‘Nossa economia tem de ser mais inovadora’, diz Glauco Arbix

Para presidente da Finep, o País tem de elevar a produtividade e o principal componente para isso chama-se tecnologia, inovação

Cleide Silva, de O Estado de S. Paulo,

05 de junho de 2013 | 15h36

SÃO PAULO - Mais do que inflação, juros e câmbio, o Brasil precisa colocar na ordem do dia o debate sobre como elevar sua produtividade. Do contrário, ficará cada vez mais distante da economia global, afirma Glauco Arbix, presidente da Agência Brasileira da Inovação (Finep), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Para ele, aumentar a produtividade só e possível com tecnologia e inovação. "Se o Brasil de fato quer dar passos rumo à sociedade mais civilizada, tem de seguir um rumo forçado em direção às áreas mais intensivas em conhecimento." À frente da Finep há dois anos, ele vê avanços por parte do governo e das empresas, mas ressalta que há muito a ser feito. "Temos um déficit gigantesco." A seguir, trechos da entrevista.

Como o Brasil está inserido no tema da inovação?

Ficamos durante muito tempo marcados por um debate sobre inflação, juros e câmbio, que é evidentemente relevante, mas a questão-chave para a economia brasileira é que ela precisa elevar sua produtividade, do contrário não vai ter competitividade. E o principal componente da elevação da produtividade chama-se tecnologia, inovação. Não tem como fazer de outra forma. Se o Brasil de fato quer dar passos rumo à sociedade mais civilizada, tem de seguir um rumo forçado em direção às áreas mais intensivas em conhecimento. As empresas são obrigadas a entrar nas áreas de maior risco tecnológico, a competir e a investir em pessoas. Inovação é ter gente qualificada, é transformar uma ideia em um produto real no mercado para agregar valor. Empresa que inova fatura mais, exporta mais, paga melhores salários e cresce mais.

Que papel tem as empresas?

Muitas vezes as empresas veem a qualificação como custo extra. Mas uma empresa com gente preparada tem mais facilidade para inovar. Nenhuma empresa é uma andorinha sozinha. Tem aquilo que hoje se chama de ecossistema de inovação, por isso os parques tecnológicos funcionam, pois quando se agrega, coloca junto os fornecedores, criam-se canais de interação. A disseminação da ideia de inovação é fundamental por isso. Põe mais gente pensando, mais gente antenada para captar ideias, para transformar. As empresas que incorporarem em suas estratégias o trabalho com gente mais qualificada darão um passo gigantesco. Por isso, a questão da educação é chave.

Em 2004, quando o sr. presidia o Ipea, apenas 1,7%, ou 1.200 das 72 mil empresas industriais do País investia significativamente em pesquisa e desenvolvimento. Mudou esse quadro?

Dados de hoje mostram que há cerca de 6 mil empresas que inovam, das quais 2 mil inovam regularmente. Essa realidade muda muito lentamente. Constatamos, porém, que um número crescente de empresas passou a incorporar a inovação na sua estratégia, o que não ocorria antes.

Não é uma mudança pequena para quase uma década?

São números difíceis de comparar, mas se você perguntar para um pesquisador ele vai dizer que é pequeno. E vai continuar assim por um longo período porque temos um déficit gigantesco. Esse é um problema-chave na economia brasileira, que é pouco inovadora. Tem um milhão de explicações para isso, economia fechada, protecionismo, tutela do Estado, maus hábitos, cultura fraca, aversão a um risco maior, custo gigantesco, falta de infraestrutura, impostos. O que procuro olhar é que as coisas estão mudando. Há uma coincidência de agenda entre o empresariado e o governo.

Por que demora a mudar?

O custo é arriscado. Há um temor, pois inovação é uma transformação. Mudar não é fácil. As indústrias mais tradicionais tendem a se transformar mais lentamente. No Brasil tudo demora mais. O custo é alto, a economia brasileira não é amigável à inovação, não remunera à altura, coloca obstáculos grandes para as empresas.

Quais obstáculos?

Vou falar daquilo que está fora da empresa: carga tributária, burocracia, infraestrutura, transporte, comunicação. Tudo isso é um peso grande. Mas há um dado interessante, que marca nossa conjuntura. Tradicionalmente, quando a economia vai para a frente, aumenta a demanda por crédito. Se a economia se retrai, diminui. Nos dois últimos anos de crescimento mais baixo, a demanda da Finep é crescente. Não sei se é sustentável, mas vejo claramente uma mudança de mentalidade. Não se encontra um empresário que não reconheça a importância da inovação, mesmo que inove pouco.

Qual o papel do governo e da Finep nesse cenário?

A presidente Dilma Rousseff tem deixado claro que esta é uma questão-chave para o País e para as instituições de governo. Por isso recebemos recursos novos. Eu assumi a Finep em fevereiro de 2011 e, desde então, o orçamento mais que triplicou. Neste ano, estamos chegando a R$ 7,5 bilhões. Tem também o Inova Empresa, pacote de R$ 32,9 bilhões lançado em março para apoio à inovação, a serem aplicados em dois anos.

