Thomas Peter/Reuters
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Nos mercados emergentes, pânico de curto prazo dá lugar a preocupações para o longo prazo

Medidas de emergência ajudaram a manter vivas essas economias, mas seus efeitos no longo prazo podem ser nefastos

The Economist, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2020 | 09h00

Fadiga. Falta de ar. Hipersensibilidade dos nervos. Cicatrizes nos pulmões. Meses se passaram desde a recuperação dos primeiros sobreviventes da covid-19. Mas alguns ainda relatam sentir os efeitos residuais da doença, que, aparentemente, pode causar um estrago duradouro, mesmo nos casos que não evoluírem para quadros críticos. O mesmo pode ser verdadeiro a respeito do impacto da pandemia na economia, especialmente nos países em desenvolvimento. Alguns dos perigos mais agudos parecem ter recuado, mas há problemas crônicos no horizonte. O que não matar essas economias as enfraquecerá.

Meses atrás, o choque do coronavírus parecia ser financeiramente letal. Mas os títulos da dívida, as moedas e as ações dos mercados emergentes têm se recuperado bem após o mergulho dramático em março, graças a um esforço determinado do Federal Reserve, banco central americano, que tenta remediar o estresse financeiro doméstico aliviando a escassez global de dólares.

Na China, a maior de todas as economias emergentes, a retomada da atividade foi notável. De alguma forma, seu PIB cresceu 11,5% no segundo trimestre em relação ao primeiro, o equivalente a um ritmo anual de 59%, de acordo com o banco UBS. Isso deixou o país com resultado econômico 3,2% acima do observado ainda na era da inocência de abril a junho de 2019. A consultoria Capital Economics espera que, até o fim do ano, a produção da China tenha alcançado o patamar em que estaria se não tivesse ocorrido a pandemia.

O crescimento da China ajudou na recuperação do valor das commodities, beneficiando os cerca de dois terços dos países em desenvolvimento que exportam petróleo, metais e outras matérias-primas. O valor em dólares das exportações de mercadorias da Indonésia em junho foi 2,3% superior ao mesmo período do ano anterior, desafiando a expectativa de uma queda de 12,3%. 

Outras grandes economias emergentes também relataram a existência de bolsões de resistência ou uma pequena recuperação. No México, as remessas de divisas foram em maio mais de 3% superiores do que no mesmo período do ano passado, talvez porque os imigrantes tenham aproveitado a oportunidade de mandar dinheiro para casa quando o peso estava em baixa. Em maio e junho, a Índia recuperou mais de 90 milhões dos 114 milhões de empregos perdidos em abril, de acordo com a firma de pesquisas Centro para o Monitoramento da Economia Indiana.

Mas restam duas grandes preocupações. No longo prazo, teme-se que o vírus deixe um rastro de cicatrizes econômicas mesmo depois de ter sido vencido. Mais imediatamente, estamos preocupados em vencê-lo. De fato, a resposta surpreendentemente sólida ao relaxamento da quarentena (chamado de “consumo vingativo”) em alguns países pode ter contribuído para uma alta nas infecções em partes da China e do Vietnã (bem como em economias mais ricas, como Austrália e Japão) que tiveram sucesso na contenção do vírus. E a retomada da vida comum certamente contribuiu para sustentar o acelerado ritmo de contágio na Índia e em boa parte da América Latina. A “probabilidade de um processo tranquilo de retomada é pequena”, destacam analistas da Capital Economics.

Também é improvável que a retomada seja completa. Epidemias anteriores deixaram uma marca permanente. Três anos após os surtos de sars, mers, Ebola e Zika, o investimento foi em média 9% mais baixo nas economias atingidas do que nas economias menos afetadas, de acordo com o Banco Mundial. A produtividade por trabalhador foi quase 4% inferior. O estrago duradouro resultante da covid-19 deve ser muito pior.

A pandemia interrompeu o ensino de muitos dos jovens dos países em desenvolvimento, por exemplo. O segmento da população entre 5 e 19 anos representa uma fatia maior dos habitantes dos países pobres (26%) do que dos países ricos (17%) e, portanto, uma fatia mais significativa da força de trabalho futura. Também é mais provável que o hiato no ensino seja permanente. Nos países pobres, as pessoas não podem se dar o luxo de ficar “à margem”, destaca Ayhan Kose, do Banco Mundial. Os jovens se sentem "mais pressionados" para conseguir um emprego de meio período, que pode facilmente acabar rompendo seus elos com a escola.

