R$ 1,57 bi

E-Investidor: Tesouro Direto atrai mais jovens e bate recorde de captação

Nos EUA, o avanço das favelas

Como gerente operacional de um centro para a população desabrigada, Paul Stack manteve contato com pessoas em dificuldades. O que nunca tinha visto antes eram pessoas vivendo em barracas, num terreno perto da rodovia que leva ao centro. "Eles apareceram por aqui há uns 18 meses", disse Stack. "Um dia tudo estava vazio. No dia seguinte, as pessoas estavam vivendo ali". Como uma dezena de outras cidades pelo país, Fresno, na Califórnia, está às voltas com um funesto"déjà vu": a chegada das Hooverville modernas, os acampamentos ilegais formados por pessoas sem ter onde morar, uma reminiscência, em escala menor, das favelas que proliferaram na época da Depressão. Durante coletiva de imprensa na terça-feira, o presidente Barack Obama foi questionado diretamente sobre essas cidades-acampamento, e respondeu dizendo que não "se pode aceitar que crianças e famílias vivam sem um teto num país tão rico como o nosso". Embora os acampamentos e pessoas que vivem na rua já façam parte da paisagem de grandes cidades como Los Angeles e Nova York, essas novas áreas que abrigam sem-teto estão crescendo, deixando de ser pequenos enclaves, à medida que mais pessoas perdem seus empregos e a sua casa - em locais tão diversos como Nashville, no Tennessee, Olympia, em Washington, ou St.Petersburg, na Flórida. Os sem-teto de Seattle, infelizes com seu acampamento de 100 pessoas, o apelidaram de Nickelville, numa referencia ao prefeito Greg Nickels. Uma outra área de barracos em Sacramento, Califórnia, levou o governador Arnold Schwarzenegger a anunciar um plano para transferir os sem-teto para uma área vizinha destinada a um parque de diversão. Isso depois que uma visita ao local do programa de televisão "The Oprah Winfrey Show" provocou uma explosão de notícias na mídia, a ponto de algumas pessoas se queixarem de que estavam muito expostas e pedir para ser deixadas em paz. O problema em Fresno é diferente, já que é crônico e totalmente distante dos refletores no plano nacional. A indigência nessa região há muito tempo é alimentada pelos altos e baixos da mão de obra de subsistência e sazonal no setor agrícola. Mas a recessão produziu agora centenas de novos sem-teto - desde aqueles que pegam carona até motoristas de caminhão e eletricistas. "São pessoas que trabalhavam recebendo um salário mínimo ou mais, que conseguiam ter uma habitação de acordo com sua renda", disse Michael Stoops, diretor executivo da Coalizão Nacional para os sem-teto, com sede em Washington. Mas o grande aumento dos sem-teto em Fresno, cidade de 500 mil habitantes, foi uma surpresa. Funcionários da prefeitura dizem que há três grandes acampamentos perto do centro da cidade e assentamentos menores ao longo de duas rodovias. São cerca de 2 mil pessoas vivendo ali, de acordo com Gregory Barfield, encarregado da política e prevenção da cidade, que diz que o uso de drogas, a prostituição e a violência são muito comuns nessas áreas. "Tudo isso faz parte dessa economia clandestina", disse ele. "É o que ocorre quando uma pessoa está tentando sobreviver", concluiu. Segundo Barfield, a cidade pretende fazer uma "triagem" nos acampamentos nas próximas semanas, para determinar quantas pessoas precisam de serviços e uma habitação permanente. "Estamos tratando esses locais como área de desastre." Barfield assumiu o cargo em janeiro, depois que o condado e a cidade aprovaram um plano de dez anos para solucionar o problema dos sem-teto. Uma ação coletiva aberta em nome dos desabrigados contra a cidade e o Departamento de Transportes da Califórnia foi concluída com um acordo de US$ 2,35 milhões, em 2008, o que rendeu algum dinheiro para 350 moradores que tiveram seus pertences jogados no lixo pela prefeitura. Os crescentes acampamento levaram a cidade a colocar banheiros públicos e guardas de segurança próximos de uma área conhecida como New Jack City, nome de um filme "noir" de 1991, sobre drogas. Mas o nome só atraiu mais sem-teto. "Foi um convite para eles chegarem", disse Paul Stack. Numa noite destas, ninguém parecia entusiasmado por viver em New Jack City, uma área imunda com suas barracas assoladas pelo vento e chuva, num terreno onde o lixo é despejado. Diversos moradores, cautelosos, sentavam-se em sofás estragados, enquanto dois pit bulls, acorrentados a uma cerca, rosnavam. Ao norte de New Jack City está um acampamento menos lúgubre. Às vezes é chamado Taco Flats ou Little Tijuana, por causa do grande número de moradores latinos, já que muitos deles chegaram a Fresno atraídos pelas promessas de emprego na agricultura, o que já não existe mais com a economia em crise e três anos de seca. Guillermo Flores, 32 anos, disse que procurou trabalho no campo e em restaurantes de fast-food, mas nada conseguiu. Nos últimos oito meses, coletou latas na rua para reciclagem, conseguindo ganhar de cinco a dez dólares por dia, e vive num barraco de três cômodos, que ele construiu e do qual se orgulha, com porta, lençóis limpos na cama e uma vasilha repleta de maçãs frescas na sua cozinha. "Construí este barraco porque precisava", diz ele, enquanto cozinha. "O único problema aqui são as aranhas." *Jesse McKinley é jornalista e chefe da sucursal do ?The New York Times? em San Francisco, Califórnia

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.