Qual a diferença entre os governos Lula e Dilma na discussão da inovação?

Acho que as condições políticas do governo atual são melhores que no anterior. Tem mais gente comprometida com a inovação de maneira mais consistente. As entidades empresariais são mais exigentes. O Brasil e o governo estão mais maduros. Há ainda muita confusão na questão de quem apoiar. Você define os setores-chave e de repente tem mil regimes automotivos. Há sempre um descompasso e, às vezes, acho que exageram.

Quais setores são prioritários?

No Inova Empresa adotamos programas para os setores-chave da economia, e de forma associada com outras instituições. Na área de petróleo, por exemplo, atuamos com o BNDES e a Petrobrás. É um comitê único com uma porta única de entrada. As empresas apresentam seus projetos e avaliamos quanto é crédito, quanto é subvenção. Na execução é feita a partilha e cada agência executa à sua maneira, com suas regras. Começamos a fazer isso com o programa do etanol de segunda geração e melhoramos para fazer o Inova Petro, que é para o petróleo e áreas específicas de tecnologia com deficiências grandes. Lançamos o Inova Energia e o Inova Saúde. São os setores prioritários do governo brasileiro definidos pela política industrial Brasil Maior, que inclui também o aeroespacial e a defesa e a agricultura.

O tema da falta de competitividade voltou à tona por causa dos resultados ruins da balança comercial?

Essa discussão sempre precisa estar na pauta. É bom destacar, contudo, que não há falta de competitividade em tudo. O País tem dificuldade nas áreas de alto valor agregado. Mas no agronegócio ainda é imbatível. No etanol, tem um desempenho especial. Em todas as áreas de commodity o Brasil reina bem. Também têm empresas de destaque, como Embraer, Weg, Braskem, Odebrecht. É um número pequeno comparado com o universo de empresas brasileiras, mas está melhorando. Por exemplo, estamos colocando pela primeira vez empresas brasileiras nas áreas mais sensíveis de tecnologia do pré-sal. Estão fazendo sistemas de válvulas hipercomplexos, trabalhando materiais, trabalhando o que chamam de árvore de natal, que é toda a estrutura. Estão entrando até na área de sismografia, dominada pelos franceses.

Qual o setor que mais avançou?

No setor de fármacos, as empresas brasileiras cresceram muito com os genéricos. São empresas grandes, capitalizadas, mas ao mesmo tempo desenvolvem pouca atividade de inovação e P&D. Há uns cinco anos, contudo, começaram a entrar mais pesado nessa discussão. Hoje, querem se juntar para competir. Elas querem entrar em áreas mais específicas de conhecimento, fazer pesquisas. Definiram como prioridade os biofármacos (ligados a produtos naturais), vistos como a nova fronteira do mundo. Os custos da indústria farmacêutica cresceram brutalmente. Para lançar um medicamento gasta-se em média US$ 1 milhão. Só as grandes, como Pfizer e Glaxo conseguem. Ao mesmo tempo há um decréscimo gigantesco de produtos novos. Tem maquiagem de velhos. Entrar na rota dos biofármacos abriu uma janela para as brasileiras. A Aché, a Hypermarcas e Cristália fizeram um movimento de se juntar, estão montando conglomerados e entrando mais pesado na área de pesquisa. Perceberam que se ficarem restritas ao que já fazem vão ser misturadoras de pó, vão continuar importando os princípios ativos dos genéricos da China, da Índia e só misturar aqui.

Qual setor está mais atrasado?

Uma área ultrassensível é a de saúde, que é preciosa para nós não só pelo valor industrial, mas porque diz respeito à nossa população. Importamos praticamente todos os equipamentos médicos. Temos 27 milhões de pessoas com deficiência no Brasil e temos dificuldades em fazer cadeira de rodas.

Há algum projeto para incluir mais as pequenas empresas?

Dentro do Inova Empresa, temos um programa de R$ 1,2 bilhão para descentralizar o crédito. Já credenciamos cinco bancos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Esse ano vamos credenciar dez bancos para cobrir o Brasil inteiro e o ano que vem queremos chegar a 17 bancos. A empresa vai buscar crédito nesses bancos em vez de ir à Finep. Isso é importante porque permite às pequenas acesso de melhor qualidade, pois muitas vezes elas já são clientes desses bancos.

Qual o prazo para aprovação de projetos na Finep?

Em 2011, levava 412 dias. Reduzimos para 112 dias e, a partir de julho, serão 30 dias. Estamos montando três grandes indicadores inéditos, em parceria com Serasa, Banco Central, Ipea, USP, Cedeplar, MIT (Massachusetts Institute of Technology) e Ministério da Inovação da Inglaterra. Ninguém tem isso, nem aqui, nem lá fora. Com as informações em tempo real, em 30 dias daremos retorno ao pedido.

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