Nos EUA, visita de Bush ao Brasil é vista como vitória parcial

A visita do presidente americano, George W. Bush, ao Brasil e o acordo entre brasileiros e americanos para produzir etanol foram elogiados por analistas, políticos e imprensa americanos. Porém, a opinião geral é de que as ações do líder dos EUA em relação ao Brasil e aos vizinhos latino-americanos chegam tarde e têm efeito limitado. Johanna Mendelson Forman, uma especialista em políticas energéticas latino-americanas do instituto Center for Strategic and International Studies, de Washington, diz que o acordo entre os dois para a produção de etanol "é uma grande conquista". No entanto, ela acrescenta que a parceria só poderá ser plenamente implementada se os EUA alcançarem um acordo bipartidário, o que depende também de uma política comum para se chegar a um pacote agrícola mais aberto e menos protecionista. "Isso vai determinar a mensagem que queremos passar aos outros países", diz ela. "Se buscamos um mercado de energia renovável ou se queremos permanecer isolados do mundo.""Ao longo da minha vida, já vi várias visitas que visavam demonstrar boa vontade para com a América Latina. Essa é apenas mais uma. É preciso criar uma política externa capaz de interagir e de responder à região, mas essa chance nós deixamos passar nos últimos sete anos."Apoio da oposiçãoAté mesmo políticos da oposição saudaram o acordo firmado entre Brasil e EUA. Deputados democratas e republicanos do subcomitê do Congresso responsável pela América Latina assinaram um carta enviada ao líder americano, na véspera de sua viagem, louvando a cooperação entre os dois países na área de biocombustíveis e pedindo que Bush se concentrasse na América Latina no período que resta de seu mandato.Os congressistas americanos afirmaram ainda que os EUA tinham muito a aprender com o Brasil na área de biocombustíveis. Porém, muitos democratas apontaram a suposta negligência da atual administração em relação à América Latina.Dias antes da viagem, durante uma audiência no Congresso sobre a política americana para a região, o deputado William Delahunt criticou o fato de que somente o Egito, que segundo ele, tem credenciais democráticas discutíveis, recebe US$ 2 bilhões por ano do governo americano, enquanto a América Latina recebe US$ 1,6 bilhão.Efeito ChávezDesde que foi anunciada, a viagem de Bush foi apontada como uma forma de conter o papel do líder da Venezuela, Hugo Chávez, na região. O pacote de ajuda econômica aos países latino-americanos, anunciado por Bush na semana em que ele viajou para a América Latina, foi taxado pela imprensa americana de "pacote anti-Chávez", numa referência à ajuda econômica propiciada a países da região pelos petrodólares do líder venezuelano.Para muitos, a viagem de Bush acabou ofuscada pelo líder venezuelano, que fez uma turnê por países latino-americanos excluídos do roteiro de Bush. De acordo com Peter Hakim, presidente do instituto de pesquisas Inter American Dialogue, "a viagem é uma vitória para o presidente Bush, mas não uma vitória completa", graças ao que chama de "o efeito Hugo Chávez".No entender de Hakim, a retórica do líder da Venezuela teria inspirado os diversos protestos de rua registrados nos diferentes países visitados pelo presidente americano e isso minimizou os efeitos positivos da viagem. "Para tentar reforçar os efeitos da visita, os EUA terão de buscar políticas eficazes. Caso contrário, os resultados benéficos da viagem terão vida curta."De acordo com Hakim, Bush precisa fazer o possível para que o Congresso aprove acordos de livre comércio com países latino-americanos, atualmente sendo discutidos. "Seria um erro negar a concessão de preferências comerciais à Bolívia e ao Equador, que são países pobres e instáveis. Isso só fará aproximá-los de Chávez."Choque ideológicoO jornal New York Times identificou até mesmo um conflito ideológico propiciado pela passagem do presidente. De acordo com o diário, esse choque se manifestou por meio dos protestos de rua contra a visita. Em reportagem sobre a viagem do líder americano ao Brasil, o diário afirmou que as manifestações representaram "um choque entre o capitalismo aberto defendido por Bush e a aproximação com o socialismo impulsionado por líderes de esquerda que cresceram em poder e popularidade".Em sua coluna semanal, o editor da revista Newsweek, Fareed Zakaria, afirmou que as políticas do presidente Bush para a região mudaram para melhor. "Bush fez algum esforço para tratar dos temas considerados os mais importantes pelos governos da região - biocombustíveis no Brasil, imigração no México e comércio em todas as partes."No entanto, em seguida, o editor da Newsweek fez a ressalva de que "sem reduzir as tarifas americanas para o etanol, qualquer noção de parceria com o Brasil em biocombustíveis não passa de retórica. Da mesma forma, sem promover uma ampla reforma em imigração, a relação com o México permance incerta".

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