou terapia com arte. 

Para incentivar esse intercâmbio entre gerações, Arizona está adotando o modelo de Yang, convidando alguns alunos de artes cênicas para viverem gratuitamente no mesmo prédio de apartamentos dos idosos em troca de compartilharem seus talentos com os moradores. “Achamos que há muita coisa a se aprender no tocante à população que envelhece no mundo de hoje e como as pessoas querem continuar a aprender durante toda a sua vida”, disse Todd Hardy, diretor da área de zonas de inovação no Estado do Arizona. 

No Lasell Village, criado em 2000, os moradores vivem em 16 prédios interconectados a um câmpus universitário. As casas têm nomes de educadores como Margaret Mead e John Dewey. Os moradores têm de assistir a aulas, com o custo incluído na taxa mensal que pagam. Um dos cursos mais concorridos neste outono é o de justiça social, cujo número de matriculados é de metade de alunos e metade de moradores da comunidade. 

Esses lares de idosos, por seu lado, proporcionam estágios e emprego para estudantes e também uma renda para a universidade decorrente do aluguel e pagamento de serviços de apoio como tecnologia da informação e segurança. 

O Purchase e o Estado do Arizona fornecerão um cartão de identidade de aluno para os moradores idosos e estão estudando detalhes de como oferecer a eles as comodidades e serviços dos câmpus. O Legislativo de Nova York aprovou em 2011 o arrendamento de longo prazo de um terreno do Estado para o projeto, e o Purchase College criou uma organização sem fins lucrativos para desenvolvê-lo com uma incorporadora, a um custo projetado de US$ 320 milhões. 

Custo. As autoridades esperam obter uma renda anual de base de US$ 2 milhões com os aluguéis que serão usados para financiar as bolsas de estudo e contratar novos professores. A “entrada” cobrada pelo Purchase College vai de US$ 595 mil por um apartamento a quase US$ 2 milhões por uma pequena casa. As taxas mensais de serviço vão de US$ 4,3 mil a US$ 8,7 mil por morador e mais US$ 1,5 mil no caso de uma segunda pessoa. 

Se a unidade não for usada, 90% da entrada é devolvida ao morador ou a seus herdeiros. Um quinto das unidades será reservado que ganham menos de 80% da renda média do Condado de Westchester. Nesse caso, o valor de entrada começa em US$ 250 mil. 

No projeto do Estado do Arizona, chamado Mirabella, os preços variam de US$ 300 mil a mais de US$ 1 milhão – valor do apartamento de cobertura. Judy Cohen, 82 anos, professora de inglês aposentada, e o marido Martin, 84 anos, cardiologista, se perguntam se seriam bem recebidos pelos estudantes. “Eles têm a própria vida. Não sei quantos chegariam até você e conversariam com...”. Ele silenciou, mas sua mulher concluiu a frase: “Gente velha”, disse ela. “Vamos falar de forma clara”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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