Nos EUA, seca paralisa sete usinas de etanol

Volume de combustível produzido no país caiu 8% em um mês, e deve chegar a 12%

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE, WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h12

A pior seca nos Estados Unidos desde 1956 já provocou a paralisação de sete usinas de etanol de milho no país e a redução de produção em outras 26 desde julho. O volume do combustível produzido no país caiu 8% entre julho e agosto e deve chegar a pelo menos 12% até o fim do ano. Mesmo assim, a redução da oferta de milho e o aumento da inflação dos alimentos pressionam o governo a optar pela alteração da mistura de etanol na gasolina.

A situação ressuscitou nos Estados Unidos o debate sobre o conflito entre a produção de biocombustível e de comida. Segundo a Associação de Combustíveis Renováveis (RFA, na sigla em inglês), a demanda por milho pela indústria do etanol diminuiu 12% desde julho. Grandes produtores, como a Poet LLC e a Archer Daniels Midland baixaram em 15% a produção do combustível.

O Estado entrou em contato com duas usinas. A Central Minnesota Ethanol Co-op suspendeu suas atividades no início do mês. A East Kansas Agri-Energy LLC programa a paralisação a partir de 10 de outubro. Entre janeiro e junho, as exportações de etanol do país já haviam caído de 288 milhões de litros para 223 milhões. As importações foram retomadas e aumentaram de 18,9 milhões de litros para 106 milhões no período.

Mas as plantações afetadas pela seca no chamado Cinturão do Milho, os Estados do Centro-Oeste americano, levaram o Departamento de Agricultura (Usda) a rever para baixo as estimativas de safra e a recalcular o impacto inflacionário nos alimentos.

Em queda. Em 2011, foram colhidos 12,3 bilhões de bushel (equivalente a 27,2 kg) de milho. Em junho, o Usda previa uma colheita de 14,8 bilhões. Em julho, reduziu a estimativa para 13 bilhões e, neste mês, para 10,8 bilhões. Se essa última previsão se mantiver, haverá uma redução de 12,2% na oferta do grão em comparação com o ano passado. A cotação do milho na bolsa de futuros de Chicago oscilou de US$ 5,81 por bushel, no início de junho, para US$ 8,03 na semana passada. No mês passado, o Usda previa um impacto de 3% a 4% nos preços dos alimentos.

"Cada dia nós aprendemos mais, cada dia nós podemos avaliar mais", afirmou o secretário de Agricultura americano, Tom Vilsack, ex-governador do maior produtor de milho do país, o Estado de Iowa. "O impacto total da seca começou a cair. Mas o efeito desigual da secura persistente em cada fazenda dificulta a previsão de safra", acrescentou, em entrevista coletiva na sexta-feira.

O próprio Vilsack não descarta a possibilidade de o governo suspender a lei que determina a adição de 49,2 bilhões de litros de etanol à gasolina comercializada neste ano e em 2013. O diretor-geral da agência das Nações Unidas para Alimento e Agricultura, José Graziano, alertou em artigo publicado no dia 9 de agosto pelo jornal britânico Financial Times para a necessidade de redução dessa mistura. Pelo menos 25 dos 100 senadores e 156 dos 435 deputados federais americanos assinaram uma carta ao governo com o mesmo pedido.

Mas Vilsack adverte para o sinal negativo aos investidores de uma medida como essa. "Precisamos ver como o mercado responde", insistiu. A RFA se opõe totalmente. Em palestra na semana passada, o vice-presidente de Pesquisa e Análise da RFA, Geoff Cooper, afirmou ser "um mito" as versões de que o setor de etanol mantém uma demanda inflexível de milho e de que a redução da mistura provocará queda dos preços dos alimentos. "A suspensão da mistura não é necessária."

Com base na argumentação de Cooper, a RFA sustenta ser suficiente a resposta dada pelo setor de etanol, com a redução da produção e da exportação do produto. O preço do galão do biocombustível continua US$ 0,50 abaixo do de gasolina, insistiu ele, ao salientar outro componente com potencial inflacionário a ser disparado caso a mistura seja reduzida.

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