Horatio Baltz/The New York Times
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Coluna

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Nos EUA, trabalhadores de aéreas buscam novos rumos após a pandemia

Coronavírus atingiu em cheio as companhias, que têm oferecido planos de demissões voluntárias aos seus funcionários devido a lenta recuperação do setor

Niraj Chokshi , The New York Times

03 de outubro de 2020 | 05h00

Este deveria ser o ano em que Steven Ray Littles II plantaria suas raízes na área de Seattle. No entanto, voltou para a casa dos pais em Bakersfield, Califórnia, depois de aceitar as verbas rescisórias da Delta AirLines, encerrando uma carreira de seis anos como comissário de bordo.

Ele gostava do emprego, que lhe permitia viajar e fazer novos amigos de vários lugares. Mas Littles, de 32 anos, já temia que o seu emprego fosse vulnerável porque a pandemia do coronavírus havia atingido em cheio o setor de transportes aéreos. “Eu esperava aquilo por causa da previdência”, afirmou. “Que controle eu tenho sobre essa situação, e como transformar isso em uma melhor oportunidade para mim?”

Em todo os Estados Unidos, os trabalhadores de linhas aéreas como Littles vêm lutando com decisões semelhantes por causa da queda considerável das viagens e o temor cada vez maior de que muitos passageiros não voltem a voar por vários anos. Em março, o Congresso americano ofereceu ao setor uma forma de salvação propondo às companhias aéreas uma ajuda de US$ 25 bilhões desde que deixassem de fazer grandes cortes de empregos.

Essa exigência expirou esta semana e as companhias avisaram que, a não ser que os parlamentares estendam o programa, elas colocarão em licença dezenas de milhares de funcionários. Com a finalidade de limitar o número de dispensas, as empresas pediram aos funcionários que aceitassem voluntariamente cortes de salários, licenças mais longas, demissões ou aposentadoria antecipada. Dezenas de milhares aceitaram.

A Southwest Airlines informou que foram tantos os funcionários que concordaram com o programa que não colocará em licença nenhum trabalhador até o fim do ano. Por enquanto, a Delta também está evitando em grande parte as licenças, embora deva reduzir sua equipe em algumas áreas, como a dos pilotos.

Assistência médica boa

Em 40 anos trabalhando como mecânico de aviões, Mike Stoica sobreviveu a expansões, contrações, uma falência e uma fusão. Mas, recentemente, quando a American Airlines ofereceu pacotes de aposentadoria voluntária, ele decidiu que estava na hora de sair. “Para mim, na minha idade, foi uma mão na roda”, disse Stoica, de 71 anos.

Ele planejava trabalhar mais tempo ainda, mas o pacote da aposentadoria garantiu que sua mulher mais jovem tenha a cobertura da assistência médica até chegar na idade de pedir o Medicare (plano de saúde financiado pelo governo). O seu último dia de trabalho foi na sexta-feira da semana passada.

Agora, Stoica voltará a sua atenção para aviões de porte diferente. Recentemente, ele acabou de restaurar um biplano Boeing Stearman de 1944, e tem outro projeto em vista.

Um sacrifício pelos colegas

A decisão de Tina Jackson de aceitar o pacote de aposentadoria da Alaska Airlines teve um sabor doce-amargo. Sair significou despedir-se dos colegas que haviam se tornado uma extensão da família. Eles organizaram um chá de bebê quando ela adotou sua filha, há dois anos. “Se algo acontece a qualquer um de nós, acontece com todos nós”, disse Tina, de 56 anos, que trabalhava no setor de reservas.

Mas a pandemia foi se estendendo, então ficou claro que o setor teria de encolher, e os seus colegas começaram a se preocupar com o emprego. Por isso, ela pediu uma licença de três meses. Quando a companhia ofereceu pacotes de aposentadoria, ela aceitou para ajudar os colegas que precisavam trabalhar.

Como funcionária do setor de reservas, Tina costumava dar atenção às pessoas nos momentos de alegria e de dor. Se alguém telefonava para comprar passagens para um casamento ou para visitar um novo neto, ela compartilhava da sua alegria. Se o cliente chamava para comprar uma passagem para ir a um enterro, ela tentava facilitar um pouco a sua vida.

Por enquanto, Tina pretende ficar em casa com o marido na Ilha de San Juan no noroeste de Washington. Mas quando a situação estiver segura, espera gastar o dinheiro da aposentadoria com uma viagem pelo globo, começando na Europa, graças aos benefícios de voo. “Durante 20 anos, viajei pelo mundo todo e nunca sai da minha cadeira”, ela disse. “Queria ir para todos esses lugares maravilhosos de que as pessoas falam”.

Mudança de perspectiva

Quando a sua aposentadoria começou este mês, Robert Browning Vaughn II estava sentado perto da piscina com a mulher, Kimi Vaughn, em um resort mexicano em Cabo San Lucas. A viagem havia sido há muito planejada para o aniversário dos 60 anos de Robert, e a aposentadoria foi um acréscimo final. Robert, ex-piloto da Delta, pretendia trabalhar mais cinco anos, mas a companhia ofereceu a aposentadoria antecipada.

Ele ficou de licença uma vez, nos anos 90, mas achou que a Delta lhe havia dado a oportunidade de fazer uma boa carreira e permitira que ele escolhesse um calendário de acordo com as necessidades da família. Então, decidiu retribuir o favor e ajudar um colega com menos antiguidade no emprego. Por outro lado, também concluiu que estava na hora de dar uma trégua depois de uma série de tragédias pessoais. “Quero fazer o que sempre sonhei”, disse. “Agora, não preciso ir de um quarto de hotel para outro, a não ser que eu possa escolher.”

Ele e a mulher planejaram a viagem, mas, por enquanto, preferem as viagens domésticas, de sua casa, perto de Atlanta, para Santa Fé, no Novo México. Ele também pretende fazer passeios com a sua Harley-Davidson e jogar golfe com o filho mais frequentemente.

Recém-casada adia a festa

Como comissária de bordo e instrutora da Alaska Airlines, Julia Ortega viu o desenrolar-se da crise pesar para seus colegas quando chegavam para uma aula de certificação anual. Também estava preocupada.

Aos 34 anos, casou em fevereiro e planejava com o marido fazer uma festa de casamento em abril no México, mas teve de adiar duas vezes, para novembro e agora para maio. Além disso, ela mora na Bay Area, de São Francisco, onde o custo de vida é alto. Mas depois de ver os colegas se desesperarem com o futuro, Julia decidiu que podia deixar o emprego. Optou por tirar licença na primavera e aceitou outra licença não remunerada de nove meses, que começou na quinta-feira da semana passada. “Se tivesse a chance de pegar uma licença e permitir que eles mantivessem o emprego, pelo menos para poupar mais um dos meus colegas, estava disposta a fazer isso”, contou.

Por enquanto, Julia passa o tempo em casa com seus dois cachorros; o marido continua trabalhando em operações do aeroporto, no San Jose International Airport. Para se manter ocupada e saudável, ela começou a correr, e está montando um regime de ginástica para o casamento./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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