Nossa geração nunca viu crise tão profunda, diz Mantega

Ministro diz que é preciso corrigir os erros do passado após passar a fase aguda da crise

Nalu Fernander, Agência Estado

11 Outubro 2008 | 12h41

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, destacou neste sábado, 11, em discurso no Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês), do FMI, "a situação crítica" a que foi levada a economia mundial. "A nossa geração nunca viu uma crise tão profunda. Especulação intensa nos mercados financeiros, falta de uma regulação e supervisão adequadas e mecanismos deficientes de resolução de crises em países importantes levaram ao que parece ser a pior débâcle financeira desde a Segunda Guerra Mundial", disse o ministro brasileiro, para, então, citar Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente dos EUA: "Estamos todos sofrendo as conseqüências do individualismo selvagem."   O ministro apontou que os Estados Unidos e a Europa estão no centro da tempestade financeira e lembrou que o FMI costumava tomar os sistemas financeiros dos países avançados como base para formular as chamadas 'best practices' para gerenciamento financeiro.   Por isso, ponderou, "uma vez estancada a hemorragia e ultrapassada a fase mais aguda da crise, caberá corrigir os erros do passado". "Espero que a crença infundada de que os mercados podem ser basicamente deixados a si mesmos ficará enterrada por um longo período", afirmou. Em seguida, o ministro Mantega recorreu ao economista John Kenneth Galbraith: "Para todos os efeitos práticos, deve-se presumir que a memória financeira dure, no máximo, 20 anos."   De toda forma, avaliou Mantega, "o modelo pré-crise", com base na premissa de auto-regulação, deve ser substituído por um "sistema cuidadosamente desenhado de controles e de supervisão". "Em muitos casos, dada a globalização das finanças, isso demandará estreita cooperação internacional", afirmou.   BRICS e o crescimento global - O ministro Mantega reconheceu que os países em desenvolvimento estão sendo crescentemente afetados pela crise, mas acrescentou que projeções do FMI para o PIB, revisadas para baixo, ainda indicam "taxas relativamente altas para o mundo em desenvolvimento em 2008 e 2009". O ministro citou que, de acordo com as estimativas do Fundo nos anos recentes, os países em desenvolvimento responderam por 75% do crescimento do PIB mundial, medido em termos de paridade de poder de compra. O Brasil, a China, a Índia e a Rússia continuam contribuindo com cerca de 40% do crescimento global. "Em 2009, os números do Fundo sugerem que a nossa contribuição para o crescimento mundial poderá ser ainda maior, dada a intensidade da desaceleração nos países desenvolvidos", acrescentou.   O ministro destacou ainda que, em 2007/2008, "o mundo se defrontou com o maior choque de commodities desde os anos 70" e citou impacto considerável sobre membros "mais vulneráveis", que sentem "um efeito desproporcional sobre os pobres", o que, em alguns países, tem causado crises políticas e sociais. Ao mesmo tempo, Mantega disse apoiar a intensificação da assistência técnica aos países membros sobre políticas de resposta ao choque de preços de alimentos e combustíveis e pediu que a assistência técnica "seja prestada de forma a levar em conta as necessidades individuais e as particularidades dos países".   "Também instamos o Fundo a fazer recomendações de política de forma eqüitativa e equilibrada", acrescentou. "Por exemplo, não apoiaríamos a inclusão de medidas de reformas de subsídios no mandato de monitoramento (do Fundo), se elas se referirem apenas aos países de renda média e baixa. Todos sabemos que os preços de combustíveis e alimentos são significativamente influenciados pelos subsídios agrícolas e políticas energéticas dos países desenvolvidos. O FMI tem o dever de adotar uma abordagem abrangente", afirmou.

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