O capital humano não é o único que deve sofrer. Quando as perspectivas de crescimento são fracas e incertas, os empreendedores não costumam investir em novas instalações, ideias ou maquinário, mesmo que consigam captar recursos para tanto. De acordo com o banco, os governos de 58 países em desenvolvimento ofereceram garantias de crédito de diferentes tipos para incentivar a oferta de financiamento. Mas os bancos seguem avessos ao risco, diz Bhanu Baweja, do UBS.

A pandemia também afetou o comércio, que já estava abalado pelas tensões entre Estados Unidos e China. Para as economias emergentes, o comércio e o investimento estrangeiro são fontes de dinheiro e experiência. As empresas aprendem a respeito do mundo com as vendas que fazem para o exterior; os países aprendem recebendo empresas de outras nacionalidades. Ao prejudicar as cadeias globais de fornecimento e a colaboração internacional, “a pandemia pode alterar as próprias estruturas sobre as quais o crescimento das décadas mais recentes foi construído”, alertam Kose e os coautores do mais recente relatório “Perspectivas econômicas globais”.

Se for verdade, algumas indústrias das economias emergentes terão que se reinventar. Mas, contrariando o senso comum, crises não são momentos propícios para esse tipo de reforma. Pesquisas realizadas por Lucia Foster e Cheryl Grim, do Bureau Censitário dos EUA, e por John Haltiwanger, da Universidade de Maryland, revelaram que a realocação de mão de obra entre diferentes empresas desacelerou nos EUA durante a mais recente recessão. A crise afetou empresas produtivas e rivais mais fracas. A destruição de postos de trabalho aumentou. Mas a criação de empregos teve queda comparável. Em momentos melhores, os trabalhadores podem deixar indústrias moribundas e encontrar emprego em setores ascendentes. Mas, em uma crise, os trabalhadores demitidos simplesmente se perdem com as empresas que afundam.

Para seu crédito, os governantes das economias emergentes tentam manter bancos e empresas intactos. Em março, os bancos centrais de 42 países em desenvolvimento cortaram seus juros, de acordo com o Banco Mundial (um número muito maior do que em qualquer outro mês desde 2008). Muitos também passaram a exercer mais frequentemente a função de credor de último recurso. O banco central da Índia, por exemplo, está ajudando a sustentar bancos clandestinos.

Um número de bancos centrais também comprou títulos da dívida soberana, ajudando ops governos a oferecerem tanto estímulo quanto ousarem. Kose lembra que, durante a crise financeira global, alguns governantes diziam: “Talvez não devamos fazer isso ou aquilo”. Dessa vez, não houve debate do tipo.

Além do estímulo fiscal, os reguladores financeiros se tornaram menos rigorosos. Relaxaram os limites impostos por prudência aos bancos e permitiram aos credores que usem mais criatividade na contabilidade, ignorando temporariamente os empréstimos em má situação. Na Rússia, as instituições financeiras podem atribuir aos valores mobiliários em seu portfólio os preços de 1.º de março. A Índia anunciou uma moratória no pagamento de empréstimos.

Em alguns casos, essas medidas de macro-imprudência interromperam reformas no sentido oposto. A oferta de crédito na China reverte anos de tentativas de desalavancagem. Nas Filipinas, uma emenda à carta do Banco Central tinha reforçado sua independência financeira em relação ao ministério da economia. Agora, o banco central está ocupado comprando suas obrigações.

Medidas desse tipo foram necessárias. Mas pode ser difícil revertê-las. Os governos terão que deter o aumento do seu endividamento sem colocar em risco a recuperação. E os reguladores em algum momento terão que permitir inadimplências e a falência de algumas empresas para dar espaço ao crescimento de novas iniciativas.

Um dos motivos pelos quais a covid-19 causa danos duradouros nos infectados é a agressiva reação do sistema imunológico que o vírus pode despertar. Essa “tempestade de citocina” pode ajudar a acabar com a doença, mas também pode colocar em risco a vida do paciente. Os governantes dos países em desenvolvimento devem tomar cuidado para evitar que algo semelhante ocorra com suas economias. Sua resposta à pandemia foi de uma agressividade justificável, mas, se não for controlada, essa tempestade de medidas defensivas pode ter seus próprios efeitos colaterais indesejáveis./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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