Angela Lacerda/Estadão
Angela Lacerda/Estadão

‘Nós não fomos demitidos, fomos largados’, diz técnico

Operários da construção da Refinaria Abreu e Lima dizem que as portas fecharam por causa dos ‘ladrões’ da Lava Jato

Angela Lacerda / RECIFE, O Estado de S. Paulo

05 de abril de 2015 | 03h00

Com o nome no SPC, sem crédito, com a conta estourada, sem perspectiva de conseguir novo emprego e descrente na Justiça. Esse é Alexandre Pereira da Silva, 43 anos, demitido em dezembro do ano passado das obras da Refinaria Abreu e Lima, no município metropolitano de Ipojuca.

Encarregado de solda, técnico de mecânica e inspetor de equipamentos foram as funções desempenhadas por ele em três empresas contratadas da refinaria. A última na qual trabalhou foi a Alusa. “Sem ninguém esperar, a empresa cessou as atividades, por causa dos ladrões da Lava Jato”, afirma ele, indignado. Junto com ele foram 4,6 mil trabalhadores demitidos da refinaria na época.

“Nós não fomos demitidos, nós fomos largados, abandonados”, complementa Aristóteles Onassis Miranda, 37 anos, técnico e encarregado de mecânica e tubulação que também enfrenta desemprego e dívidas. Até agora eles não receberam a rescisão. Induzidos, segundo Miranda, pela própria gerência da empresa – ele também era contratado da Alusa – diante da dificuldade de receberem os direitos trabalhistas, eles entraram com ação coletiva por meio do sindicato da categoria, o Sintepav-PE.

“Até agora, nada”, informa Silva. Em primeira instância, a Justiça bloqueou recursos da Petrobrás para o pagamento das rescisões dos trabalhadores, mas na segunda instância a decisão foi derrubada. “Devo confiar na Justiça do Trabalho?”, indaga ele. Na quarta-feira, ele e Miranda foram ao Expresso Cidadão no Shopping RioMar, no Recife, saber quando poderão receber o seguro-desemprego.

Silva e Miranda são profissionais experientes, que já trabalharam em grandes obras em outros Estados do País. Tinham um bom salário – média mensal de R$ 5 mil líquidos sem incluir as horas extras – e agora se sentem como vítimas de um desastre inesperado que levou o que tinham. Já distribuíram currículos em empresas de todo porte, sem êxito e sem perspectiva de curto prazo. “As portas estão fechadas”, diz Silva.

Casado, três filhos, Miranda tirou os dois mais velhos da escola particular e voltou a morar na casa dos pais, no município metropolitano de Cabo de Santo Agostinho. “Uma humilhação”, classifica. O quadro só não é pior porque sua mulher, que também foi demitida da Abreu e Lima, conseguiu um emprego na fábrica da Fiat, em Goiana, na zona da mata norte, na área de segurança de trabalho, com salário menor. Ela tem arcado com despesas básicas como alimentação.

Também casado e pai de três filhos, Silva e sua família têm sobrevivido com o dinheiro de faxinas e bicos conseguidos pela mulher. Em dezembro, já fora do trabalho, teve de fazer pelo SUS uma cirurgia de hérnia umbilical programada e devolveu o primeiro carro zero que havia comprado na vida. Ele fez a aquisição em junho do ano passado e o entregou de volta no fim de janeiro. “Não tinha como pagar as prestações.”

Carioca, Silva trabalhou em Belo Monte e em estaleiros no sul do País, além de ter prestado serviço em empresas na Europa. Em 2010, veio para Pernambuco, atraído pela oferta de emprego. Foi para o Estaleiro Atlântico Sul e logo depois para a refinaria, que não foi concluída. Casado atualmente com uma pernambucana, não tinha planos de deixar o Estado. Agora, já não sabe mais.

Pernambucano, Miranda não imaginava que iria ter seus planos de vida interrompidos pela corrupção investigada na Operação Lava Jato. “O trabalhador paga o preço pelos corruptos”, diz, incluindo políticos, empreiteiras e a Petrobrás como responsáveis. “Quem deve é que tem de pagar.”

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