Travis Dove/The New York Times
Travis Dove/The New York Times

Nos EUA, o cartão de vacinação é a nova pulseira VIP

Deixando as máscaras de lado, indo juntos à academia e dividindo salgadinhos com outros torcedores, os vacinados contra covid descobrem as liberdades especiais que os aguardam

Jennifer Steinhauer, The New York Times

17 de maio de 2021 | 10h00

Em Fort Bragg, no Estado da Carolina do Norte, os soldados que já receberam a vacina contra o coronavírus podem frequentar uma academia de ginástica onde o uso de máscaras não é exigido, sem limites para o número de pessoas que podem se exercitar ao mesmo tempo. As esteiras estão funcionando a todo vapor, diferentemente dos equipamentos de 13 outras academias nas quais os soldados não vacinados são impedidos de usar os aparelhos, todos devem usar máscaras e há um limite para quantas pessoas podem usar o espaço de uma vez.

Dentro do Dodgers Stadium, em Los Angeles, onde até pouco tempo atrás a fila de pessoas aguardando a vacina contra o coronavírus se estendia por quilômetros, uma área de assentos especiais permite que aqueles já vacinados acompanhem os jogos sentados ao lado de outros torcedores.

Quando Bill Duggan reabrir o Madam's Organ, seu lendário bar de blues em Washington, ninguém poderá entrar para trabalhar, beber ou tocar a não ser que apresente provas de que foi vacinado. “Tenho um saxofonista que está entre os melhores do mundo. Ele esteve aqui outro dia e eu lhe disse, 'Walter, dê uma boa olhada neste lugar, porque você só vai voltar aqui depois que tiver sido vacinado'.”

Conforme os Estados Unidos pressionam o teto informal daqueles que se vacinam voluntariamente, governos, negócios e instituições de ensino têm oferecido cenouras (na verdade, rosquinhas, cerveja e cheesecake) para convencer os retardatários a seguirem o restante. Alguns chegaram a oferecer dinheiro: em Ohio, o governador, Mike DeWine, chegou a dizer essa semana que o Estado ofereceria a cinco pessoas vacinadas US$ 1 milhão cada como parte de um programa de sorteios semanais.

Na quinta feira, autoridades federais de saúde ofereceram o incentivo definitivo para muitas pessoas quando anunciaram que americanos vacinados poderiam deixar de usar máscaras.

Agora, empregadores, restaurantes e espaços de entretenimento estão procurando formas de fazer com que os vacinados se sintam como clientes VIP, tanto para proteger funcionários e frequentadores quanto para estimular mais pessoas a aderir à vacinação.

Quando o verão chegar, em meados do ano, o país pode se ver cada vez mais dividido entre aqueles que podem assistir a eventos esportivos ao vivo, frequentar aulas, ir ao cabeleireiro ou participar de um churrasco com os outros, e aqueles que ficarão atrás da cortina das proteínas Spike (usada pelo coronavírus para entrar nas células).

O acesso e o privilégio entre os vacinados pode se tornar a regra para o futuro próximo, tanto nos espaços públicos quanto nos privados.

“No fundo, o que está em jogo é uma questão mais profunda a respeito do funcionamento da nossa sociedade", disse o dr. Tom Frieden, ex-diretor do Centro para a Prevenção e Controle de Doenças e arquiteto de um programa de proibição ao tabagismo e controle da tuberculose em Nova York, que envolveram a adoção de regras obrigatórias. “Estamos afinal conectados uns aos outros de uma maneira importante, ou não?”

A exigência da vacinação para frequentar instituições de ensino ou participar do Exército não é uma ideia nova. Mas, como as três vacinas contra a covid oferecidas nos EUA ainda não receberam a aprovação da Food and Drug Administration (FDA, vigilância sanitária americana), o Exército não quis insistir na inoculação. Os distritos do ensino público, por sua vez, não podem pensar na exigência da vacinação até que haja vacinas disponíveis para a maioria das crianças. A FDA acaba de autorizar o uso emergencial da vacina da Pfizer para adolescentes de 12 a 15 anos.

Mas, mesmo sem a obrigatoriedade, um empurrãozinho pode parecer exagerado. O Exército tem incentivado a tropa a se vacinar. Em alguns serviços a adesão é baixa, como entre os fuzileiros navais, que têm apenas 40% de seus membros vacinados com pelo menos uma dose. Em Fort Bragg, uma das maiores instalações militares do país e uma das primeiras a oferecer a vacina, pouco menos de 70% da tropa foram vacinados.

Um podcast destinado a desmentir informações falsas - muitos acreditam equivocadamente que a vacina afeta a fertilidade - é reproduzido pela base. Além da liberdade de uso da academia de ginástica, os soldados vacinados podem agora comer em grupo se desejarem, enquanto os não vacinados assistem, levando sua refeição para consumi-la sozinhos.

No caso dos soldados, os especialistas “buscam convencer os hesitantes a aderir à vacinação, em vez de criticar sua escolha", disse o coronel Joseph Buccino, porta-voz de Fort Bragg.

Ainda assim, os resistentes representam obstáculos. No caso de uma missão recente na Europa, alguns soldados não vacinados tiveram que ser substituídos por outros já imunizados, por causa das regras de quarentena nos países do continente. “O que precisamos fazer é restaurar a prontidão", disse Buccino.

Segregar os não vacinados e limitar seu acesso às academias de ginástica e refeitórios não foram medidas adotadas com o objetivo de convencer os soldados a se vacinar, disse ele, “mas isso funciona como incentivo".

O setor privado também tenta facilitar um pouco a vida dos vacinados (às vezes com a ajuda do governo), enfatizando os privilégios que a proteção da vacina proporciona (em vez de falar nas supostas limitações à liberdade individual).

Estamos na temporada do beisebol, e os torcedores anseiam pela volta à normalidade e a um contexto em que “onda na plateia" significava outra coisa além de uma nova investida do coronavírus. A Major League Baseball está promovendo agressivamente a vacinação, e os estádios se tornaram a nova linha de demarcação, onde as seções para torcedores vacinados são destacadas como uma exclusividade comparável à dos camarotes.

O restaurante Bayou, em Salt Lake City, vai abrir suas portas somente para aqueles que já foram vacinados, de acordo com Mark Alston, um dos proprietários.

“A decisão foi tomada porque eu trabalho no Bayou todos os dias da semana", disse ele. “Não fico em um escritório confortável e mando os funcionários para o trabalho em condições insalubres. Eu trabalho ao lado deles.”

A política de “só para vacinados” fez com que sua caixa postal ficasse lotada de mensagens rancorosas. “Uma pessoa chegou a me acusar de organizar um culto de cervejeiros pedófilos", disse ele. “Coisa de maluco, mesmo.”

Até cidadãos individuais estão adotando a prática em suas casas. Um porta-voz da empresa de convites online Evite disse que, desde 1.º de março de 2021, 548.420 convidados receberam convites para eventos especificamente para “totalmente vacinados” ou que usavam outros termos ligados à vacina, e convites com a exigência de “totalmente vacinados” foram enviados a 103.507 pessoas. A empresa Paperless Post, de atuação semelhante, criou modelos de convite específicos para os já inoculados, com um RSVP destinado apenas a quem já se imunizou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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